"Os mais excitantes contos eróticos"

 

Ai, Luisinha, que vida a nossa!


autor: Rosário
publicado em: 03/06/17
categoria: bdsm
leituras: 846
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NOTA IMPORTANTE:
A acção deste conto decorre vários anos depois do outro, «Ai, Luisinha, que és tão mazinha!», que também se encontra aqui afixado, mas que foi escrito e publicado mais tarde, e em várias partes.

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Explicação prévia:
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No divertido livro «A Tia Júlia e o Escrevedor», a personagem a quem Vargas Llosa atribuiu esse nome escreve novelas rádiofónicas que, como muitos ainda se lembram, precederam, com não menos sucesso, as actuais telenovelas. Ora, esse “escrevedor”, além de fazer várias histórias ao mesmo tempo (o que, no fim, tem consequências extremamente divertidas — quando as confunde todas), usava um artifício para melhor encarnar as personagens: na medida do possível, mascarava-se como elas durante a redacção dos textos: punha e tirava perucas e óculos, vestia e despia roupas diversas, etc.
Como se verá, é a esse mesmo artifício que a minha amiga Luisinha recorre quando quer encarnar a estranha personagem de Lucrécia, em que se transforma todos os dias, depois do jantar. Vamos, então, à história.
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IMAGINE-SE a cara com que eu fiquei quando, ao tocar à porta da minha boa amiga Luisinha, ela me veio abrir... mascarada de domme! Sim, apareceu-me toda de negro!
— Que é isso!? — perguntei eu, estupefacto — Então agora recebes assim os velhos amigos, Luisinha?!
— Luisinha, não! Domme Lucrécia, se fazes favor!
Ora, como ela disse isso sem se rir, um de nós dois não devia estar bom da cabeça, pelo que era necessário haver uma explicação... e bem depressa!
E ela deu-ma. Mas, antes, levou-me para a sala de estar e, quando me viu confortavelmente instalado, ofereceu-me um brandy e sentou-se a meu lado.
Na nossa frente, bem visível, estava um computador ligado à internet e, pelos insistentes olhares dela para o monitor, percebi que a explicação do mistério passava por ali.
Mas vamos a uma coisa de cada vez.
— Estás bem sentado? — perguntou-me ela. — Espero que sim, pois o que vais ouvir pode ser uma grande surpresa para ti.
*
O que sucedera estava relacionado com a monotonia da sua vida, com os dias sempre iguais, com a ausência de objectivos e até mesmo com o afastamento de muitos amigos e familiares, devido a uma recente mudança de residência — e, como veremos a seu tempo, a nova casa era importante em tudo o que se estava a passar.
Ora, alguns dias antes, numa altura em que eu a vira mais triste e abatida, resolvera abrir-lhe algumas janelas para o mundo, e convencera-a a ligar-se à internet.
E foi assim que, literalmente de uma hora para a outra, Luisinha começou a navegar no ciberespaço, a descobrir inúmeras coisas novas que a interessavam, a ligar-se às redes sociais e a encontrar velhas amizades.
E, daí, foi um pequeno salto até cair a pés juntos no mundo do erotismo.
Ah!, e isso não foi por acaso, não!
Tal como eu sabia muito bem, ela era uma mulher bem fogosa, sem complexos de qualquer espécie e com uma sexualidade bem activa. Nesse aspecto, ela bem sabia como eu a desejava, o que muito a divertia, não me deixando, no entanto, que lhe tocasse nem com um dedo!
— Depois do jantar, eu sou a Domme Lucrécia — disse-me ela, rindo, e apontando para o computador!
— Sou a cruel Lucrécia, a rainha das dominadoras do Facebook, a Domme mais sádica que por aí se vê! — deu uma sono-ra gargalhada e prosseguiu:
— Já quase perdi a conta aos meus subs. Sabes o que isso é? Subs são submissos, escravos (virtuais, no meu caso). São os meus "vermes", e são já tantos que tive até de os numerar. Olha, está agora online o "Verme n.º 10". Espera só um bocadinho, vou despachá-lo, não demoro nada.
E Luisinha levantou-se do sofá, sentou-se ao computador, e desatou a teclar como se nunca tivesse feito outra coisa na vida!
Eu estava de boca aberta, e não a interrompi. Mas estiquei o pescoço e tentei ver o que se passava.
Ela notou a minha indiscrição mas, longe de se zangar, puxou uma outra cadeira para mim e fez-me sentar ao pé dela.
Confesso que fiquei perturbado... E motivos não faltavam!
Antes de mais, eu tinha ali mesmo ao lado o seu par de pernas magnífico, com umas botas extremamente eróticas — para já não falar em tudo o resto, que sempre me excitara. E — mais ainda! — sem nunca lhe ter confessado, eu fantasiava há muito tempo uma relação de dominação/submissão com ela.
E, afinal, ali estava a minha querida amiga, a encenar com outros — desconhecidos e certamente fakes — aquilo que eu sempre sonhara que fizéssemos os dois!
Confesso, para minha vergonha, que senti ciúmes...
Como disse, ela estava então a braços com um idiota que queria ser punido – sabe-se lá porquê...
Luisinha (ou antes 'Lucrécia', pois era nessa qualidade que ela agora ali estava) virou-se para mim e comentou:
— Hummm... Que punição lhe hei-de dar?
— Sei lá! Respondi eu com maus modos. Diz-lhe que vá ver se está a trovejar!
— A trovejar? Porquê a trovejar?
— Para ver se vem um raio que o parta!
Ela riu-se, e abriu um curioso ficheiro em Word intitulado "Punições", onde tinha anotada uma razoável quantidade de coisas e coisinhas que constituíam os "castigos" que dava aqueles palhaços!
Escolheu um ao acaso ("Põe-te de quatro e ladra 20 vezes") e, com copy/paste, respondeu ao indivíduo com isso!
E quando, pouco depois, começou a ler "Au-au...", riu-se, desligou o computador, virou-se para mim e perguntou:
— Então, meu querido, o que achas disto?
— Eu não acho nada — respondi — Cada um vive a vida à sua maneira, e se isso te diverte, fazes bem.
E levantei-me, preparando-me para me despedir, amuado, mas já com uma perversa ideia a germinar-me no cérebro...
Luisinha procurou reter-me. Olhava-me com um ar estranho, interrogativo, tentando perscrutar o que me ia na alma.
Talvez o conseguisse, percebendo como eu ansiava por lhe confessar a minha vontade de ser seu escravo — não virtual (como aqueles idiotas que eu vira), mas bem real, 24h por dia, e 7 dias por semana!
Mas o certo é que eu tinha vergonha de lho dizer, e ela também não estava à-vontade comigo acerca desse assunto.
E foi assim — pensativa e intrigada — que me acompanhou à porta e nos separámos com dois beijos na face.
*
Quem leu o que atrás contei e acompanha as redes sociais, decerto terá pensado o mesmo que eu.
A solução estava ali, debaixo dos meus olhos, no computador do meu quarto onde pouco depois eu me encontrava.
Não é preciso dizer mais nada, pois não?
Poucos minutos depois, já eu tinha criado três perfis falsos (fakes, como se diz na gíria).
Sim, nada menos do que três!
Num deles, eu era o "Cachorrinho Submisso", influenciado pelas botas com que ela me aparecera.
Noutro, eu era o "Dominador solitário", um machão em tronco nu, com as cuecas a verem-se e com um cinto na mão, pronto a zurzir as meninas e senhoras de meia-idade excitadas com "As 50 Sombras de Grey".
No terceiro perfil, eu era uma bela donzela, com ar sonhador, dando pelo suave nome de "Gatinha Carente", debruçada sobre uma tigelinha de leite e a olhar languidamente para o fotógrafo.
Já adivinharam:
Com esses três perfis, que cobriam as principais hipóteses, eu iria pedir amizade à minha Domme Lucrécia... e depois logo se veria o que fazer.
Perguntarão os leitores, certamente, qual o motivo do segundo perfil pois, sendo eu aquilo a que se chama um 'sub', que lógica tinha apresentar-me como 'Dominador'?
Havia duas respostas para isso: a primeira é que eu já vira que Lucrécia também aceitava 'Doms' entre as suas amizades — sim, cheguei a contar 35, muitos deles com imagens de perfil repetidas!
A segunda é mais rebuscada.
Eu explico: já perto do fim do romance "A Vénus das Peles" (a obra-prima de Leopold Sacher Masoch), Wanda, o paradigma da mulher sádica e cruel, troca o seu simpático escravo Severino por um grego dominador! Quem sabe se, no fundo, não era também isso o que a minha Luisinha desejava? Nada como experimentar... Veríamos.
*
Mas voltemos ao assunto.
Como a minha amiga não era ingénua e muito menos idiota, naturalmente esperava que eu fizesse isso mesmo — que a abordasse a coberto de um perfil falso.
Portanto, dei "algumas voltas" antes de lhe aparecer à frente com pedidos de amizade mais do que suspeitos.
Comecei, então, por ir à lista de amigos dela e pedi amizades a torto e a direito — Doms, dommes e subs de ambos os sexos (e mesmo de sexo indefinido e saltitante) abarrotavam a breve trecho a minha colecção de "amigos comuns", onde não faltavam chulos, prostitutos, travestis, exibicionistas... e tudo o mais que torna variado e interessantíssimo este mundo em que nós vivemos.
Claro que arranjei umas imagens para encher (muitas orações e ainda mais passarinhos), com que dei conteúdo aos meus perfis, mas vim a saber, depois, que fora tempo perdido, pois neste mundo do Facebook (onde não há tempo para nada) ninguém se preocupa muito com isso, nem sequer vai espreitar o que temos nas nossas páginas antes de aceitar as amizades.
E então, ao quarto dia, lancei o isco, sob a forma de três pedidos de amizade, espaçados de algumas horas.
*
O que se seguiu teve aspectos previsíveis e outros inesperados.
Os primeiros consistiram na aceitação, quase imediata, dos três pedidos de amizade.
Quanto aos outros, estão relacionados com a sua reacção.
Eu explico:
Como disse, Luisinha só se transformava em Domme Lucrécia depois de jantar, e por isso só dedicava algumas horas por dia a esse seu excitante hobby.
Ora, como tinha milhares de amigos, só prestava verdadeira atenção a uma dezena ou duas, pelo que eu iria ter de lutar pela sua atenção, fazendo qualquer coisa para sobressair da mediania.
Pareceu-me, então, que uma boa forma seria provocá-la, em-bora moderadamente e de uma forma inteligente.
*
Para se perceber o que eu então fiz, é preciso voltar um pouco atrás e dizer que, quando ela se transformava em domme, se fazia rodear, como O escrevedor do romance de Vargas Llosa, de toda a parafernália sadomasoquista que tinha à mão, para encarnar melhor a personagem em que se transformava. E, entre os inevitáveis chicotes, cavalos-marinhos, algemas e mordaças, figuravam as obras escolhidas de Sade e de Masoch.
Reparei, também, que o livro que ela tinha mais à mão era precisamente A Vénus das Peles, de que já falei - e muito bem, pois é uma verdadeira bíblia do Femdom.
E isso vinha bem a propósito, pois a minha ideia consistia em chamar a sua atenção, mostrando-lhe que tinha em mim um interlocutor ao seu nível.
Mas eu não podia usar essa táctica com as minhas três per-sonagens. Qual dos meus três perfis eu devia escolher, então, para o "assalto"?
Resolvi jogar tudo por tudo e provocá-la.
Isso era arriscado mas, certamente, iria chamar a sua atenção!
E assim foi!
Escolhi alguns trechos do tal livro (as partes em que a dominadora Wanda mostra o seu lado submisso) e mandei-lhos, a partir do meu perfil de "Dominador Solitário", e sem quaisquer comentários!
O resultado não se fez esperar, sob a forma de uma explosão de cólera, materializada numa torrente de palavras!
"Ah" — pensei eu, sorrindo, enquanto lia as suas invectivas — "Estamos no bom caminho!".
Eu tinha, pois, conquistado a atenção dela, o que, como se sabe, é o principal objectivo de um sub quando se depara com uma Domme que lhe interessa, e que tem mais “amigos” do que ideias na cabeça.
E isso foi de tal forma assim, que eu pude dar-me ao luxo de não lhe responder logo, como se tivesse mais que fazer do que perder tempo com uma Domme como ela!
Passava pouco das 9 h da noite do dia seguinte quando recebi mais uma mensagem sua, também ressumando ódio!
Era sinal, pois, que fora a primeira coisa que fizera nessa noite.
Armado em duro, não lhe respondi logo.
Ao fim de algum tempo, sem pressas, mandei-lhe então uma curta mensagem em que constava uma gravura de uma velha câmara de torturas... E esperei a reacção.
Não tardou muito, e a sua resposta foi assim:
"Reles réptil! O que me enviaste foi uma gravura e não uma fotografia. Quer isso dizer que não faz parte da realidade em que vives. Em troca, mando-te outra foto, com a diferença de que esta é REAL. Sim, leste bem. Esta é a minha câmara de torturas real, onde levo os meus escravos para os punir, para os obrigar a confessar qualquer coisa, ou apenas para me divertir. Pobre de ti, se algum dia te vejo acorrentado a esta parede!"
Fiquei de boca aberta pois, para meu espanto, Luisinha juntara uma imagem perturbadora: uma fotografia onde se via um troço de parede rústica. Numa das pedras (aparentemente de granito toscamente talhado) estava cravada uma grande argola de ferro, de onde pendia uma corrente enferrujada.
Não se via mais nada, e se calhar também não havia mais nada para ver!
Ainda não eram 10h da noite e, não aguentando mais a curiosidade, resolvi arriscar tudo por tudo... e aparecer em casa dela.
*
Nessa altura, não morávamos muito longe um do outro, e é claro que já não estranhei quando ela me abriu a porta envergando roupas de domme – estava na hora de ser Domme Lucrécia!
Desta vez, porém, trazia umas calças e um corpete de cabedal negro, justíssimos, mostrando (e até valorizando) o seu corpo maduro e perfeito.
Trazia os longos cabelos negros apanhados em rabo-de-cavalo, e alguns adereços de prata (como pulseiras, argolas, anéis e colares) tinham sido bem escolhidos, por forma a provocar um contraste ideal com a roupa.
Estava vermelha de cólera e extremamente agitada, e eu bem sabia porquê!
— Entra e senta-te, que tenho uma coisa espantosa para te contar!
E, não escondendo um enorme nervosismo, narrou-me deta-lhadamente aquilo que eu sabia melhor do que ninguém!
Por momentos, pareceu-me que olhava para mim com um ar estranho, como que tentando ler no fundo da minha alma, desconfiada...
Mas, depois, sentando-se ao computador, mostrou-me toda a sequência dos diálogos que mantivera — comigo... — pouco antes.
E comentou:
— Ah, se eu um dia apanho este estafermo a jeito!...
— O que é que lhe fazes? — perguntei eu, sorrindo, mas, no fundo, bem nervoso.
— Ainda não sei... Mas terei tempo de inventar para ele torturas novas e nunca aplicadas!
E voltou novamente o olhar para o monitor, esperando, em vão, que o seu "Dominador Solitário" voltasse a dar sinais de vida...
Apontei então para a última imagem (a da parede com argola) e perguntei-lhe onde era aquilo.
Notei algum embaraço da sua parte, mas acabou por responder:
— É da minha arrecadação do quintal, que cheguei a pensar transformar em garagem; mas como acabei por não comprar carro, continua a ser apenas uma arrecadação igual a todas.
Luisinha já me tinha falado nela, mas não ma mostrara, nem eu me interessara. No entanto, agora tudo era diferente, pelo que estremeci quando ela disse:
— Imagino que vais querer vê-la. Vamos lá, então.
*
Atravessámos a casa e, pela porta da cozinha que dava para as traseiras, acedemos a um pequeno quintal. Já era noite, e ela acendeu uma luz que pouco iluminava, mas tive de reconhecer que essa fraca luminosidade, só por si, já era perturbante.
A poucos metros de nós estava, semioculta por uma laranjeira e um limoeiro, uma velha construção em granito, coberta com hera entrelaçada de rosas bravas, ainda em bom estado de conservação, apesar de o telhado, em telha-vã, certamente deixar entrar a chuva.
A pesada porta, de carvalho negro, estava apenas no trinco, e eu não teria estranhado se rangesse.
Luisinha entrou à minha frente para acender a luz e, depois de o ter feito, eu pude ver aquilo que já imaginava: um amon-toado de coisas que todas as pessoas guardam sem saberem muito bem porquê: caixotes, garrafas, vasos, uma bicicleta ferrugenta, tijolos, revistas velhas...
Ah! E ali, perto da entrada, duas enormes argolas chumbadas na parede.
— Deve ter sido para amarrar os cavalos, pois isto é do tempo em que as pessoas tinham carruagens — comentou.
A corrente que eu vira na foto estava ali mesmo, caída no chão, mas eu nada disse.
— O que achas? — perguntou-me ela — Não se fazia aqui uma coisa bonita? Olha, repara que há ali ao fundo uma pequena divisão...
A luz era fraca e mortiça e eu não a tinha visto. Era apenas um cubículo minúsculo, com pouco mais de 1 metro de lado, mas mesmo assim tinha uma porta, embora a cair de podre.
— Talvez fosse para guardar os arreios ou a palha para os cavalos. Não se sabe. O que eu sei é que se podia fazer lá uma cela...
— Estás a falar a sério? — perguntei. — Uma cela para presos? Mas ouve lá: tudo isto é mesmo a sério?!
— Nunca falei tanto a sério na minha vida, meu querido. Não imaginas a quantidade de gente que anda no BDSM e que está disposta a pagar um dinheirão para alugar uma coisa destas. Depois de bem preparada, claro!
Pensando bem, ela tinha razão.
E se eu tivesse dúvidas de que ela queria mesmo levar aquilo a sério, o que em seguida disse dissipá-las-ia:
— Antes de mais, vamos tirar daqui o lixo todo.
"Vamos?!" — interroguei-me eu. "Pelos vistos, ela está a contar com a minha ajuda para esta maluquice! Mas tudo bem... Vamos lá ver no que dá...".
E deixei-a continuar:
— Depois, tratamos de meter uma boa iluminação.
— Uns archotes medievais, evidentemente... — aventei eu, procurando ser engraçado.
— Sim, claro, uns quatro ou cinco, mas serão dos verdadeiros, com resina, não quero aqui nada de electricidades. Até já sei onde os comprar. O mais difícil ainda vai ser a cruz de Santo André, a canga e o cavalete. Essas coisas podem encomendar-se, mas eu não quero dar nas vistas nem tenho dinheiro para isso. Achas que serás capaz de os fazer?
— Porquê eu?! Não tens entre os teus escravos-da-treta quem saiba fazer isso?
— Talvez tenha, sim — respondeu-me ela. — Mas para já eu não quero meter aqui estranhos. Esses amigos virtuais raramente são quem dizem ser.
— Então quando começamos? — limitei-me a dizer.
— Amanhã mesmo. Traz as tuas ferramentas e não te esqueças de uma extensão para ligar à tomada da cozinha. Eu estarei sempre aqui para te ajudar...
*
No dia seguinte, muito cedo, apresentei-me na casa dela, pronto para trabalhar e envergando uma roupa velha.
Luisinha, por sua vez, tinha uma bata vestida, com sapatos rasos e sem vestígios de pintura nem de adereços, pelo que não havia uma ponta de erotismo no seu aspecto.
"Ah, como as mulheres se modificam conforme se arranjam!" — pensei.
Eu tinha trazido o carro, que estacionara o mais perto possível do quintal, na rua das traseiras.
Bem... Como quase toda a gente já fez limpezas e arrumações, não vou aqui descrever em detalhe o que fizemos, que ainda demorou um bom par de dias, com pequenos intervalos para comermos alguma coisa, que eu mesmo ia comprar ali perto. Finalmente, ficou um trabalho bem feito!
*
Entretanto, ela e eu tínhamos esquecido completamente o tal "Dominador Solitário", e à hora a que ela costumava ligar-se à internet (e transformar-se em Domme Lucrécia) estávamos agora a carregar coisas, a varrer, limpar, lavar e aspirar.
Depois, seguiu-se a montagem dos archotes (que ela, entre-tanto, fora comprar), o arranjo das portas e a reparação de uma pequena janela gradeada que dava para o quintal, e cujos ferros estavam a desfazer-se com a ferrugem.
O cansaço e o esforço físico permanente quase faziam com que eu me esquecesse do essencial:
Estávamos ali, eu e ela, a preparar uma instalação para a prática de um BDSM bem forte - mas para outros, que não eu! Como seria, depois, na prática?
Ela fazia contas e mais contas, sempre partindo do princípio de que iria alugar aquilo e ganhar muito dinheiro. Eu não a queria desanimar, mas, no fundo, não tinha essas ilusões: com os seus contactos restringidos apenas ao Facebook, não seria fácil aparecer ninguém, a menos que ela se integrasse, também, na comunidade — mais ou menos secreta (ou, pelo menos, fechada) — dos praticantes de BDSM.
Mas eu alimentava outras ideias, bem mais egoístas:
Como já se percebeu, desde que a conhecera (e já lá ia um bom par de anos), eu tinha a fantasia de praticar com ela tudo isso.
Num desses dias, num momento de maior excitação, eu confessara-lho, e ela, como se fosse a coisa mais natural do mundo, olhara-me seriamente nos olhos e perguntara-me, sem desligar o aspirador;
— Querias, então, ser meu escravo, é isso?
Já que ela punha a questão em termos tão claros, só me restava fazer o mesmo, e respondi, baixando os olhos:
— Sim...
— Sim, o quê? Não entendo meias frases! — intimou-me.
— Sim, minha Senhora, quero ser o seu humilde escravo... — respondi, com a voz a tremer.
— Um escravo 24 horas por dia, 7 dias por semana? — quis ela ainda saber, enquanto desligava o aparelho.
E foi aí que eu hesitei, e foi com essa hesitação que estraguei tudo.
Eu tinha a minha vida privada e particular, bem longe do BDSM. Apenas poderia praticá-lo de vez em quando, e isso não a satisfazia.
— Prefiro continuar a não ter escravos do que ter um em part-time. Se não te importas, esse é um assunto de que não voltamos a falar... A menos que mudes de opinião, evi-dentemente — e retomou os trabalhos de limpeza, como se não se tivesse passado nem dito nada!
E agora ali estava eu, a dar os últimos retoques numa robusta cruz em X, acabada de forrar com napa preta e toda cravejada de pregos dourados, que eu mesmo fora comprar!
Tínhamos já combinado deixar para mais tarde a canga e o cavalete, que seriam caros e trabalhosos de fazer.
Tal como aquilo estava a ficar, já era suficientemente bom para — a acreditar nas ilusões de Luisinha — ganhar algum dinhei-ro.
Para compensar a redução dos equipamentos, eu tinha aproveitado um grande espigão (que havia no tecto) para lá fixar uma roldana que, completada com uma grossa corda de cânhamo e um forte gancho, constituía um artefacto de aspecto bem medieval.
E foi essa minha invenção que veio alterar tudo.
*
Foi assim:
Eu preparei isso sob a forma de uma surpresa, e montei o conjunto, em breves minutos, numa altura em que ela se ausentara.
Ficou encantada, quando voltou!
Era um dia de muito calor; ali dentro abafava-se, e eu traba-lhava em tronco nu.
Luisinha aproximou-se e mostrou-me umas algemas que tinha comprado. Eram pequenas, e pareciam de brincar. Pediu-me para eu as experimentar, e acedi.
O que eu fui fazer! De repente, e sem que eu ainda hoje saiba como tal sucedeu, dei por mim com os braços esticados bem acima da cabeça! Luisinha desviara a minha atenção para qualquer outra coisa e, aproveitando uns segundos de distracção, fixara o gancho nas algemas que eu tinha posto e, com uma rapidez assombrosa, pegara no outro extremo da corda e puxara-o.
Sim, puxara-o e fixara essa outra ponta da corda numa das argolas da parede!
— O que é isto, Luisinha? Mas que brincadeira é esta? Estou a ficar com dores nos pulsos!
Mas ela apenas se riu e, para minha surpresa, saiu porta-fora!
Percebi tudo rapidamente, e, se dúvidas houvesse, o regresso dela tirar-mas-ia!
*
Agora na pele de Domme Lucrécia (depois de me ter feito esperar quase uma hora!) Luisinha transformara-se comple-tamente, não só de aspecto como em termos psicológicos!
Era outra pessoa que ali estava!
— Estás bem, réptil? Espero que sim, pois vamos ter uma conversinha...
Eu não me encontrava em condições de dizer nada; nem queria, pois, de certa forma, também estava em vias de poder concretizar o meu velho sonho erótico! Devia, pois, estar feliz, se não fossem as algemas que se me cravavam dolorosamente nos pulsos — pelo que lhe pedi que, ao menos, as aliviasse. Mas acho que nem me ouviu e, antes pelo contrário, puxou ainda mais a corda, obrigando-me a ficar em bicos de pés e aumentando as minhas dores!
Depois, sem uma palavra, desapertou-me as calças, que baixou juntamente com as cuecas, e passou ambas sob os meus pés, fazendo com que, pela primeira vez, eu ficasse nu na frente dela!
Luisinha (aliás, agora, Domme Lucrécia!), então, fez-me rodo-piar um pouco (o que pareceu diverti-la bastante), e pegou num chicote longo, que tinha comprado sem eu saber.
— Estas coisas precisam de espaço... Aqui não há muito, mas deve ser o suficiente. Estou ansiosa por experimentar, meu querido!
Afastou-se então para um extremo da sala, fez estalar o chicote como uma domadora, e não demorou muito até que eu o sentisse nos rins — uma vez, e outra e outra...!
Doeu, doeu muito, e eu não estava suficientemente excitado para que a dor fosse sentida como prazer.
Ela observava discretamente o meu sexo, em busca de sinais de erecção, mas não se viam nenhuns!
— Estás muito insensível, meu lindo! Nem parece que andas há anos a desejar isto! Então? Não dizes nada? Descansa, que eu te farei falar!
— Por favor, Senhora — disse eu, recorrendo a termos apropriados para a situação — Porque está a fazer isto comigo?
— Não te estou a fazer nada... Garanto-te que nem sequer comecei! Mas acho que tens o direito de saber o motivo por que te vou torturar.
Não era difícil de adivinhar!
Desde que eu começara a vir para casa dela, o tal "Dominador Solitário" desaparecera, e ela limitara-se a “somar dois mais dois”, se é que não o fizera antes!
— Tenho então aqui, nas minhas mãos, o terrível dominador de mulheres! Ah, que delicia! E vais ficar ainda mais borrado de medo quando souberes o que ainda te espera!
Fez-me então rodopiar mais uma vez, virando-me de frente para uma coisa terrível: um velho braseiro de ferro forjado, cujo carvão tratou de acender!
Apesar de estar bem seco, não foi fácil, mas ela parecia tirar um prazer especial nessa demora e nessa dificuldade pelo que, se eu esperava que desistisse, só mostrava que não a conhecia.
Por fim, quando o carvão já estava bem aceso, colocou sobre uma tosca mesa que ali havia uns quantos ferros semelhantes, que apenas diferiam na sua extremidade – eram letras diversas...
— Já percebeste que te vou marcar, não é verdade? Vai ser com um D e um L, obviamente, e uma letra em cada nádega...
— Está louca?! — berrei eu quando a vi escolher esses dois ferros e metê-los no lume!
Fiz esforços desesperados para me soltar, mas tudo em vão!
— Não haverá nada que eu possa fazer para o evitar? — disse eu, em pânico, soluçando pela primeira vez.
— Não estou a ver o que possas fazer, réptil... Suplicar? Gritar? Mas isso não me vai demover, e até vai ser música para os meus ouvidos! E tanto, que nem te vou amordaçar! Aliás, quero que saibas que desde o início da tua brincadeira que eu sabia a verdade. Limitei-me a dar-te corda e a fazer-te vir aqui, preparar a tua própria câmara de torturas, onde tenciono divertir-me longamente contigo. Vais ficar aqui preso muito tempo. Vou trazer-te pão e água e farás as necessidades ali naquele buraco do canto, onde passa o esgoto. Vais dormir num monte de palha que farei o favor de te trazer... se te portares bem. De contrário, dormirás no chão, que é bem saudável.
— Até quando será isso, Senhora? — perguntei eu, horro-rizado, quando por fim me compenetrei de que ela falava a sério.
— Até eu me fartar de brincar contigo... — foi a resposta.
Entretanto, os ferros continuavam no carvão, e ela, por vezes, avivava as brasas com um pequeno fole! Preparei-me para o pior.
— Como te disse, não te vou amordaçar, porque quero ter um bom orgasmo com os teus gritos. E quanto mais gritares, mais saboroso ele vai ser. Quero que saibas que, desde que descobri a tua brincadeira, me tenho masturbado todas as noites a imaginar as torturas que te vou aplicar. Sim, meu lindo, vais saboreá-las todas, e não te vou poupar a nenhuma. Serão lentas, requintadas, deliciosas... Não sonhavas tu ser meu escravo? Então anima-te, réptil, que já és!
Puxou então para si um pequeno tripé de madeira, onde se sentou com as pernas bem afastadas, e em seguida fez-me dar mais meia volta, colocando-me de costas para ela e para o braseiro.
— Temos de esperar que isto aqueça bem, meu lindo. É a única forma de as letras ficarem bem nítidas.
Então, sem pressas, afastou bem as minhas nádegas e, sem ligar às minhas súplicas, informou-me que estava a procurar o sítio melhor para a marcação.
— Vai ser aqui — disse ela, roçando uma unha bem perto do meu ânus. Vai doer um pouco mais, mas tem a vantagem de que não se fica a ver nada. E se um dia casares, a tua mulher nem vai ver, e muito menos perguntar o que significam o D e o L...
Eu já só queria que ela acabasse depressa. Mas isso era não a conhecer! Aproximou o ferro do D da minha pele, fez-me sentir o calor (sem me tocar), e depois afastou-o, voltado a metê-lo no meio das brasas.
Em seguida fez uma pausa, e eu percebi, pelos seus gemidos, que se estava a masturbar! Ela tinha dito que queria ter um orgasmo com os meus gritos e, pelos vistos, já não faltava muito!
Por fim, e quase ao mesmo tempo que explodia de gozo, aplicou-me o ferro em brasa, com desnecessária fúria.
Desmaiei. Por capricho, fez demorar bastante a segunda mar-cação, também ela acompanhada de orgasmo seu e de desmaio meu.
A certa altura, supliquei que me desse água. Não ma negou, até porque precisava de mim bem consciente para poder saborear tudo o mais que queria fazer.
Pouco depois, eu disse que precisava de urinar. Riu-se, e disse-me que fizesse pelas pernas abaixo... Não consegui logo, mas mais tarde assim fiz, extremamente envergonhado.
Para me limpar, ela atirou-me um balde de água gelada, o que a divertiu bastante!
Por fim, já cansada, aliviou ligeiramente a corda, permitindo-me colocar os pés no chão e baixar um pouco os braços.
Depois, para meu grande terror, deu-me as boas noites, apagou o único archote que estava aceso e saiu, fechando a pesada porta de carvalho atrás de si!
E foi assim que passei a noite mais desconfortável da minha vida, mas que foi apenas um aperitivo (como ela disse) para o inferno que me esperava dai para a frente — naquela sala... e não só.
*
Iniciara-se, assim, a minha vida como fiel adorador de Luisinha (de dia), e como simples escravo de Domme Lucrécia (de noite)!
.
FIM (?)
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NOTA adicional: Este texto foi integrado na Parte II do conto "Terror no Canavial".



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