"Os mais excitantes contos eróticos"

 

A HISTÓRIA DE OLGA (1995)


autor: Rosário
publicado em: 26/03/17
categoria: bdsm
leituras: 855
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Por Rosário

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CAPÍTULO I
«JULGO (mas não tenho a certeza) que hoje é dia 3 de Maio de (...), 4ª feira. E digo que não tenho a certeza por um motivo bem estranho: é que há quase um ano — se não mais — que a Princesa Minha SENHORA me mantém cativo nesta masmorra do seu palácio sem deixar que eu veja, ao menos, uma réstia de sol!
Perguntar-se-á, certamente, como é que, apesar de tudo, eu tenho a noção do tempo. É, infelizmente, fácil:
Todos os dias, por ordem expressa da SENHORA, uma das suas escravas toma-me a seu cuidado (passe o humor da expressão...) e diverte-se comigo como decerto imagina quem já ouviu falar dela... Como não parece haver nenhuma ordem certa para a escolha das servas, nunca sei qual me vai aparecer no dia seguinte pela frente. Isso não teria muita importância se todas fossem igualmente cruéis, e tanto faria uma como outra... Mas a realidade é um pouco pior: acontece que, de entre todas, há uma tal Zélia que consegue ser ainda mais requintada, e — por um motivo que eu nunca descortinei — as quartas-feiras são-lhe dedicadas.
Já não têm conta as vezes que a tive na minha frente, mas a última deixou-me marcas (físicas e psicológicas) que não esquecerei — nem que viva 100 anos!
Eu estava ainda a tentar adormecer (depois de uma terrível noite de frio), quando senti a chave a rodar na fechadura ferrugenta... A porta abriu-se, rangendo, e eu levantei-me, estremunhado. Rapidamente se fez luz no meu espírito, e a realidade mostrou-se em toda a sua crueza: na minha frente, imponente, o vulto majestoso de Zélia aparecia emoldurado pelo aro negro da porta... Vi então que empunhava um archote na mão esquerda. Quanto ao terrível chicote que trazia na direita, não era novidade...
Eu tivera já muitas ocasiões para saber o que devia fazer: Saltei da enxerga, limpei os olhos à pressa, e, cambaleando, aproximei-me um pouco dela, mas não demais. Em seguida, como um autómato, ajoelhei a seus pés. Ela, entretanto, sem me dar muita atenção e continuando sem dizer palavra, acendeu um dos archotes fixos na parede. A pouca luz que se fez foi, no entanto, suficiente para reparar que ela trazia umas botas novas, de coiro brilhante, altíssimas, e de enormes saltos de aço que mais pareciam agulhas.
Eu sabia que era minha obrigação matinal beijar-lhe os pés, e receei, por instantes, que essa minha pequena hesitação me valesse a primeira chicotada do dia... Apressei-me, pois, a fazê-lo, e qual não foi o meu espanto quando a vi erguer o braço possante! Encolhi-me, instintivamente, e esperei o golpe, que, no entanto, não veio. Mantendo o braço tenso, Zélia vociferou:
— Quem te autorizou, verme, a sujar as minhas botas novas com o teu focinho imundo?!
Não me espantei. Já em tempos se passara uma cena exactamente igual com outra mulher. Eu iria ser punido por não beijar ou por me ter atrevido a fazê-lo... Restava-me tentar aplacar-lhe a fúria... Mas mesmo nisso eu sabia que não ia ser bem sucedido, porque o que leva todas estas mulheres a maltratarem-me não é o simples facto de me punirem por qualquer falta (real ou fictícia) mas sim o prazer sádico em que todas são viciadas.
Restava-me, pois, entrar no “jogo” e titubear:
— Perdão, SENHORA, não reparei...
Eu devia saber que isso de nada me ia valer... A chicotada veio. Uma única. Mas fortíssima, firme e bem aplicada como sempre... Dessa vez foi nos rins. Saltei, ganindo, a tempo de a ouvir dizer, fingindo-se furiosa:
— O quê?!! Atreves-te a dizer que não reparaste nas minhas botas novas?!! Estive eu a pôr-me bela para te visitar e ouço uma coisa destas?! Então? E não reparaste em mais nada, estafermo?
Eu tremia, encolhido de pavor. Bem a conhecia, e íamos entrar num jogo perverso em que todos os motivos e pretextos iam ser bons para me atormentar.
— SENHORA, — gemi eu — perdoai-me se devia ter reparado em mais alguma coisa... mas está tão escuro aqui!
— Levanta-te, animal! Está visto que nunca mais aprendes... mas eu vou-te ensinar!
A custo, e sempre receando o chicote que me esforçava por não perder de vista, levantei-me. Ela agarrou-me então bruscamente por um braço e arrastou-me para fora da masmorra. Era frequente isso acontecer. Umas vezes eu era levado à presença da princesa Olga, outras vezes queriam que eu fizesse algum trabalho mais pesado, mas outras vezes... era simplesmente para me levarem à câmara de torturas...
E, infelizmente para mim, era claro que estávamos no último caso. Se eu dúvidas ainda tivesse, rapidamente desapareceriam quando a vi escolher, por entre um enorme molho de chaves gigantescas, uma muito especial, já minha velha conhecida...
Foi rápida a abrir a porta e a empurrar-me para dentro, com violência. Havia archotes já acesos, prova de que a sala tinha sido preparada recentemente. Não tive pressa de olhar à volta. Todo aquele ambiente de terror era, infelizmente, bem meu conhecido... ali passara já as mais horrorosas horas da minha vida, por paradoxal que pareça acompanhado pelas mais belas mulheres do reino...
— Está aqui, Senhora... — disse ela.
Com quem falaria?! Então não estávamos sós?! Olhei em volta, aturdido com a situação, completamente nova nesse aspecto. Era frequente eu ser posto a tormentos, mas inevitavelmente isso era feito sem testemunhas! Percebi então o que se passava: a um canto da sala, e num sítio de onde se podia abarcar tudo o que nela acontecesse, estava um pequeno estrado, sobre o qual tinha sido posta uma majestosa cadeira. E, sentada nela, a Princesa, em pessoa!
Zélia, como se agisse de acordo com instruções prévias, poisou o chicote e pegou-me com brusquidão. Sem hesitações, fixou nos meus pulsos um aros de ferro, munidos de correntes, e que não eram novos para mim. Eu até já sabia o que ia acontecer, e não me enganei: Ela começou a manobrar uma manivela ferrugenta e eu comecei a ser esticado e elevado bem acima do chão. Os pulsos doíam-me horrivelmente. Em geral, esse facto provocava os meus primeiros gemidos e as minhas primeiras súplicas, mas contive-me e isso não lhe agradou:
— Então? Estás armado em valente?! É por causa de estares na presença de Sua Majestade? Já vamos então ver essa tua valentia!
Eu fora, desde sempre, proibido de olhar de frente para a Princesa. Mas, através de um reflexo de uma chapa polida, conseguia, embora com alguma dificuldade, vê-la com razoável nitidez. Aliás, nunca a vira tão claramente. E, talvez por eu estar tão obcecado com a sua beleza ofuscante, esquecia-me das dores... Notei então que Ela me observava com atenção e sem dizer uma palavra. Ordens, quando as dava, era por gestos, que a serva bem compreendia e executava. Quebrou por fim o silêncio, e disse, com voz cínica:
— Agora reparo! Como é que esse estafermo se atreveu a estar na minha frente sem rastejar, e sem sequer ajoelhar?! Como é que tu andas a educar os meus escravos, estúpida?!! Escolhe, cabra! Ou o castigas exemplarmente agora mesmo, ou mando pôr-te a ferros!
Claro que era tudo um jogo. Um jogo cruel, de que eu já tinha ouvido falar. O que se passou a seguir era previsível: Zélia fingiu-se aterrorizada, afastou-se de mim, e foi ajoelhar aos pés da SENHORA e Dona, pedindo perdão e soluçando convulsivamente...
— Perdão, Majestade! Mas eu tenho feito tudo para educar este verme! Já não têm conta as vezes que eu o trago aqui à câmara de torturas para o ensinar!
— Sim? Não parece! Ora dá-me lá um exemplo do que lhe costumas fazer...
Ela não esperava outra coisa. Levantou-se, nervosa, tirou da parede um archote, e acendeu um braseiro de ferro, cheio de carvão que em breve ficou em brasa.
Eu estava de costas, de olhos baixos, tentando adivinhar o que é que elas me preparavam. Vim a percebê-lo quando senti o cheiro do fumo e do carvão. Estaria, como de tantas outras vezes, a pôr a aquecer as turqueses e as tenases? Tudo levava a crer que sim, mas ela estava impaciente por me martirizar e não queria esperar até que os ferros estivessem ao rubro, o que em geral demorava um bom quarto de hora. Percebi então o que me ia fazer: com algum esforço, arrastou o braseiro para debaixo dos meus pés e dirigiu-se à manivela.
— Não eras tu que te queixavas do frio das masmorras? Vou então aquecer-te...
Como eu já esperava, começou a descer-me, muito lentamente, observando a minha cara com a maior atenção, vendo quando é que a minha resistência à dor quebrava e os gemidos e gritos começavam... Não faltaria muito...
A Princesa — notei-o num relance — levantara-se e estava agora junto de mim, mais perto ainda do que a carcereira, e podia sentir-lhe o perfume intenso... A medo, sem ousar olhar para ela descaradamente (o que me podia custar bem caro...) consegui ver, porém, como era bela! Bela e tremendamente erótica, aliás. Não sei como é que, sujeito a uma tortura que ainda estava no início, eu conseguia dar atenção a isso, mas o facto é que assim era! Apesar do frio, a bela mulher exibia uns seios enormes, belos, carnudos, que não procurava ocultar. Tenho até a impressão de que, discretamente, os desnudava muito para além do normal apenas para ver até que ponto me perturbava...
Quebrou o silêncio, mais uma vez, agora dirigindo-se a mim, em tom hipócrita:
— Esta Zélia é tão mazinha, não é?
Não esperava que Ela me dirigisse a palavra. Eu ia ter que responder... Mas dizer o quê, sem incorrer na fúria de uma ou da outra? Julguei-me muito esperto por ter encontrado uma resposta:
— SENHORA, Zélia apenas cumpre o seu dever...
— Ouviste o que ele disse, estúpida? Então vá, cumpre o teu dever!
A serva riu-se, nervosa e excitada, e em breve os meus pés roçavam as brasas, o que me fez espernear e a elas rir... Notei, então, que algo se passava de anormal, porque quando eu era sujeito a essa tortura costumavam amarrar-me os pés. Vim a perceber, pelas conversas delas, que tinha sido a Princesa que tivera a ideia de, dessa vez, me deixar assim, pelo extremo gozo que lhe dava ultimamente ver os escravos a espernear durante os longos e cruéis suplícios que ela mesma inventava e aplicava...
Eu já tinha ouvido dizer que era frequente reunir servas, amigas e muitas convidadas (em festas que ficavam famosas pelo luxo deslumbrante), e pô-las a discutir e inventar punições, torturas e tormentos que depois punha à votação. Em seguida, a ideia mais votada era posta em prática, em escravos que ela comprava para o efeito ou que as amigas (já sabedoras dessa prática), lhe levavam ou ofereciam.
A minha experiência nesse capítulo também veio a ter lugar, como contarei... Mas voltemos à câmara de torturas...
A Princesa abriu uma pequena caixa de coiro que trouxera, e tirou dela duas pequenas peças que eu não percebi logo o que eram. Mas não perdi pela demora, como se imagina. Enquanto eu, desesperado com as dores nos pulsos e nos pés começava já a gemer e a suplicar piedade, a bela mulher aproximou-se de mim mais do que nunca. Deu especial atenção ao meu peito, e concentrou o olhar nos meus mamilos. Tornava-se evidente que, fosse o que fosse que ela se preparasse para me fazer, isso tinha a ver com essa parte do meu corpo e com o que ela fora buscar à maldita caixa... Mas não o soube logo. Ela estava bem ciente de que muito do sofrimento que se provocava naquela sala era obtido precisamente pela dúvida do que iria acontecer, pela incerteza da vítima sobre o seu futuro imediato. Assim, também não me admirei quando me dirigiu a palavra, enquanto ao de leve me arranhava o peito com as longas unhas e me dava ligeiros beliscões nos mamilos:
— Esta parte do teu corpo não tem merecido a atenção que merece, pois não?
Atrevi-me a não responder. Instantaneamente, Zélia levantou o chicote, para me punir por isso, mas a Princesa travou-a, com um gesto brusco e rindo, nervosa...E foi então que eu vi o que ela tinha nas mãos: duas molas de aço, semelhantes a dois crocodilos. Mostrou-mos explicitamente, pondo-os bem na frente dos meus olhos, e obrigando-me a encará-los, enquanto os manejava, abrindo-os e fechando-os repetidamente.
— Percebes para que é isto, não percebes? És estúpido mas não tanto... Já viste que te vou aplicar estes brinquedos aqui, que estes dentinhos se vão cravar na tua carne...
— Vai doer-te um bocadinho, mas não achas divertido? Voltei a não responder...
— Sabes o que eu faço aos escravos que não respondem quando lhes faço uma pergunta?! Faço-lhes o mesmo que aos que se atrevem a falar quando eu não mando! Corto-lhes a língua, eu mesma! Ouviste, animal?!?
Puxou de um pequeno punhal bem afiado e exibiu-mo. Eu tremia como varas verdes e nem conseguia falar...
— Tremes?! Terás frio?! As brasas não estão ao teu gosto? Que pena...Pois é... Não te corto já a língua porque quero primeiro ouvir com nitidez as tuas súplicas quando te fizer isto!
E, frisando estas palavras, aplicou-me lentamente as molas, uma após outra, arrancando-me gritos lancinantes que as deliciaram. Olga, então, afastou-se de mim e voltou a sentar-se.
— Agora é todo teu, Zélia... Chicoteia-o ou faz dele o que te apetecer. Só não te admito que o faças desmaiar, pois quero-o bem lúcido para que aprecie as surpresas que ainda lhe reservo...
A cruel carcereira não se fez rogada, e as chicotadas choveram no meu corpo, ritmadas, firmes, correndo-o dos pés à cabeça, à frente e atrás, retalhando-me a pele... Pelas gargalhadas que davam, cheguei a tentar controlar-me, mas era impossível totalmente. Por fim, fatigada, parou por momentos. A Princesa, então, voltou a aproximar-se de mim e, inesperadamente, retirou as pinças. Sussurrei um agradecimento, que a fez sorrir cinicamente, e voltou a colocá-las, provocando-me dores duplicadas devido ao facto de os mamilos estarem extremamente sensíveis.
Devo ter desmaiado, pois só me lembro de ter dado acordo de mim quando me vi deitado nas lages geladas. Cheguei a ter a ilusão de que estava de novo na minha cela, mas não. Eu encontrava-me ainda na terrível câmara, bem aos pés da Princesa, e sentindo uma estranha dor na espinha. Elas aguardaram que eu recuperasse bem a consciência, e só então me interpelaram:
— Então? -perguntou a serva -Por que esperas?
Percebi então o que é que eu sentia nas costas: Zélia apoiava, com força, o salto da bota direita bem nas minhas vértebras, reduzindo-me à mais completa impotência e submissão. Eu titubeei, com voz quase inaudível:
— O que é que eu devo fazer, SENHORA?
A resposta veio acompanhada de um aumento da pressão do salto, fazendo-me ganir:
— Não sabes?! Há quanto tempo eu te ando a ensinar as boas maneiras, animal?!!
Eu bem sabia o que elas queriam de mim. A sessão estava a chegar ao fim, e elas queriam encerrá-la com a suprema humilhação: queriam que eu lhes agradecesse tudo o que me tinham feito! E o pior é que eu sabia, por experiências anteriores, que o iam conseguir sem grande dificuldade. E então porque é que eu quase sempre resisto? Ainda hoje não sei... Talvez uma réstia de dignidade me obrigue a estas cenas finais, mas é algo superior a mim... E, no entanto, esse pequeno orgulho, em breve esmagado, só serve para prolongar o meu sofrimento. Nesse dia, como das outras vezes, recusei obedecer. No fundo, era o que elas queriam e esperavam. Zélia baixou-se, pegou-me pelos cabelos, levantou-me um pouco e forçou-me a ajoelhar na frente de Olga. Eu ainda mantinha os “crocodilos” postos, embora já me tivesse habituado à dor que provocavam e quase não os sentisse. A escrava puxou-me as mãos para trás das costas e algemou-me. Fiquei ainda mais à mercê delas.
Cada uma das pinças tinha uma argola na ponta.
A Princesa, então, tirou da caixinha uma pequena corrente, e fixou cada um dos seus extremos nessas argolas. Pegou-lhe pelo meio com o indicador da mão direita, e puxou-a para si. A única forma que eu tive de contrariar a dor que imediatamente senti foi rastejar para mais perto dela. Então, fingindo-se furiosa, aplicou-me um tremendo par de bofetadas como nem mesmo a possante Zélia faria! Insistindo em vergar-me até desfazer qualquer réstia de dignidade que eu ainda me atrevesse a querer manter, colocou a mão que me esbofeteara junto à minha boca e ordenou secamente:
— Beija-a!
Com a outra mão, continuava — usando só a força de um dedo! — a torturar-me os mamilos horrivelmente, e dei por mim, quase sem querer, a vergar-me para lhe beijar a mão. Deliciada, Zélia assistia à cena, fazendo comentários grosseiros que contrastavam com o sadismo subtil da Dona... No entanto eu continuava a resistir à ordem concreta para lhes agradecer. E esse facto, que não estava esquecido, ia ser a sobremesa dessa sessão. E, no fundo, a culpa era minha, e da minha teimosia, tão inútil quanto estúpida!
A serva mantinha-me subjugado segurando-me os cabelos. A Princesa, abrindo mais uma vez a odiosa caixa, tirou de dentro dela mais um minúsculo objecto, desta vez uma espécie de cesta de arame! Ainda tardei a aperceber-me da utilidade de tão insignificante objecto... Fixou-a, com um pequeno gancho, no centro da corrente, ficando a baloiçar, um pouco afastada do meu peito, pois Zélia forçava-me a manter a cabeça curvada. E foi então que se passou uma coisa incrível: a Princesa levantou-se, foi junto do braseiro e pegou numa pequena tenaz. Empunhando-a, escolheu depois uma brasa, não muito pequena, mas de tamanho suficiente para caber na tal cesta...
E lá a colocou.
— Percebes o que te espera, animal?
— Percebo sim, SENHORA... A brasa vai aquecer a corrente, depois as pinças...até me queimar os mamilos...
— Vês que não és tão estúpido como pareces? — ironizou a bela mulher .-Então porque não fazes já o que te mandaram?! Custa-te assim tanto humilhares-te? Não vês que isso não tem grande significado comparado com o sofrimento que te espera se recusares? Não falas?! Então está bem... Fica aí a aquecer...
E, dizendo isto, e para meu grande espanto, as duas mulheres saíram da câmara!
Isso era horrível, porque, no meu íntimo, eu sabia que acabaria por ceder se — ou quando — as dores se tornassem insuportáveis, o que implicaria, em princípio, a suspensão da tortura. Mas assim, com a saída de ambas, a minha situação arriscava-se a ser insustentável e sem saída. Foi por isso que, no auge do pânico, e descontrolando-me por completo, comecei aos gritos, chamando por elas, e prometendo antecipadamente cumprir todas as exigências que me fizessem. Vim a saber que as duas tinham ficado por trás da porta, sem que eu o suspeitasse, deliciadas e excitadas com o que ouviam. Como não respondiam, eu não sabia qual ia ser o desfecho, e a única coisa certa era que as terríveis ferragens estavam a ficar cada vez mais quentes...
Foi com um alívio indescritível que as vi voltar... Sem mais delongas, rojei-me aos pés delas, suplicando-lhes que me soltassem...
— Então, animal? Vergámos-te ou não?!
— Como sempre, SENHORA.... — sussurrei, tremendo.
— Vá! Então?! Não temos o dia todo! — reclamou a Princesa com as mãos nos quadris.
Senti faltar-me a respiração... Eu ia finalmente ceder... Se dúvidas tivesse, o calor crescente e insuportável tirar-mas-ia...
— Obrigado... — titubeei...
— Mais alto... Não ouvi bem!
Repeti, mais alto, mais alto... até elas se rirem à gargalhada.
— E “obrigado” porquê? — perguntou a carcereira, sarcástica...
— Obrigado... Senhoras... pela... punição...
As dores eram já tantas que eu quase não conseguia raciocinar com lucidez. Mas elas não tinham pressa, e estavam dispostas a espremerem-me como a um limão.
— E pode-se saber porque é que te castigámos? Achas que fomos injustas ou excessivas, estúpido?
O jogo era agora simples: elas vergavam-me até aos extremos mais incríveis da subjugação, torturando-me com palavras, saboreando o prazer supremo de me dominarem sem quaisquer limites... Apressei-me a responder, tentando abreviar o meu já longo suplício...”


CAPÍTULO II
— O QUE achas do guião? — perguntou Olga à amiga.
— Está interessante, mas parece-me um bocado violento, logo para início... acho que vamos ter grandes dificuldades em arranjar um indivíduo que se ofereça para actor desse filme...
Olga e Zélia estavam sentadas numa esplanada, longe de ouvidos indiscretos. Desde longa data que ambas — e especialmente a primeira — acalentavam o sonho de dirigir um filme erótico, centrado no tema do sadomasoquismo que tanto as obcecava.
As duas tinham, em sociedade, comprado uma pequena loja de venda e aluguer de vídeos. Ora uma, ora outra, ora ambas, mantinham sob grande vigilância todos os clientes e sócios que compravam ou alugavam filmes sobre BDSM. No seu computador constavam os dados essenciais (completados com uma ou outra nota que achavam de interesse) relativos a eles: nomes, moradas, telefones...
Aproximava-se o grande dia, em que iam começar a sondar os clientes que lhes pareciam capazes de as satisfazer.
— Eu, por mim, atacava aquele atrevido, o tal Duarte, que não tira os olhos de ti quando vai à loja. Não achas que ele tem cara de quem aceitava meter-se nesta embrulhada?
— Talvez tenhas razão... Deixa-o comigo...

CAPÍTULO III
NÃO TARDOU muito que esse tal Duarte aparecesse de novo no clube.
Era divertido vê-lo aproximar-se: começava de longe, a rondar a loja, dava voltas e mais voltas, e só entrava quando tinha a certeza de que não havia mais clientes. E nesse dia não foi excepção: entrou, deu uma vista de olhos pelas prateleiras, disfarçando, e por fim começou a ver, um pouco envergonhado, os filmes pornográficos. Olga, embora não o perdendo de vista, não se mostrou logo. Só quando ele se dirigiu ao balcão, tendo na mão o filme Prazeres Bizarros, resolveu provocá-lo.
A bela mulher, tendo-se preparado para a situação, vestira as roupas mais eróticas que encontrara, procurando dar ênfase a tudo o que pudesse ter conotações sadomasoquistas: calças de cabedal, muito justas; cinto negro, largo e cravejado; botas altíssimas; argolas enormes; colar metálico... mas, acima de tudo, um corpete preto, extremamente apertado, fechado com atilhos, de onde transbordavam uns seios enormes e belíssimos, que instantaneamente enlouqueceram o homem, deixando-o paralisado, sem saber o que dizer... E foi ela que, sorrindo, se lhe dirigiu:
— Faz bem em levar esse filme, Sr. Duarte. Dentro do género é o melhor que cá temos... Até estou admirada como é que nunca o escolheu antes!
— Porque é que diz isso? — perguntou ele, sem saber muito bem o que estava a dizer e estranhando que lhe soubessem o nome.
Sentindo-se completamente senhora da situação, Olga, sem dar explicações, fechou discretamente a porta do estabelecimento e voltou para o balcão. Nada a podia divertir mais do que a vergonha e atrapalhação que se estampavam na cara dele.
— Porquê?! Porque aqui no computador temos registados todos os filmes que os sócios levam, com indicação do género, e o senhor até agora só tem levado filmes sado-masoquistas... Ó sr. Duarte — continuou ela, aproximando-se com um sorriso cúmplice — não precisa de ficar corado, nem com vergonha! Não imagina a quantidade de sócios que só levam desses vídeos! Ora veja...
E começou a teclar no computador para provar o que dissera.
Notando que, por momentos, ela desviava dele o olhar, fixando-se no monitor, Duarte sentiu-se um pouco mais descontraído e deu mais atenção àquela espantosa visão de mulher. Agora o que lhe chamava mais a atenção eram os braços: roliços, perfeitos, decerto macios mas também firmes, e vigorosos, a descobrir uns sovacos que o enlouqueciam. Embora parecesse compenetrada no trabalho Olga seguia atentamente (pelo reflexo no vidro do écran) toda a perturbação que causava nele, e o suplício de Tântalo a que o estava a submeter enlouquecia-a de gozo...
— Aqui está — disse ela — venha ver deste lado. Dê a volta ao balcão, Sr. Duarte.
Ele assim fez, ficando, por força das circunstâncias, mesmo ao lado dela, sentindo-lhe o perfume e quase a roçando. Vendo-a inclinada para o écran pôde observar-lhe os seios como nunca pensara ser possível. Sentiu-se sem jeito quando ela, descaradamente, se virou para ele e comentou, fingindo-se zangada:
— Oiça lá! Eu chamei-o para aqui para olhar para o monitor, não foi para estar para aí, feito parvo, a olhar para o que não deve!
O homem sentiu faltar-lhe o ar, de tão envergonhado que ficou. Baixou os olhos, estremeceu, e sussurrou uma desculpa inaudível.
Sentindo-se cada vez mais senhora da situação, Olga não deixou cair o assunto e, encarando-o fixamente nos olhos e fingindo-se ofendida, perguntou:
— Disse alguma coisa?!
— Desculpe... Pedi desculpa...
— Bem... vamos lá a ver se a gente se entende... Já nem sei de que é que estávamos a tratar...
Ela bem sabia, mas dava-lhe um gozo extremo obrigá-lo a falar, a responder... levando-o a expor todo o seu nervosismo. Cruzara as pernas, comprimindo o sexo com força. E agora eram elas que, moldadas até ao último pormenor pelas calças justíssimas, tinham a função de prosseguir a provocação. E foi ele que teve de retomar a conversa:
— A senhora estava aí a procurar no computador os sócios que escolhem filmes eróticos...
— Sim, pois, era isso... — e continuou teclando — olhe aqui: “O Prazer Sado-Masoquista”, visto por 13 sócios em menos de um mês...”O Escravo de Dora”, visto por mais de 20... “Zara, A Torturadora”, já nem tem conta... esse que você leva aí, apesar de não ser dos mais requisitados é, sem dúvida, o mais interessante de todos... Por acaso já o vi 4 ou 5 vezes, e ainda o hei-de ver mais, se Deus quiser...
— É assim tão interessante? — estranhou ele — Eu não consigo ver um filme mais do que uma vez ou duas! O que é que este tem de especial?!
— É que, tal como muitos outros, foi filmado cá em Portugal. Isso não teria grande importância, mas, como eu conheço os cenários, nunca me canso de o ver. O filme passa-se para os lados da Serra de Sintra, num dos palacetes de Monserrate. Conhece o lugar?
Ela julgava saber de antemão a resposta: Ao fazer-se sócio do Clube Duarte dera como morada uma casa nessa zona, e esse facto tivera muita influência na escolha que as duas mulheres haviam feito da sua “vítima”. Ele ficou ansioso por saber mais pormenores, mas Olga encerrou a conversa, levantando-se e levando-o (mais do que acompanhando-o) até à porta.
Quando saíu, as pernas tremiam-lhe, a caixa com o filme parecia arder nas suas mãos, e subiu as escadas de casa a quatro e quatro, sem paciência sequer para esperar pelo elevador.
Viu o filme em acelerado, tentando descobrir os locais conhecidos, mas sem êxito. Em fundo, em imagens desfocadas e fugidias, via-se uma profusão de vultos em estranhos jogos. Enquanto rebobinava a fita, para a voltar a ver — agora com mais vagar — dirigiu-se à cozinha e tomou um calmante... Por fim, sujeito a uma excitação sexual que julgara impensável, viu o filme. Não era nada de especial. Dentro do género o clube tinha outros mais interessantes. Neste, havia uma masmorra, uma sala de torturas, alguns escravos amarrados pelas paredes, e todo o filme se passava, ora numa sala ora noutra, com 3 ou 4 belíssimas mulheres, de chicote em punho, a açoitar os “desgraçados”... E pouco mais, durante 35 minutos.
Para sua grande decepção não havia qualquer vista do exterior que pudesse denunciar onde o filme fôra rodado. No entanto, lendo com atenção a ficha técnica, podia-se ver uma referência em letras pequenas dizendo “Sintra, Portugal”... e até alguns nomes portugueses, entre actores e técnicos.
Mas o que mais o espantou foi o facto de, apesar de a câmara de torturas estar incrivelmente bem encenada, nenhum dos seus aparelhos ter sido usado uma única vez! Teria coragem de comentar esse facto com Olga, quando fosse devolver o filme? Aliás, teria inclusivamente coragem de encarar essa mulher, uma estranha, que, em poucos minutos, ficara a par da sua perversão mais secreta?!
Desde muito novo que Duarte se sentia submisso, mas contavam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que o sabiam! Apenas prostitutas, uma ou duas, pessoas anónimas e habituadas a tudo, que nem sequer davam qualquer importância a esse facto que ele escondia acima de todos os segredos! E agora, por um descuido, ei-lo nas mãos de uma estranha, com registos de computador e tudo... Quem sabe se não seria mesmo uma chantagista?!
Recordando o que se passara nas últimas horas, e somando a isso a excitação provocada pelo filme, foi inevitável a masturbação a que procedeu e a que, em breve se seguiu outra. E uma terceira, bem mais tarde, enquanto tentava desesperadamente que o sono viesse...

CAPÍTULO IV

— ENTÃO, como correu? O tipo sempre lá foi?
Zélia não podia esperar mais, ardendo de impaciência, e telefonou à amiga a meio da noite. Olga já esperava isso, e não se deitara. De qualquer forma, também não tinha sono. Esticada no tapete da sala, encostada a uma enorme almofada persa, fumava cigarro atrás de cigarro e bebia whisky atrás de whisky.
Normalmente, a essa hora, teria vestido o roupão de seda vermelho de que tanto gostava. Mas nesse dia não... Sentia-se estranhamente bem com a roupa que pusera durante a tarde propositadamente para enlouquecer o homem...
Na loja havia, por razões de segurança, uma câmara de vídeo permanentemente ligada. Olga só mais tarde se lembrara desse pormenor. (Como fôra possível esquecer-se?!). Mas ainda tinha ido a tempo. E agora, deliciada, revia tudo quanto ficara gravado, embora, infelizmente, sem som.
Sorria, revendo-se e recordando todos os pormenores, saboreando a lembrança de como o dominara e excitara, e dava-lhe um especial prazer ver como, com quarenta e dois anos de idade, ainda deixava a perder de vista a maioria das mulheres com pretensões de enlouquecer homens...
Desapertou o cinto, aliviou os atilhos das calças e introduziu voluptuosamente os longos dedos junto ao corpo... Estremeceu, ao sentir-se... E ali estava, satisfeita consigo mesma, revendo-se narcisisticamente, auto-acariciando-se, enquanto contava à amiga — mais nova e inexperiente — o que fizera, e como, exagerando nos pormenores.
— Havias de ver a cara dele, quando o apanhei a olhar-me para o decote! Obriguei-o a pedir-me perdão, e só faltou mandá-lo ajoelhar, como na história que eu ando a escrever... A propósito, acho que se o escravo vier a ter direito a nome de gente, pode ser Duarte, que achas? Ou Bobi , que é nome de cão?
Zélia riu-se à gargalhada.
— Tens então isso tudo gravado?! Como é que eu não tinha pensado nisso! Que ma-ra-vi-lha!!! Tem paciência, filha, mas vou já para aí! Quero lá saber que seja tarde! Se queres, deita-te, que eu fico a ver... Só preciso que me abras a porta, que eu esqueci-me de trazer as chaves!
Olga, sorrindo, retirou a mão do sexo e sussurrou, lânguida:
— Podes vir... Espero por ti...

CAPÍTULO V
A INTIMIDADE entre elas ia muito para lá da simples amizade.
Tudo tinha acontecido já há alguns anos, e as duas quase não se separavam, nem de dia nem de noite. Olga, mais velha e autoritária, dominara facilmente a outra, que se lhe entregara desde o início com o máximo prazer numa relação de sado-masoquismo puro. Ultimamente, porém, e devido ao trabalho de encenação do filme, Zélia também descobrira em si insuspeitadas tendências sádicas que precisava de descarregar...
Fôra mesmo ela quem tivera a ideia de responder ao anúncio — publicado num jornal pornográfico — em que se procuravam locais para filmagens de filmes eróticos. Respondera, dando abusivamente o nome da amiga, feliz proprietária de um palacete na Serra de Sintra e onde as duas passavam, juntas, todas as horas possíveis.
Ao ser contactada, Olga ficara furiosa, e descarregara toda a raiva na moça que, chorando e implorando perdão acabou por ter de se sujeitar, nesse dia, a uma verdadeira cena de punição física e humilhação como nunca pensara ser possível. Porém, Olga, depois de a ter esbofeteado e espancado demoradamente com um cinto, acabou por se render ao seu choro, e em breve a perdoava, lhe beijava as lágrimas e a arrastava para o quarto...
Deitaram-se e ficaram longo tempo sem falar. Apagaram a luz e abraçaram-se, como sempre faziam, e Zélia, desejando sentir-se pequenina e protegida, enroscou-se no corpo magnífico da amiga, colando-lhe a cara aos seios. Olga encorajou mais esse pedido explícito de perdão: acariciando-lhe os longos cabelos negros, encaminhou os lábios dela para os seus mamilos, como se se tratasse de uma filha... A outra correspondeu... soluçando... Olga continuou o jogo:
— Estúpida! — sussurrou — Vais ser punida por essa brincadeira do anúncio! Só não te ponho a dormir no chão porque isso seria um castigo muito leve, para ti, e quero aplicar-te amanhã de dia um bom correctivo que te fique na memória! Agora aquece-me com o teu corpo, e vai tentando adivinhar o que te vou fazer...
— Olga, querida, não me castigues mais! Já me espancaste, já te pedi perdão de joelhos... que mais queres tu que eu faça?!
— Grande cabra! E desde quando é que estás autorizada a tratar por “tu” a tua dona e SENHORA?!
Zélia, agora, sentia-se feliz. Ao ver a amiga a falar-lhe nesses termos, era claro que a verdadeira fúria já passara, e — visivelmente excitada — entrara no habitual jogo sado-masoquista de que ambas tanto gostavam e que tornava a sua relação indestrutível.
Quis desesperadamente beijá-la, mas não se atreveu, sequer, a tentá-lo. A medo, em voz sumida, voltou a suplicar perdão, enroscou-se na dona mais e mais, e — não se vendo rejeitada — atreveu-se a beijá-la loucamente nos seios, nos braços e no pescoço.
— Não vais adormecer sem um aperitivo para o teu castigo de amanhã, estúpida. E sabes qual é, não sabes?
— Não sei, não, SENHORA...
— E nem és capaz de imaginar?!
— Julgo que sim, SENHORA...
— Então por que esperas?!
Zélia sabia bem o que devia fazer... só por brincadeira se podia chamar “castigo” ao que Olga queria... Mas, fingindo-se contrariada e com vergonha, pediu que fôsse poupada a essa humilhação. A “mestra”, porém, autoritária, e com voz ríspida, vergou-a, e acendeu a luz para (como disse) saborear mais completamente a humilhação que lhe inflingia. E nem sequer a apressou quando ela, soltando-se lentamente dos braços carnudos que a envolviam, foi, tremendo de volúpia, aproximando os lábios do sexo da amiga. A escassos milímetros suspendeu o gesto, hesitou... como que a desafiar a “dona”. Esta, entrando no jogo, agarrou-lhe nos cabelos e rosnou, entre dentes:
— A — F O — C I — N H A!!
O termo escolhido, mais próprio para cães, continha em si uma carga humilhante que ajudou a levar ambas ao paroxismo do prazer, e durante muitos anos essa noite foi recordada por elas como a que mais marcou o tipo de relacionamento que as unia.

CAPÍTULO VI

NO DIA seguinte, mais calma depois de uma noite de prazer louco, Olga pensou que o tal negócio do filme talvez até não fosse mau... Pegou no telefone e ligou para a firma.
Depois de longas discussões comerciais em que era exímia, conseguiu um pré-acordo que a satisfazia perfeitamente:
Além do recebimento de uma importante verba diária pela cedência do palacete, conseguiu ficar com o negócio da decoração e fornecimento dos adereços (de que se propôs obter a representação), e receber a garantia de poder ter várias cópias do filme sem quaisquer encargos ou direitos a pagar.
Mais tarde, numa fase posterior das negociações (que fez arrastar propositadamente quando a empresa já estava totalmente dependente dela) conseguiu ainda que lhe fossem cedidos todos os direitos sobre os acessórios e roupas que viessem a ser comprados.
Não contente com isso, e louca de excitação à medida que se ia apercebendo do argumento sado-masoquista do filme, quis ainda intervir no guião...
O conflito que essa exigência criou ia comprometendo irremediavelmente toda a execução do projecto, numa altura em que faltavam poucos dias para o início das filmagens. Olga, porém, nisso teve de ceder. Fôra longe de mais e pisara terreno que não era de sua conta. Mas não podia compreender — e dissera-o aos responsáveis — que se gastasse tanto dinheiro a encenar uma autêntica câmara de torturas medieval e que, depois, praticamente não a usassem. Isso, para o seu espírito de empresária, era imperdoável!
Explicaram-lhe então, para seu espanto, que não conseguiam convencer os actores, pois os “potros”, as “rodas”, as cruzes e os cavaletes eram de tal modo reais que os amedrontavam!
Ela, ainda assim, assistiu integralmente às filmagens, mas não foi fácil impedi-la de interferir. Acabado o filme, que veio a chamar-se “Prazeres Bizarros”, Olga , num acesso de fúria insensata por ver que se tinha empenhado tanto num filme que lhe parecia que ia ser um fracasso, jurou a quem a quis ouvir que havia de fazer um outro, todo por sua conta e risco.
Demorou pouco tempo para se equipar com os materiais mínimos necessários: projectores, câmaras, e pouco mais, porque tudo o resto (cenários, adereços, guarda-roupa, etc.) tinha sido deixado pela firma produtora.
Olga e Zélia começaram então a andar verdadeiramente obcecadas pelo argumento do filme. Inspirando-se no ambiente criado no palacete e em inúmeros vídeos, livros e revistas sobre sado-masoquismo, foram elaborando dezenas de histórias passíveis de serem encenadas com o equipamento disponível. Chegou, por fim, a altura de escolher uma delas, e passá-la a escrito. E foi disso que a mais velha se encarregou...

CAPÍTULO VII
PASSARAM-SE vários dias sem que Duarte se resolvesse a devolver o vídeo. As duas mulheres começaram mesmo a suspeitar que o homem, por vergonha ou por qualquer outro motivo, nem sequer o fizesse. E assim, embora o prejuízo não fosse muito, perdiam toda a esperança de o contratar para participar no filme.
— Eu nunca tive ilusões de que conseguíssemos arranjar um tipo para o que queremos — desabafou a moça — Ainda por cima, para se sujeitar às loucuras que metemos no argumento!
— Não sei porque é que dizes isso! Primeiro, o gajo que queremos não pode ser um profissional. Com esses, já vimos a borrada que é: começam logo a querer uma fortuna para fazerem cenas de tortura, e mesmo assim querem montes de efeitos especiais e até os chicotes têm de ser a fingir... e depois andam as maquilhadoras a pintar-lhes o corpo com tinta vermelha para imitar as marcas... Eu cá não quero nada disso! O problema só se resolve arranjando um bom masoquista, daqueles autênticos, um “puro e duro” como deve ser o nosso amigo Duartinho que não podemos deixar fugir! Vou já telefonar-lhe. Além do mais, preciso de saber quando é que o tipo lá aparece na loja, porque quero estar bem vestida para o receber ainda melhor do que da última vez!
— E vê se agora não te esqueces de que a câmara de vídeo da segurança está a filmar! Põe-te de maneira que ao menos essa filmagem fique decente!

CAPÍTULO VIII
DUARTE ficou muito envergonhado quando recebeu a chamada. Aliás, acabou por ser a Zélia a falar, introduzindo um certo distanciamento no relacionamento entre ele e Olga, a quem se referiu sempre, na conversa que manteve, como “A minha Senhora”...
Ao vê-lo tão atrapalhado, ela, encorajada também pelo facto de a amiga estar a ouvir a conversa numa extensão do telefone, começou a “forçar o tom”, usando termos cada vez mais duros e não deixando cair o diálogo. Para gozo de ambas, ele, em vez de procurar encerrar o assunto, deixou-se ir, correspondendo ao tom cada vez mais ríspido da mulher com pedidos de desculpas cada vez mais frequentes e em voz cada vez mais submissa... Olga, não resistindo, decidiu jogar tudo por tudo: Entrou na linha, e disparatou:
— Tenham lá paciência, mas isso já é conversa a mais, e eu não estou para ter contas de telefone grandes por causa de sócios que não cumprem as suas obrigações. Não me interrompa, meu caro senhor, que agora falo eu! Tenho montes de sócios à espera do filme que o senhor tem em casa há duas semanas, e estou em risco de os perder por desleixo seu! Cale-se, já lhe disse! Se quer falar comigo, vá à loja, que abre daqui a pouco, e eu estou lá.
Ambas faziam um enorme esforço para não se rirem. A cena era deliciosa... Do outro lado da linha, o desgraçado já só pedia desculpas, em tom cada vez mais sumido, sem saber o que dizer, mas sentindo uma volúpia indescritível que lhe cortava a respiração... Era claro ter pela frente o tipo de pessoa que procurava, e o telefone, pela distanciação que lhe é própria, facilitava o desbravar da relação que estava a nascer e a desenvolver com toda a nitidez e em ritmo inesperadamente rápido.
Olga, já não sabendo mais como o descompor, mas não querendo ficar por ali, resolveu provocá-lo um pouco mais. Após um curto silêncio, questionou:
— Então, não diz nada?!
— Já pedi desculpa, sra. D.Olga!... e quando eu vou a falar, a senhora manda-me calar... Se quer, em vez de “desculpa”, posso pedir “perdão”...
Duarte não era parvo, e sabia bem o que as pequenas “nuances” das palavras significavam em sado-masoquismo. Nomeadamente, que a palavra perdão tem um significado muito especial em relações desse tipo, é como uma senha, e é ideal para uma primeira abordagem de submissão. Olga, tão dentro desses códigos como ele, não deixou escapar tão precioso sinal... Fez um gesto vitorioso à amiga, e decidiu encerrar a conversa com chave de ouro, jogando mais uma provocação ao homem:
— Quero ver isso... Tanta conversa fiada! Bem, vou agora para a loja, que se faz tarde. Estou lá à tua espera, ouviste?!
Era o último trunfo. Ao arriscar tratá-lo por “tu”, Olga ficou suspensa da reacção dele. Teria deitado tudo a perder? Fez-se um silêncio embaraçoso. Por fim, ele disse, escolhendo bem as palavras, (em que sabia que ia jogar o seu futuro mais próximo):
— Ouvi, sim, minha senhora... Lá estarei... como... ordena...

CAPÍTULO IX
TODA esta evolução, tão favorável quanto rápida, foi festejada alegremente pelas duas. Olga, então, mais nervosa do que nunca, começou a escolher o que iria vestir. O seu guarda-roupa sado-masoquista estava quase todo no palacete, mas mantinha sempre em casa um mínimo para situações como essa ou para quando ambas decidiam oferecer-se alguma orgia mais requintada.
Resolveram, porém, à última hora modificar os planos, e foi Zélia quem, nessa tarde, foi para o clube.
Como era de prever, o indivíduo só apareceu quando a loja já estava quase a fechar. Fazendo isso, julgava poder ter um novo encontro a sós com a proprietária, à porta fechada, e — quem sabe? — talvez conseguisse controlar-se melhor do que da última vez e tirar um maior proveito da situação. Porém, ainda antes de entrar, apercebeu-se da ausência dela e hesitou. Admitiu, no entanto, que talvez isso fizesse parte do jogo erótico a que o sujeitavam e decidiu-se. Fazendo-se desentendida, Zélia atendeu-o como se nada fosse:
— Pretende devolver algum filme?
Seria apenas isso que queriam dele?! Mais nada?! Ia devolver o filme, talvez escolher outro... sair... e depois?! Todas as promessas subentendidas que Olga lhe fizera nessa tarde, como ficavam? A moça limitava-se a tomar nota da devolução, como se nada fosse, e ele, não pretendendo sair logo (esperançado em que Olga chegasse a todo o momento) simulou escolher outro filme. Zélia interpelou-a, em termos correctos:
— O senhor desculpe, mas está na hora de fechar a loja.
Ele, então, sem conseguir conter o nervosismo da voz, perguntou:
— Mas a dona da loja não está? Eu tinha combinado com ela...
— Ai o senhor é que é o tal que a fez estar à espera a tarde toda?! Acha isso bem?! Pois a D.Olga esteve cá desde o princípio da tarde e foi-se embora há menos de meia hora, furiosa consigo!
Conseguiu dizer essa mentira com toda a naturalidade, e o pobre, sem dizer mais do que duas palavras sem nexo, saiu...
Quando, pouco depois, a moça fechou a loja, não ficou admirada por vê-lo, desnorteado, deambulando pelos corredores do Centro Comercial. Foi, portanto, com toda a naturalidade que retomaram a conversa como se não a tivessem mesmo interrompido. Tomou a iniciativa:
— Então? Ainda anda por aqui? Está com ar preocupado... É por causa do que eu lhe disse?
— Sim, claro... — balbuciou ele, tentando por todos os meios controlar o tom de voz que sentia fugir-lhe. — Acha que posso fazer alguma coisa para me “limpar”?
— Venha cá um dia destes, fale com ela, peça-lhe desculpa...
— Um dia destes? Mas quando? Não poderá ser hoje? Não sabe onde a poderei encontrar?
— Pague-me o jantar, e eu talvez consiga resolver-lhe o seu problema — respondeu ela, rindo-se por poder, inesperadamen-te, tirar uma vantagem concreta da situação. Olga esperava-a, mas, quando lhe contasse o porquê do atraso, haveria de concordar que valera a pena!
Foram então sentar-se numa mesa tão afastada das outras quanto possível. Ele não tinha fome, e foi ela quem, praticamente, comeu pelos dois. Quase não falaram. Duarte, timidamente, deixara a iniciativa da conversa e das acções à jovem, mas foi só durante o café que ela disse:
— A minha ideia é ir consigo a casa dela, que é já aqui ao pé. Eu subo e você fica cá em baixo, à porta. Eu explico-lhe o que se passou, e digo-lhe que você lhe quer pedir perdão...
Mais uma vez, e com tão pouco tempo de intervalo, a palavra perdão tinha sido escolhida, cuidadosamente. Era mais requintada do que a palavra desculpa e ambos o sabiam. Por isso Zélia a pronunciara com cuidado, como se a sublinhasse, e fizera uma pausa, olhando-o nos olhos, como se questionasse: “Percebes o que quero dizer?”. Duarte, acusando o toque, (que sentira com toda a nitidez e mais não era do que o reatar do que já sucedera à tarde) corou e baixou os olhos. Estabelecido esse entendimento tácito, ela, cada vez mais confiante, continuou:
-...e vejo se ela está disposta a recebê-lo. Depois venho à janela e digo-lhe que suba ou que se vá embora. Que tal?
— Acho bem... Nem podia ser melhor... Só tenho que lhe agradecer...
Ela levantou-se, dando por terminada a conversa, e respondeu enquanto acendia um cigarro:
— Pagaste-me o jantar, amorzinho, já não foi mau... Agora vamos, que ela não gosta de esperar.
Fez-se um turbilhão na cabeça do infeliz! Também ela, à semelhança da outra, adoptara o tratamento por tu com toda a naturalidade, sem que ele fosse capaz de o recusar! Aliás, nem mesmo sabia como a havia de tratar! Não lhe passava pela cabeça retribuir nos mesmos termos, mas ela também era jovem demais para ser tratada por “minha senhora”... Deixou esse problema para mais tarde, e ficou a pensar porque é que ela teria dito que Olga estava à espera. Estaria somente à espera dela, ou já saberia que ele ia ser atraído também a sua casa? Sentiu, então, que todo o receio e acanhamento começavam — e já não era sem tempo! — a transformar-se num estranho prazer, na entrega total a essas duas belas e caprichosas mulheres. Sentiu uma volúpia intensa quando Zélia, ao chegarem junto da casa de Olga, lhe fez uma ligeira festa na face e lhe sussurrou, sorrindo:
— Então esperas aqui, “tá”? Foste muito querido, vou interceder por ti, para que sejas perdoado...

X

OLGA, ao ver que Zélia demorava, tinha saído à sua procura. Entrando no Centro Comercial, vira-os no restaurante, e, aproximando-se por trás do homem sem que ele a notasse, tinha escutado o essencial da conversa. Zélia, ao vê-la, fizera-lhe um imperceptível sinal, indicando que estava tudo bem. A outra, então, voltara para casa, excitadíssima, perante a hipótese quase certa de conseguir atrair ao seu “covil” (como ela dizia...) aquela “vítima perfeita”...
E não foi defraudada:
Depois de terem feito com que o pobre esperasse na rua mais de hora e meia, Zélia, em vez de o chamar da janela, desceu. Tinha mudado de roupa, trazia um conjunto incrivelmente erótico de mini-saia de cabedal e botas acima do joelho. Se ele tivesse estado com mais atenção, poderia até ter reconhecido essa roupa como fazendo parte dos adereços do filme que devolvera pouco antes. Mas o espectáculo daquelas pernas e seios (que, com a roupa normal só podiam ser adivinhados) transtornava-o. Aliás, tudo o que se estava a passar se parecia muito mais com um sonho do que com a realidade, e ele interrogava-se como é que a história iria acabar!
A moça, certificando-se de que não havia ninguém por perto, chegou-se bem junto dele e disse:
— A D. Olga não estava com vontade nenhuma de te receber, e só depois de uns bons whiskies é que concordou... Olha, seja o que Deus quiser!... ela está um bocado “com os copos”, e eu também não estou muito melhor... Por isso, se fosse a ti, ia mas era deitar-me e voltava noutro dia.
— Porquê? Já que esperei tanto tempo, também posso esperar que ela fique em estado de perceber que lhe quero pedir desculpa...
— Perdão — emendou a moça — Não te esqueças que deves escolher as palavras certas quando estiveres na presença da Rainha Olga...
E, rindo enquanto pronunciava estas misteriosas palavras, arrastou o pobre homem para o elevador...
Foi ela mesma quem abriu a porta da casa. Estava tudo muito escuro, e foi com dificuldade que ele conseguiu ver, ao fundo do corredor, uma ténue luz vermelha. Teve a sensação de que tinha sido, simplesmente, atraído para mais um dos inúmeros antros de prostituição de Lisboa. Se bem que tudo se estivesse a passar de uma forma nada convencional!
Zélia disse-lhe que esperasse, e foi só ela que avançou até à sala do fundo. Do sítio onde ficara, o homem não via nada do que se passava para lá da porta.
Os seus sentidos começavam a estar mais apurados, e parecia-lhe, também, que conseguia agora controlar-se melhor. Era evidente que nessa sala, houvesse o que houvesse, encontrava-se, pelo menos, a bela Olga... Sim, devia ser isso, porque viu acontecer uma coisa incrível:
A moça parou junto à entrada, num sítio onde podia ser vista por ele e por quem estivesse dentro. E... ajoelhou!!
Estupefacto, compreendendo com clareza cada vez maior que estava a ser mergulhado num sonho ou num pesadelo, pensou em fugir. Deitou a mão à porta da rua e viu, com um misto de pavor e excitação, que estava fechada à chave. “Seja o que Deus quiser!”, comentou para si próprio. “Afinal, não andei eu tantos anos a sonhar com situações destas? Só não percebo é como é que estas prostitutas ainda não me pediram dinheiro! Bem, a mais nova já me cravou um jantar, mas isso não conta...”
Aproximou-se, então, da sala. O que viu, sem que o impedissem, gelou-o:
Olga, sentada num cadeirão que mais parecia um trono, tinha na mão esquerda um copo de whisky e, na direita, um chicote... Bebia sem parar, percebia-se que mal se aguentava sem cair da cadeira, e não parecia ter notado o homem, que se mantinha escondido na escuridão do corredor, de onde podia ver tudo sem ser visto.
— Senhora — disse a moça — trouxe à vossa presença o escravo, que suplica ser recebido por vós...
Fazendo um esforço para falar, a bela quarentona endireitou-se no “trono” e perguntou:
— Então por que esperas, estúpida?! Vamos, traz-me esse animal!
Não havia nada a fazer senão entrar no jogo... Por isso, ele limitou-se a esperar que a jovem se levantasse e o conduzisse. Zélia, porém, ficou furiosa por ver que ele se tinha adiantado no corredor, e, ao aperceber-se do que o esperava, destruído o efeito de surpresa que ela havia imaginado. Vociferou, agarrando nele por um braço e empurrando-o para dentro da sala:
— Estafermo! quem te autorizou? Eu não te tinha ordenado que esperasses junto da porta da rua?! Não perdes pela demora! Agora, vá, ajoelha aos pés da Rainha!
O melhor, de facto, era perder a vergonha e entrar no jogo, uma vez que não havia ali mais ninguém, e tudo o que se passasse ficaria apenas entre ele e as duas mulheres. Assim, e após uma pequena hesitação, ajoelhou...
— Chega-te mais aqui, escravo! Rasteja até mais perto dos meus pés! Ou julgas que vais ser dispensado de os beijar?
Apoderara-se de Duarte uma autêntica vertigem, que o fizera aceitar a fantasia e entrar no jogo ser mais distanciações. Assim, arrastou-se de joelhos até junto da mulher e pôde ver com clareza as roupas loucas que ela envergava:
Um estranho “maillot” de pele de tigre; uns colares estapafúrdios; um cinto enorme, em cobre; umas botas cheias de atilhos; mais uns adereços... e uma coroa de rainha! Foi então que ele teve a certeza que todos estes acessórios e todas estas roupas tinham sido usados no filme. Mas a moça cortou-lhe o pensamento:
— Baixa os olhos, atrevido! Desde quando é que julgas que estás autorizado a olhar para a tua Rainha?!
No vídeo havia uma cena quase igual à que ele estava a viver. Lembrando-se disso, e vendo que aquelas loucas pretendiam, de certa forma, reviver a ficção desse filme, baixou os olhos e pronunciou uma das frases de que ainda se recordava ter ouvido:
— Perdão, senhoras... Perdoai-me se fui atrevido, mas nunca na minha vida estive diante de mulheres tão belas!
Arrependeu-se de imediato por a sua memória não lhe ter feito ter presente o resto da cena. Mas Olga encarregou-se de lho fazer lembrar: brandindo o chicote — facto de que ele bem se apercebeu apesar de agora manter os olhos no chão... — gritou, visivelmente agastada:
— Repete o que disseste, verme! Repete o que disseste, se queres ver eu arrancar-te a pele a chicote! Desde quando é que estás autorizado a referires-te a nós como mulheres?! Nós somos senhoras, entendes?! Tu é que não passas do mais reles escravo da minha mais reles serva, entendeste, animal?!
Era tudo como no filme... O texto, a entonação... tudo! E Duarte lembrava-se que a estas palavras se seguia uma terrível cena de chicote, se bem que, obviamente, feita com truques de cinema. Por isso, ficou sem respiração quando sentiu uma verdadeira chicotada, dada por mão possante. E outra... e outra...e mais outra!
Apesar de tudo, encontrava-se vestido — enquanto os actores, no filme, estavam todos nus. Mas nem por isso as pancadas doíam pouco, e deu por si a torcer-se com dores e a implorar-lhes que suspendessem a punição.
Aconteceu, então, uma alteração em toda a cena: Olga parou e, mostrando-se sóbria e sem grandes vestígios de álcool (estivera a fingir todo esse tempo?!) disse:
— Caro amigo, já viste o que te espera se queres, de facto, entrar no verdadeiro mundo do sado-masoquismo... Aqui não há lugar para falsos amadores nem para profissionais. Procuramos quem queira colaborar connosco.
E as belas mulheres, sem desmancharem a cena que se continuava a desenrolar, e sem darem sequer hipótese ao homem de se pôr em pé, explicaram-lhe o que pretendiam dele: usarem-no como actor num verdadeiro filme S/M em que apenas ele e elas seriam actores a realizadores. O pobre, ainda cheio de dores nas costas devido à boa dúzia de chicotadas que levara, pensou e respondeu:
— Em princípio, acho a ideia muito interessante, mas qual é o guião? Se as senhoras, mesmo sem saberem se eu aceito, já me deram uma tareia como nunca levei, o que será se me apanham amarrado numa masmorra?!
Por estranho que pudesse parecer, e embora o jogo estivesse suspenso para essa conversa tão “normal”, ele mantinha-se ajoelhado e sem levantar os olhos, e elas mantinham as suas posições, como se tudo aquilo não passasse de uma espécie de “intervalo para o café” e a cena fôsse retomada dentro de momentos.
— É fácil, — respondeu Olga — é pegar ou largar. Não nos falta quem queira o que te estamos a oferecer e ainda nos pague! Quanto ao guião, ainda não está acabado, mas não será nada que um verdadeiro tarado como tu não possa suportar. Custaram-te muito as chicotadas que te dei?
— Nem por isso, Sra. D. Olga... A dor já passou...
— Querias mais?
A pergunta era inesperada e perversa. Quantas vezes Duarte sonhara com cenas como a que estava a viver, e em que as vergastadas não paravam, noite e dia, provocando orgasmos loucos e de duração incrível! Quis dizer qualquer coisa, desviando a conversa, mas Olga interrompeu-o, autoritária:
— Fiz-te uma pergunta!
Duarte estava embaraçado... Não sabendo o que responder, disse, desastradamente:
— Que pergunta, Senhora?
O jogo recomeçara. Já não era, outra vez, Olga quem lhe falava, mas sim A RAINHA! Então ela, rindo cinicamente, desenrolou o chicote, e pô-lo por forma a que a ponta ficasse bem debaixo dos olhos dele. E comentou:
— Há duas coisas muito simples que deves ter sempre presente quando qualquer uma de nós estiver ao pé de ti: primeiro, só falas quando te mandarem ou quando te fizerem perguntas; mas, inversamente, estás rigorosamente proibido de te calares quando te ordenarem que fales ou te interrogarem. Estamos entendidos?
— Sim, minha Senhora...
-Então, para começar, dobra a língua... Trata-me por “Majestade”. Vamos...
— Sim, Majestade...
— Estás a melhorar... Mas onde ia a nossa conversa?
Perante o silêncio dele, Zélia, que até aí estivera calada, achou por bem intervir. Mantendo-se atrás de Duarte, sem ser vista, pôs-lhe a bota sobre a nuca e pressionou, fazendo com que a cara dele descesse até ao chão, tocando com os lábios na ponta do chicote.
— Eu avivo-te a memória, animal! Sua Majestade perguntou-te se as chicotadas que te aplicou te doeram. E depois perguntou-te se querias mais!
— Não, Majestade... Se me é dado o privilégio de ter vontade, digo que não quero mais.
Riram-se, com prazer, e Olga comentou:
— Ai como ele fala tão bem! Que frases tão elaboradas, para um reles escravo! Pois bem, se não queres voltar a sentir o meu chicote... RUA! Zélia, leva-o à porta e PÕE-NO NA RUA!
A bela mulher recomeçara a beber, e o álcool excitava-a visivelmente. A “serva”, tirando o pé de cima do pescoço dele, ordenou:
Vamos, Sr. Duarte, acabou a sua brincadeira. Levante-se e vá pelo seu pé para o olho da rua. E não volte a aparecer, nem sequer no clube de vídeo, é claro...
Percebendo que estava tudo em risco, o pobre rojou-se aos pés de Olga, beijando-lhos sofregamente, implorando perdão, e que não o mandassem embora. Chorava, sinceramente desesperado! Tudo se passava como elas tinham previsto. Um tarado como ele não ia deixar fugir uma situação dessas sem antes fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir que isso acontecesse. Foi, portanto, com o maior prazer que viu que o jogo era reatado:
— Que é isso?! E desde quando estás autorizado a sujar as minhas botas com o teu focinho imundo, animal?!
E, dizendo isso em tom de fúria, pôs-se em pé, empurrou o homem com a biqueira da bota, e começou de novo a chicoteá-lo, mais demoradamente e com mais força do que da primeira vez. Zélia mantinha-se perto, tentando impedir que ele se protegesse com as mãos, mantendo um jogo perverso que as enlouquecia de gozo. E foi numa dessas alturas, em que ele, contorcendo-se com dores, lhes suplicava que parassem, que Olga, interrompendo por momentos a punição, lhe disse com toda a seriedade:
— Ouve bem, estúpido, que não volto a repetir: está nas tuas mãos fazer com que eu pare. Podes gritar, gemer, suplicar, que ninguém te ouve. Neste prédio só moramos nós. Mas, se disseres “pare, Sra. D. Olga” isso será como um código mágico: eu paro de te martirizar e tu desapareces da nossa vista para sempre, como há bocado esteve quase a acontecer. Estamos entendidos, escravo?
— Sim, Majestade...
Ao responder assim, ele estava a dizer, o mais claramente possível, que aceitava o jogo. A tareia continuou até que, inesperadamente, não podendo suportar mais as dores (mas também não querendo usar a frase de código que acabaria com tudo), refugiou-se num canto da sala. Elas, excitadas, perseguiram-no, e Zélia, sem que nada o fizesse prever, conseguiu algemá-lo. Sentindo-se preso, cobriu a cara com as mãos juntas, e esperou a continuação da infindável tareia. Nem sequer elas alternavam entre si, era só a empresária quem batia, revelando uma energia insuspeitada. A outra apenas ajudava. Mas agora essa ajuda revelava-se preciosa:
A moça, aproveitando o estado de fraqueza dele, conseguira, além de o manietar, fixar as algemas a uma forte argola que existia na parede, precisamente no canto onde ele julgara ter refúgio.
— Despe-o — ordenou a outra inesperadamente. E põe-o na cruz!
De facto, mesmo ali, havia uma cruz de madeira, em X, comum em todos os estúdios de S/M. E foi com surpresa que elas viram como ele se deixou despir e crucificar sem reagir.
Anima-te, escravo... não tens marcas nenhumas no corpo... Também, quando é que já se viu alguém ser chicoteado vestido?! Verdade se diga que ficas muito mais bonito todo nuzinho... Mas... agora reparo!: Quem te autorizou a deixar crescer esta coisa que aqui tens? Tanto quanto eu sei, esta minhoca só cresce quando vocês estão excitados... Será que estás a ter o atrevimento de ter prazer quando eu te estou a punir e, portanto, só quero que sofras?!
Enquanto dizia isso, a bela mulher adoptava uma pose de total domínio, de pernas afastadas, mãos nos quadris, sempre empunhando o ameaçador chicote que tão bem sabia manejar. Depois de um pequeno silêncio, afastou-se para trás e disse à amiga, displicentemente:
— Tortura-o...
A outra, que até aí tinha sempre estado numa posição secundária, ficou sem saber o que fazer.
— O que lhe faço, Senhora?
— Estúpida! Foi para isso que te nomeei carcereira?! Foi para me fazeres perguntas cretinas quando te mando fazer o teu serviço?! Ou já te esqueceste que o teu trabalho é precisamente educar os meus escravos?! Vamos! Puxa pela cabeça, não te faltam aqui instrumentos de tortura para arrancares desse animal os gritos mais saborosos! Ou será que tenho de ser eu a fazer tudo e não tenho direito, também, a assistir tranquilamente a um bom espectáculo?
Dizendo isto, sentou-se de novo trono e voltou a encher o copo com whisky puro.
Zélia ouvira, de olhos baixos, a reprimenda. Em seguida percorreu com os olhos toda a sala: a um canto, uma pequena jaula de ferro; um pouco ao lado, um cavalete de madeira, forrado a coiro negro; por toda a parte, no chão e pelas paredes, uma infinidade de pequenos objectos, sobras das filmagens, além das que tinham ficado em Monserrate.
Havia de tudo: algemas, correntes, cangas, vergastas, azorragues e chicotes de todos os tamanhos e formas, tenazes, turqueses, pinças... e até um braseiro eléctrico que, uma vez aceso, simulava carvão em brasa.
Entretanto, Duarte recompusera-se. A posição em que estava, estranhamente, não era de todo desconfortável. Começava, apenas, a ter sede... Estava agora perfeitamente adaptado à fraca luz ambiente, e descortinava com nitidez tudo o que o rodeava. Também agora parecia estar autorizado a observar bem as duas belas mulheres. Estranhamente, não conseguia decidir qual era mais erótica, pois cada uma, no seu estilo, era de enlouquecer...e o espectáculo total das pernas da mais velha era qualquer coisa de impressionante. Nunca pensara mesmo que uma mulher, tão visivelmente madura como ela, pudesse ter uma carga erótica a roçar os limites do imaginável! Poderia alguma vez possuí-la?
Mas o jogo recomeçara e Zélia decidira fazê-lo de uma forma que sabia ter sido usada nos tempos em que as verdadeiras câmaras de tortura eram correntes:
Nessa época, era tradição os carrascos mostrarem previamente às vítimas os aparelhos e instrumentos, descrevendo em pormenor o seu funcionamento e efeitos. A lógica, perversa, era a de que o supliciado tinha sido prevenido, e por isso só ia sofrer porque queria.
Assim, seguindo esse princípio, ela pegou numa turquês, aproximou-se dele, roçou-lha pelos mamilos e comentou:
— Sabes para que serve isto, escravo? Claro que, se não sabes, pelo menos imaginas. Queres experimentar?
Era uma pergunta e, como tal, devia ser respondida. E ela lembrou-lhe esse pormenor com uma tremenda bofetada, tão violenta quanto imprevisível. Ele percebeu porque apanhava e apressou-se a responder, perante a ameaça clara de apanhar outra, na mesma face, ainda dorida:
— Senhora, sei bem para que isso serve, e não gostaria de experimentar!
Ela riu-se, satisfeita por o ter vergado com tanta facilidade, e continuou. Trouxe então, para junto dele, uma estranha vara, boleada numa ponta e



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