"Os mais excitantes contos eróticos"

 

A CAIXA VERMELHA


autor: Rosário
publicado em: 26/03/17
categoria: bdsm
leituras: 837
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A CAIXA VERMELHA

O que adiante se vai ler poderia constar logo a seguir ao capítulo intitulado Recordações de Infância (de O Livro Secreto de Domme Liz), dado que as personagens femininas são as mesmas que lá são apresentadas e não voltam a surgir no decorrer desse Livro. No entanto, a extensão desta narrativa desaconselha a que tal seja feito, pois introduziria uma solução de continuidade contraproducente.
Assim, aqui ficam essas páginas, que poderiam ser um capítulo separado (porventura a colocar no fim) mas que, por motivos que não interessam, nunca verão a luz do dia.
*
Dia 1
UM DIA, muitos anos depois daquilo que acabaram de ler (mas também muito antes de comprar o moinho de vento com o qual se inicia O Livro Secreto), tive a grata surpresa de encontrar, numa rua de Lisboa, D. Beatriz, a minha antiga professora primária. Tal como eu, ela estava bem mais velha, claro, mas ainda mantinha alguma frescura, muita alegria de viver e um pouco da antiga beleza que, desde os tempos de escola, sempre me perturbara.
Ambos nos reconhecemos de imediato e, após a natural perplexidade pelo inesperado acontecimento, saudámo-nos com prazer não fingido. Depois de andarmos um pouco lado a lado, mantendo uma conversa de circunstância (estava imenso calor, que é sempre um bom tema), chegámos à porta da sua casa — pelo que, naturalmente, ela me convidou a entrar, não escondendo o prazer que lhe daria a possibilidade de recordar velhos tempos.
Enquanto subíamos as escadas (ela morava no último andar e não havia elevador), o meu cérebro desfiou rapidamente uma infinidade de memórias, todas bem perturbadoras, relacio-nadas com o que atrás contei e que, tantos anos decorridos, ainda me alimentavam diversas fantasias, do teor daquilo a que hoje em dia chamamos BDSM.
Ora, quando chegámos à porta da sua casa, esperava-me uma nova surpresa: quem a abriu foi uma empregada, que não era outra senão a tal D. Amélia, a antiga funcionária da escola de que também atrás falei!
— Lembras-te desta senhora? – perguntou-me D. Beatriz —, E tu, Amelinha, lembras-te deste menino, que agora está tão crescido?
Depois das inevitáveis manifestações de surpresa e de reco-nhecimento mútuo, fomos para a sala de estar, onde nos sentámos, lado a lado, num confortável sofá de veludo azul escuro.
D. Beatriz mandou então que a empregada nos servisse café, mas não me escapou o ar provocante com que esta me olhou — primeiro de alto a baixo, e depois bem nos olhos...
Fez o que lhe havia sido mandado e depois, sempre sorrindo, deixou tudo em cima da mesa — e saiu, supostamente para fazer outras tarefas; mas bem me apercebi de que ela não se afastava muito pois, do corredor, escutava a nossa conversa e, por um pequeno espelho que ali havia, também nos espiava, curiosa.
D. Beatriz estava sentada bem perto de mim. Não estávamos encostados, mas a proximidade era suficiente para eu sentir claramente o seu perfume (ainda era o mesmo de anti-gamente!) e até um ligeiro (mas perturbante) cheiro a suor que se desprendia dos seus sovacos.
Naturalmente, a conversa acabou por recair nos velhos tem-pos, e era até inevitável falarmos de um ou outro aluno que nos marcara a memória, nomeadamente um tal Eduardo, um dos protagonistas de cenas como aquelas que atrás referi.
— Ainda bem que me falas desse grande pirata! Vais ver uma coisa...
Chamou então a empregada, e mandou-a ir ao quarto dela “buscar a caixa vermelha, que está por baixo do guarda-vestidos".
D. Amélia não conteve um risinho maroto, que na altura me intrigou, mas que, como se verá, se justificava plenamente.
Trouxe então essa caixa, que pousou em cima da mesinha onde já estavam as chávenas e a cafeteira do café, mas D. Beatriz não a abriu logo.
Essa pausa, juntamente com o sorriso persistente da outra, que não se afastava dali, intrigava-me de sobremaneira.
E o mistério ainda durou algum tempo.
— Chega-me aí esse álbum de fotografias — disse-me ela.
Reconheci de imediato, nessa frase, o antigo tom de professora autoritária, que sempre lhe conhecera, e também reparei, com um estranho prazer, que não se dignou agradecer-me quando obedeci.
Em seguida, começou a folhear o álbum, em busca de uma determinada fotografia que, por fim, encontrou.
Mostrou-ma, e eu reconheci perfeitamente (embora bem mais velho) o tal ex-aluno, o Eduardo, de que muito bem me lembrava.
A foto — explicou-me ela — fora tirada no dia em que dera a sua última aula, e o tal indivíduo estava a dar-lhe, como lembrança, a caixa que ali tínhamos na frente.
A minha curiosidade era agora a que se imagina.
O que estaria dentro?!
Não tive de esperar muito.
Uma vez aberta a caixa com uma pequena chave, pude ver que era, afinal, um perfeito estojo de veludo negro no qual se encontrava, devidamente acondicionada... uma régua de madeira, com umas inscrições douradas!
— Não sei se soubeste que a régua com que eu vos castigava foi roubada. É verdade, sim. Um garoto mais atrevido entrou na sala já depois de as aulas terminarem e levou-a. Na altura, desconfiou-se de dois ou três, mas nunca houve a certeza. Pois agora, tantos anos depois, este fulano vem confessar o roubo, e ainda tem o requinte de devolver a régua da forma que aqui vês! Não é uma delicia?! – E riu-se.
Concordei, claro, e inclinei-me para ler a inscrição gravada:
«Para a Senhora. D. Beatriz, com o reconhecimento de quem não esquece este saudoso objecto — Eduardo».
— Estranha dedicatória — comentei eu —, esse rapaz até era dos que mais apanhava!
— Ah, é que ele gostava! — intrometeu-se a D. Amélia, rindo, nervosa.
— Sim — confirmou a professora — Ele e outros, como vim a saber mais tarde. Custa-me até a contar uma história do teu tempo... Mas tu já és um homenzinho, e agora já podes saber essas coisas.
Via-se bem que ela estava com vontade de revelar um segredo, algum facto porventura embaraçoso.
A outra, decerto já sabendo do que se tratava, insistiu com ela para que contasse; e eu, embora delicadamente, fiz o mesmo.
— Lembras-te do gabinete que havia ao pé da sala de aula?
Claro que me lembrava! Como atrás contei, era uma pequena sala onde ela guardava as suas coisas particulares. Tinha uma cadeira de braços, uma enorme secretária de mogno, um armário envidraçado, um cabide, um cesto de papéis e pouco mais. Mas, como eu disse, o que tornava famoso entre nós esse gabinete era o facto de serem conduzidos para lá os alunos a quem ela queria aplicar castigos mais violentos, sem o tes-temunho dos outros.
Quase sempre, era a própria D. Amélia que os levava, muitas vezes arrastando-os por um braço, enquanto eles se debatiam, já sabendo o que os esperava.
E D. Beatriz prosseguiu:
— Nessa época, além dos garotos como tu, havia os repetentes e os bi-repetentes. Esses já eram adolescentes bem crescidos, e todos eles maus alunos, que eu tinha de castigar quase todos os dias. Um deles era este, o Eduardo, que roubou esta régua e mais tarde ma devolveu. Um dia, nós as duas levámo-lo ao gabinete, mas nessa altura eu já não sabia o que fazer com ele. Parecia que já nem sentia as reguadas! Então foi a Amélia que deu a ideia de o fazer baixar os calças e lhas dar no rabo, em vez de ser nas mãos, que ele já tinha calejadas. Além da dor, haveria a humilhação, e isso era muito importante, nessa época. Ora, para nossa grande surpresa, ele até se riu enquanto desapertava os botões!
Eu ouvia tudo isso, e estava de boca aberta! Insensivelmente, ela aproximara-se mais de mim, e a coxa direita dela, por sinal já bem exposta (pois subira bastante a saia, com o pretexto do calor), estava a poucos milímetros da minha...
Interrompeu, como que para ganhar coragem, tomou mais um gole de café – que eu lhe servi sem que ela agradecesse... — e prosseguiu:
— Então, imagina a cena! Ele ficou ali, na nossa frente, com as calças em baixo e em cuecas, mas rindo, provocadoramente! Perdi a cabeça! Obriguei-o, então, debruçar-se sobre o tampo da secretária, e comecei a bater-lhe com a régua no rabo, desalmadamente, intercalando as pancadas com as imprecações do costume: "Toma! Toma para aprende-res!"... Mas de nada adiantava. Por mais que eu quisesse pô-lo a chorar e a suplicar, como acontecia com os outros todos, não conseguia! E foi então que a Amélia, que assistia aquilo, já irritada e impaciente, lhe baixou as cuecas, de repente e sem avisar. Mas olha, foi remédio santo! Sem essa protecção já não era a mesma coisa, pelo que ele começou a ganir e a espernear. Mas eu já estava fora de mim! Quanto mais ele gritava e suplicava, mais vontade eu tinha de o desancar, e ele debatia-se a ponto de ser preciso a Amélia agarrá-lo pelos pulsos! Mas ele era robusto e, a certa altura, deu um forte sacão e soltou-se. E nós as duas sem sabermos como agir! Mas também não foi preciso fazer nada: ele atirou-se aos nossos pés, primeiro de joelhos e depois de rastos, e desatou a chorar e a pedir piedade como eu nunca pensara! Fiquei desorientada, mandei-o arran-jar-se e depois achei forma de o mudar de turma e de professora.
Nessa altura, já D. Beatriz tinha a coxa dela bem comprimida contra a minha... Era visível que estava visivelmente excitada — como eu e a outra, também!
— Tu tiveste a sorte de seres bom aluno — disse ela, sorrindo e acariciando a régua significativamente.
Notei-lhe um nervosismo crescente, e percebi o que queria dizer: pelo facto de eu ser bom aluno, sempre fora poupado àquela régua — o que, aparentemente, ela lamentava!
— Sabes? Só depois da cena que te contei é que vim a saber que muitos de vocês tinham prazer nas surras que eu vos dava, especialmente os mais crescidos, que já eram bem precoces. Chamam-se masoquistas os que têm essa tara.
— Sim, eu sei — confirmei, a medo. – Alguns contavam isso, gabando-se.
Ora, sempre fizera parte das minhas fantasias levar umas reguadas dadas por ela (embora talvez não com muita força...), e resolvi aproveitar a ocasião. Apontei então para a caixa, que continuava aberta, e disse, sem conseguir controlar o nervo-sismo:
— A Sra. D. Beatriz nunca me bateu com a régua, só por duas vezes me deu umas bofetadas, que nunca esqueci...
Então, inesperadamente, ela riu-se, pegou na régua, acariciou-a e, como se quisesse encenar uma pequena brincadeira, disse:
— Então vá lá, menino, dá cá a tua mão!
Eu sorri, contrafeito mas também muito excitado; e, aceitando a brincadeira, dei-lhe a mão, que ela segurou pelos dedos, como se fazia nessa altura.
— Quantas achas que mereces por não teres feito os trabalhos de casa, hem?
Ri, cada vez mais nervoso, sem saber o que responder; e foi a outra que interveio:
— Pelo menos uma dúzia, minha senhora!
Então, ao de leve, D. Beatriz deu-me uma reguada, rindo. Claro que não doeu nada, mas eu entrei no jogo, repetindo o que nós sempre dizíamos nessas situações:
— Por favor, minha senhora, não me bata mais!
E elas riam-se, divertidas com a brincadeira, que já começava a ter fortes contornos eróticos.
Então, e já que a sorte estava lançada, resolvi levar tudo o mais longe que fosse possível, e à terceira ou quarta reguada (que já não eram tão ao de leve como a primeira!) atrevi-me a le-vantar-me do sofá e a ajoelhar na frente dela — como por mais do que uma vez eu vira os alunos fazerem quando já não aguentavam mais as dores.
E foi nessa altura, quando ela me viu ali de joelhos, que sucedeu o que eu já previra:
Perdendo totalmente o controlo emocional, D. Beatriz, que continuava a segurar-me a mão, começou a bater-me... mas agora a fazê-lo com força crescente, não escondendo o vivo prazer que sentia. E aquilo – ai! — começava mesmo a doer-me!
Fosse por isso, ou devido à excitação, eu também perdi o controlo: soltei a mão bruscamente, abracei-me aos tornozelos dela e comecei a pedir piedade!
— Que é isso, garoto atrevido?! Larga-me!
Fiquei sem saber o que fazer, e afastei-me então, fazendo menção de me levantar, receando que o jogo já tivesse ido longe de mais.
Mas ela segurou-me pelos cabelos:
— Quem te autorizou a soltar a mão, hem?!
Desorientado, olhei então para a outra, em busca de algum sinal que me indicasse o que eu havia de fazer para sair daquela situação, que começava a afigurar-se difícil!
Mas ela apenas sorria, deliciada e divertida com o meu embaraço.
— Perdoe-me... — sussurrei eu, recuando um pouco, ficando numa embaraçosa posição "de quatro".
Nessa altura, não escondendo o nervosismo, D. Beatriz apontou com a régua para os sapatos de camurça e quase gritou, num tom despropositado:
— Os pés, estúpido! Beija-me os pés, como terias feito no gabinete!
A situação era estranha mas ao mesmo tempo extremamente excitante.
Naturalmente, eu hesitei...
E foi nessa altura, vendo essa minha hesitação, que a outra se aproximou de mim e, segurando-me pelos cabelos, me forçou a descer com a cara até aos sapatos da patroa.
— Beija, garoto! Faz o que te mandam!
E eu assim fiz, claro, mas perplexo ao ver como ambas pareciam estar completamente descontroladas e excitadas, levando o jogo a sério!
Apesar de não passar disso mesmo — um jogo —, a situação tinha atingido um grau de erotismo impensável e tinha de ter uma saída. Mas qual?
D. Beatriz também se apercebeu desse impasse, pelo que perguntou à outra:
— O que havemos de fazer com ele, Amélia? Mandá-lo embora?
— Sim, claro... Se calhar é o melhor...
E foi assim que, nesse dia, nada mais tive para contar, além de um grande embaraço, uma enorme vergonha...
Sem saber onde me meter nem sequer como me despedir, encontrei-me na rua, pouco depois, encostado a uma parede, recuperando o fôlego!
*
Dia 2
NESSA noite mal dormi, e no dia seguinte, ao recapitular tudo, senti uma necessidade inadiável de esclarecer o que se passara pois, ao mesmo tempo que nada daquilo parecia ter lógica, a situação era extremamente perturbadora, dado que mate-rializava algumas das minhas mais velhas e secretas fantasias.
Na realidade, desde garoto que as recordações envolvendo a D. Beatriz e a D. Amélia eram omnipresentes e obsessivas, pois eu nunca pudera esquecer o sadismo delas — que encaixava, como uma luva, nas minhas fantasias opostas.
Seria possível que eu agora tivesse a possibilidade de viver tudo isso — e muito mais?
Só havia uma forma de o saber...
E foi assim que, com um pequeno ramo de rosas vermelhas na mão, bati à porta da minha antiga professora, sem saber muito bem o que dizer quando chegasse a ocasião.
No entanto, e paradoxalmente, foi quase com alívio que me apercebi de que não havia ninguém em casa. Mas quando já descia as escadas, de retorno, deparei-me com a D. Amélia, que vinha a chegar, subindo penosamente as escadas, carregada com compras.
Pareceu-me que ficou contente por me ver, e que até, de certa forma, já me esperava.
Voltei então a subir à frente dela e, notando que se atrasava devido aos sacos que trazia, deixei as flores num degrau da escada e fui ajudá-la.
— Isso — disse ela, sorrindo, e passando-me tudo para as mãos — Faça alguma coisa de útil!
Subimos ambos, entrámos, e só então ela me disse que a patroa estava para fora e ia demorar uns dias. No entanto, e comportando-se como se fosse a dona da casa, encaminhou-me para a sala onde havíamos estado na véspera e perguntou-me se eu queria tomar alguma coisa, dizendo-me o que havia.
Escolhi um whisky mas, para minha surpresa, ela sentou-se e disse:
— Boa ideia... Há muito tempo que não tomo um. E vai ser do da patroa... A garrafa está aí em cima, e há gelo no frigorífico.
Fiquei a olhar para ela, pasmado!
— E então? Estás à espera de quê? – comentou.
Nem acreditei no que ouvia! Tal como muitos anos antes, na escola onde eu era aluno e ela empregada, tratava-me agora por tu.
Mas, mais estranho ainda, queria que eu a servisse!
Aceitei o novo jogo (que se encaixava perfeitamente no da véspera), e apressei-me a tratar de tudo.
— Só te falta um avental para seres um bom servidor — comentou ela, com uma gargalhada, enquanto eu lhe punha gelo no copo.
Sentei-me na frente dela, preparando também a minha bebida, e interrogando-me acerca do que mais poderia suceder.
Como se compreende, ela já não era nada nova, mas mesmo assim ainda era uma mulher interessante, que sabia valorizar os enormes seios e as pernas bem torneadas.
— Já te autorizei a sentar? — perguntou ela sem, no entanto, explicar porquê.
E eu, também sem saber porquê, levantei-me... E fiquei a olhar para ela, de olhos no chão, como um criado que espera ordens!
Amélia, como pessoa que toda a vida servira outras, estava deliciada, muito mais do que se poderá imaginar. E, vendo o meu ar submisso, não resistiu à tentação de explorar essa situação até aos limites da sua fantasia.
A certa altura, vendo eu o caminho que aquilo tomava (e que me agradava de sobremaneira), resolvi simular que não lhe iria obedecer mais. Mas ela riu-se. Chamou-me para junto de si e sussurrou-me ao ouvido:
— Idiota! Julgas que eu não sei que és daqueles que nasceram para servir? Vê lá tu como é a vida! E eu, que sempre fui obrigada a servir, nasci para Senhora!
— E o que quer dizer com isso? — perguntei eu, já muito per-turbado.
— Quero dizer que te quero para meu empregado. Só isso.
— Enlouqueceu?! Como poderia ser uma coisa dessas? — perguntei, perplexo. Nunca ouvi uma coisa assim!
Ela riu-se, bebeu um pouco mais de whisky e esclareceu-me:
— Eu não moro cá em casa. Vivo no andar de baixo, sozinha...
— E então? O que quer de mim?! — perguntei, já quase sem voz.
Amélia riu-se:
— Agora, só quero ser a tua patroa. Vais levar isto para a cozinha e arrumar tudo. Ah! E lava a louça que lá está, já agora.
Assim fiz, sem objectar! Ela veio atrás de mim e, encostada à ombreira da porta e de braços cruzados, ficou a ver-me trabalhar, deliciada.
Por fim, levou-me até à porta da rua, abriu-a, e limitou-se a dizer:
— Desaparece. Quero-te amanhã, às 9 horas, em minha casa.
Já não havia dúvidas: sem eu ter feito praticamente nada por isso, abria-se na minha frente um estranho caminho, daquilo a que hoje damos o nome de BDSM, em que as minhas mais loucas fantasias se podiam tornar realidade.
*
Dia 3
NESSA altura da minha vida já eu era completamente livre e senhor do meu tempo, não tendo de dar contas a ninguém acerca do que fazia ou não fazia. Por isso, apenas tive de esperar pela hora indicada, num nervosismo e numa impaciência fáceis de compreender!
Já no caminho para a casa de Amélia, comprei uma caixa de bombons, e foi com ela que lá me apresentei, sorridente mas nervoso em extremo.
Ela abriu-me a porta, e beijou-me nas faces, amigavelmente.
Depois, encaminhou-me para uma espécie de quarto de costura, como dantes havia, disse-me que me sentasse e que aguardasse um pouco, pois ia tomar um chuveiro.
A casa-de-banho era mesmo ali ao lado, pelo que foi com compreensível perturbação que fui ouvindo os sons associados ao que se ia passando: os sapatos dela a caírem no chão, a água a correr... Até mesmo o ensaboar do corpo acho que podia ouvir!
Naturalmente, procurei uma forma de a poder espreitar sem ser visto. Mas não consegui, e aliás nem foi preciso!
— Anda cá, chega-me a toalha que está pendurada ali na porta — disse ela.
Assim fiz, e foi tolhido por um certo embaraço que lha entreguei, de olhos baixos.
— Então? — riu-se ela — Na tua idade nunca viste uma mulher despida? Vamos, podes olhar para mim à vontade, eu não sou nenhuma beleza nem te como!
Com o corpo a escorrer água envolveu-se, então, na enorme toalha turca e limpou-se demoradamente na minha frente, expondo a sua nudez sem qualquer embaraço.
Ela já tinha passado dos 50 anos, mas mantinha um corpo muito aceitável, em que sobressaíam dois enormes seios, com grandes auréolas negras, já um pouco flácidos mas ainda atraentes.
— Chega-me o creme para as pernas, que está nesse armário!
O tom com que o disse era já diferente... De um momento para o outro, a sua voz tornara-se dura, ríspida, seca, autoritária!
Senti um arrepio e obedeci.
Ela tinha posto um pé em cima de um pequeno banco, e toda a perna direita estava à mostra.
— Então? Estás agora à espera de quê?! — perguntou ela, enquanto colocava um enorme sutiã preto.
De início, não entendi. Ela tinha-me pedido o boião do creme, eu estendera-lho, mas ela não lhe pegara! Queria, eviden-temente, que fosse eu a espalhar o creme nas suas pernas!
Apressei-me a fazê-lo, claro, pondo-o primeiro na palma da mão e depois, um pouco a medo, na coxa dela — em seguida no joelho, depois na perna...
Fiz tudo como deve ser, e demoradamente, nessa perna e depois na outra.
Ela não dizia nada, e eu ainda menos, até que reparou como eu me demorava exageradamente nos seus pés, com particular demora nos dedos, como se os massajasse — um por um.
Não irei dizer que ela tinha pés bonitos. Não seria verdade, e isso era natural numa mulher que sempre trabalhara ardua-mente, passando a maior parte do dia em pé, a andar de um lado para o outro — primeiro como funcionária escola, depois como empregada de limpeza em casa da D. Beatriz. Mas o erotismo de uma situação dessas, como muito bem sabe quem já a viveu, não tem tanto a ver com a beleza como com a situação em si mesma.
Tudo isso demorou muito tempo, pois nem eu nem ela tínhamos pressa.
Sucedia, no entanto, que o banco era muito baixo, pelo que eu tive de me ajoelhar quando chegou o momento de lhe pôr creme nos pés. E a certa altura, já completamente louco, resolvi perguntar:
— Importa-se... Posso... Posso beijar?...
— Beijar o quê? — perguntou ela, só para me obrigar a responder.
— Os seus pés... Gostava muito...
Ela riu-se:
— Vais ter muito tempo para isso! Agora, enxuga o chão, que está molhado, e lava a banheira. Tens a esfregona e o detergente ali, por trás da porta. Vamos, mexe-te, inútil!
De um momento para o outro, tudo aquilo deixou de me parecer absurdo, passando a fazer todo o sentido.
Entretanto, e enquanto eu fazia o que me ordenara, ela vestia-se, como se eu não estivesse ali!
Era inevitável tentar imaginar o que iria suceder, mais cedo ou mais tarde. Tudo se encaminhava para um clímax sexual de grande intensidade, e que, com um pouco de sorte, não seria exclusivo desse dia — e eu tinha-me tornado um mero servo de uma empregada de limpeza... como sempre sonhara!
— O que quer de mim? — pergunte então, quase só para romper o silêncio enquanto ela prendia as meias de nylon no porta-ligas preto que nessa época se usava.
Ela riu-se, e não respondeu logo, como se estivesse a pensar no que havia de dizer.
Por fim, disse:
— Eu, dantes, também não sabia que havia indivíduos como tu... Mas agora já sei...
E fez uma pausa, como se procurasse as palavras certas, e prosseguiu:
— Quem me abriu os olhos foi a D. Beatriz, e vais ouvir uma coisa que ela ontem não te contou, porque se calhar teve vergonha. Tem a ver com o tal Eduardo, o rapazinho da régua roubada e que levámos para o gabinete.
Pareceu-me que também estava com dificuldades em dizer o resto, mas por fim continuou:
— Como te disse, eu tive de o segurar enquanto a D. Beatriz lhe batia. Mas não foi só porque ele estrebuchava...
— Então?! — perguntei eu, ao ver que ela se interrompia.
— Bem... Eu reparei que, enquanto apanhava, ele se esfregava na beira da secretária. Compreendes, ou tenho de explicar melhor?
Sim, claro! Ele masturbara-se durante a surra, devia ter tido um orgasmo, e isso interrompera o prazer da sova. Por isso, uma vez terminado esse prazer, tudo se alterara — ele finalmente fora vergado, e então começara a chorar e a suplicar, como era habitual, nesse gabinete e nessas circunstâncias!
— Apesar de ele ainda ser relativamente jovem, já tinha vida sexual, e viemos a saber que não era caso único. A predis-posição desses indivíduos para essa tara nunca diminui, e para muitos o grande sonho é poderem vir a ser escravos de mulheres...
Olhou para mim, e rematou:
— Como acontece contigo, está-se mesmo a ver. E olha que eu vou aproveitar-me disso lindamente!
Senti-me gelar, baixei os olhos e sussurrei:
— Quer-me, então, para isso?
Ajeitou a saia, apertou o cinto que acabara de colocar, olhou para mim de lado e desfechou:
— Talvez... Se mereceres... Mas agora vamos, que já são quase 10 horas.
— Vamos...? Vamos onde?! – perguntei, perplexo e sem per-ceber nada!
Não tardei muito a saber. Estava na hora de ela ir trabalhar para a casa de D. Beatriz (que nessa altura estava para fora), e queria que eu fosse com ela. O seu trabalho era o habitual: limpar o pó, aspirar, varrer, esfregar o chão, cozinhar, passar a ferro, tratar dos gatos, ir às compras... E era agora evidente que ela contava comigo para fazer algumas dessas tarefas... quiçá todas!
— Vais começar por aspirar a sala, enquanto eu vou às compras Quero isso como deve ser, e quando voltar não quero ver um grão de pó, ouviste?
— Demora muito? – perguntei, quase só para dizer alguma coisa.
Ela não respondeu, e limitou-se a abrir a porta da despensa, para me mostrar onde estava o aspirador, bem assim como as outras coisas de que, segundo ela, eu iria necessitar.
Pouco depois, também sem dizer palavra, saiu.
Demorei algum tempo até encontrar as peças necessárias, mas por fim dei início à tarefa, com uma sensação de estranheza como nunca tivera.
Como já disse, Amélia não era uma mulher nova nem especi-almente bonita. Era – digamos – uma mulher vulgar, pelo que todo o erotismo da situação tinha a ver com isso mesmo: a situação de dominação e submissão que ali encenávamos, e que ainda não sabíamos como iria prosseguir.
Mas a sala não era grande, pelo que em poucos minutos terminei a tarefa. Sentei-me, peguei numa revista que ali havia, e esforcei-me por me acalmar enquanto esperava por ela.
Não tardou muito até ouvir abrir a porta. Arrumei apres-sadamente a revista, levantei-me e, com um sorriso disse:
— Pronto, já está tudo bem aspirado!
— Isso é o que vamos ver – foi a estranha resposta. – Leva as compras para a cozinha enquanto eu faço a inspecção.
E estava eu, precisamente, a ver onde havia de arrumar coisas como as batatas e o arroz, quando ela me chamou. Parecia irada.
— Olha para isto! Achas que está bem, achas? – e apontava para um canto, por trás de um sofá que desviara, e onde eu tinha pensado que não era necessário aspirar.
— E aqui? E aqui também? Estás a brincar comigo, é? – E ia-me mostrando cantos e recantos onde encontrava alguma coisa por aspirar.
Vim a saber, mais tarde, que eu fora vítima de um truque, muito comum nessa época: para verificar se as empregadas domésticas limpavam bem, as patroas colocavam em certos lugares, de propósito, pequenos pedaços de papel (ou qualquer coisa semelhante mas bem identificável), que depois iam ver se tinha sido removido. E Amélia tinha feito isso comigo, sem que eu notasse!
Fiquei sem saber o que fazer, nem sequer o que dizer! Limitei-me, então, a baixar os olhos, mas não me escapando que ela estava de mãos nos quadris, numa típica pose de dominação que eu bem conhecia, mas com a qual eu nunca tinha sido confrontado ao vivo.
Ficámos, assim, durante algum tempo, sem saber como aquilo ia terminar. Fosse o que fosse que sucedesse, isso iria marcar todo o nosso relacionamento futuro.
Ambos sabíamos isso e, portanto, hesitávamos.
Ela olhava-me fixamente, especialmente nos olhos, que eu mantinha baixos. A certa altura, ela notou que eu olhava com particular atenção para o cinto dela.
Na realidade, talvez eu o fizesse, mas sem qualquer significado especial – apenas porque tinha de olhar para qualquer lado. Mas ela, atenta, deu um significado óbvio a isso, e ordenou:
— Olha-me de frente!
Obedeci, a medo, e reparei que ela levava as mãos à fivela, não despegando os olhos dos meus. Certamente reparou como eu estremeci ao vê-la tirar o cinto e acariciá-lo.
— Chega-te aqui!
Tremendo, assim fiz.
— Baixa as calças!
Fiquei gelado!
— Para quê? – perguntei, estupidamente, mas ao mesmo tempo começando a fazer o que me mandara.
— Adivinha! – foi a resposta.
Ficou a ver-me despir, cheio de vergonha.
Em seguida, apontou para um tamborete que havia no meio da sala, e não precisou de dizer nada. Deitei-me nele, de barriga para baixo, e aguardei.
Mas, contrariamente ao que eu esperava, nada sucedeu! Estranhamente, ela pegou no aspirador e foi fazer o que eu devia ter feito. Depois, sempre sem uma palavra, desligou-o da tomada e arrumou-o.
Na posição em que eu estava, era difícil vê-la, mas podia perceber muito bem o que se passava. Nomeadamente, eu conseguia ver, pelo canto do olho, que o cinto (largo, negro e cravejado com pregos de latão) estava ali perto, pousado e enrolado em cima do sofá de veludo.
Por fim, ela aproximou-se de mim, pegou nele, e disse:
— Onze. Onze minutos.
Percebi logo o que ela queria dizer: demorara esse tempo a fazer aquilo que eu devia ser feito! Esse número seria, portanto, o número de correadas que me daria? Estremeci, e esperei. Mas ela não tinha pressa!
— Nem nos tempos da escola apanhaste das minhas mãos, pelo que não sei se hoje será a primeira vez. Tu é que vais decidir.
— Eu? Como assim? – perguntei, com a voz alterada.
— Sim, claro. Tu já não és nenhum garoto, e eu não estou muito à vontade a bater-te. Se preferes, podes vestir-te e ires-te embora.
— Não entendo! Depois disto tudo, manda-me embora?!
— Não, não estás a perceber. Não te estou a mandar embora. Digo-te apenas que podes ir, se quiseres... Desde que eu nunca mais te veja.
— Isso é estranho – respondi. – Não sei o que fazer. Não me quero afastar de si...
— Não? Então, pede, suplica! Pede-me que te açoite! – ela estava também com a voz alterada, pois tudo aquilo era forte de mais para ambos! – Vamos, decide-te! Veste-te e desapa-rece, ou humilha-te e pede uma surra de cinto!
— É difícil para mim... Por favor, compreenda... – titubeei.
— E tu, vê se compreendes que eu não tenho o dia todo! Queres apanhar das minhas mãos, ou sumir de vez, hem?
Ao dizer isso, ela aproximara-se mais de mim. Reparei então que tinha tirado a saia, pelo que estava ali ao pé, provocando-me em extremo com as suas meias negras, de nylon, e com o terrível cinto de cabedal grosso, que fazia oscilar bem perto dos meus olhos!
— Estou pronto, Senhora...
— Será que ouvi bem? Trataste-me por “senhora”?
Percebi perfeitamente que tal lhe agradara e, pensando que com isso poderia escapar às correadas (de que, de facto, já tinha medo), respondi:
— Sim, minha Senhora... Se me permite, passo a tratá-la assim.
No entanto, longe de a aplacar, isso excitou-a ainda mais!
— Vais então apanhar as onze. Vais contá-las em voz alta, e agradecer devidamente, uma por uma...
Não foi fácil, nem para mim nem para ela, pois o que ali se passasse a seguir iria marcar, definitivamente, a nossa relação futura.
Ela, com o cinto na mão, seguro pela fivela, não sabia bem que força empregar, pelo que a primeira pancada foi dada de leve, quase a medo, um pouco como D. Beatriz fizera com a brinca-deira da régua.
— Uma! – contei eu — Obrigado, Senhora — completei, como ela ordenara.
Isso pareceu ser o gatilho de que ela precisava! Assim, e quan-do eu pensava que ela iria aplicar uma força crescente (em busca dos meus limites, como normalmente se faz nessas circunstâncias), pareceu desvairada, louca, descarregando em mim todas as suas frustrações de anos e anos de empregada ao serviço de outras pessoas!
Bateu-me nos rins, nas nádegas, nas coxas, nos ombros...
E eu, embora cheio de dores devido aos cravos de latão, ia contando e agradecendo!
Para meu terror, ela não parou nas onze! Nem nas doze, nem sequer nas vinte... Aliás, já nem sei quantas foram! Só sei que a certa altura, não aguentando mais, e como nada mo impedia, saí de cima do tamborete, rojando-me no chão, gemendo sem fingimento, torcendo-me e suplicando-lhe que parasse, numa situação incrivelmente ridícula, com as calças e as cuecas enroladas nos tornozelos, exactamente como ela descrevera a propósito da tal cena do gabinete!
Então, Amélia aproximou-se, sem uma palavra, e, sentando-se no tamborete onde eu fora espancado, afastou as pernas e limitou-se a dizer, sem largar o cinto da mão:
— Não te levantes, anda cá!
Era evidente o que ela pretendia. Nessa idade, eu já tinha alguma experiência com mulheres, embora não muita. Em todo o caso, tinha sido sempre com prostitutas e, por nojo, eu nunca fora capaz de fazer com elas sexo oral, o que agora era chamado a praticar, e com vivo prazer.
Nessa época, ainda não estava na moda as mulheres depila-rem-se, e Amélia tinha um verdadeiro matagal negro de pêlos púbicos.
Aproximei-me, então, de joelhos, mas ela exigiu alguns preli-minares. E foi perfeita!
Fez-me beijar-lhe primeiro os sapatos. Depois, tirou-os, e beijei-lhe os pés, até ela dizer "Já chega! Continua..."
Assim fiz, claro, sempre por ali acima, deliciado, e lembro-me que até me demorei a morder as presilhas do porta-ligas!
Depois, ela mesma me encaminhou para onde queria, segurando-me pelos cabelos com uma mão e masturbando-se com a outra, complementando com os dedos o que eu fazia com os lábios e a língua.
Eu estava louco de prazer e excitado como nunca estivera na vida, mas era bem claro que o orgasmo de que eu precisava desesperadamente não me estava ainda autorizado!
Sim, ali só contava o prazer dela, que não demorou até atingir o clímax, acompanhado de imprecações e obscenidades que não vou aqui reproduzir.
Por fim, cansada mas satisfeita, observou a minha erecção. Riu-se, e comentou:
— O que não davas tu agora para te poderes vir, hem?
Nem respondi e ela, então, mandou que me arranjasse. Por sua vez, vestiu a saia, pôs o cinto, e disse-me:
— Sabes que não viemos aqui para estas brincadeiras. Viemos para trabalhar, e ainda há muitas coisas para fazer. Ou antes: para "tu fazeres", pois vais limpar o pó dos móveis enquanto eu fico aqui sentada, a ver-te...
Assim fiz, o que demorou bastante tempo, pois ela divertia-se a observar-me, nunca se dando por satisfeita com o meu traba-lho. Mas, ao contrário do que cheguei a pensar, não me voltou a bater.
Por fim, depois de me obrigar a limpar os vidros das janelas, disse que já bastava.
Eu estranhei, pois a casa era grande e, se ela quisesse, podia mandar-me fazer o mesmo nas outras divisões. Mas percebi que me reservava para outros prazeres (que, pelos vistos, tinha pressa de pôr em prática), pelo que pouco depois saímos, descemos as escadas e entrámos na sua casa que, como disse, era no andar de baixo.
Ora, ali à entrada, e em cima de uma mesinha do hall, ainda estava a caixa de bombons que eu lhe trouxera. Ela só então pareceu reparar nisso, e comentou:
— Com este calor, se calhar já se estragaram! Abre lá a caixa, para ver como estão.
Enquanto eu a desembrulhava ali mesmo, ela foi para o quarto — mudar de roupa — pensei eu.
— Então esses chocolates? — perguntou.
— Estão muito moles, de facto... mesmo a desfazer-se...— respondi.
E, ao mesmo tempo que o dizia, atrevi-me a entrar no quarto, para lhos mostrar.
Fiquei siderado. Ela estava sentada em frente do toucador, completamente despida, penteando os longos cabelos cas-tanhos com uma escova. Tinha já tirado o sutiã e as meias, e calçado umas sandálias douradas, que deixavam ver as unhas dos pés, pintadas de um vermelho vivo.
— Mostra-me cá essa porcaria!
Ao ver os bombons quase desfeitos, mostrou-se furiosa, e deu uma palmada na caixa, fazendo-os cair no chão.
Fiquei pasmado, pois teria bastado metê-los no frigorífico!
— Vamos, limpa isso! Estás à espera de quê, idiota?!
Eu quis ir à cozinha buscar o material de limpeza, mas ela segurou-me por um braço:
— Onde vais? O chocolate come-se!
Eu já devia esperar isso, pelo que me pus de quatro e comecei a fazer o que ela me ordenara.
Não era tarefa fácil, até porque os bombons eram muitos. Mas era precisamente isso que a divertia, e com a ponta da sandália ia apontando:
— Ali! E aquele ali, burro!
No entanto, mesmo depois de eu comer aquilo tudo (levando-me quase a vomitar), ela não estava satisfeita.
De facto, o chão ainda estava sujo. Obrigou-me então a lambê-lo mas, dessa vez, apontando com a escova.
Receei que me batesse com ela (pois eu ainda estava muito dorido), mas não o fez, embora não deixasse de me mostrar que ainda ficavam nódoas no chão.
Depois, já enfastiada, disse:
— Por agora, chega. Despe-te todo.
Naturalmente, eu pensei que chegara a hora de ter o alívio de que precisava desesperadamente.
Tirei então a roupa toda, que coloquei a um canto, e reparei que ela me observava pelo espelho do toucador, demorando o seu olhar na minha erecção que, como se compreende, atingira proporções muito razoáveis.
— Deita-te na cama. É preciso eu dizer-te tudo?!
Assim fiz, extremamente nervoso, e aguardei. Lembro-me de que ela mantinha as sandálias calçadas, tinha apanhado o cabelo atrás, com uma fita, e também posto um pesado colar e duas enormes argolas de ouro.
Eu estava de barriga para cima, imóvel, um pouco envergo-nhado com a minha erecção e sem saber o que fazer.
Mas não teria de me preocupar, pois a iniciativa cabia toda a ela, como era natural.
Aproximou-se então, de lado, e, rindo, fez uma ligeira carícia no meu sexo. Depois, com agilidade, subiu para cima da cama e cavalgou-me.
Eu já esperava isso, mas ela fê-lo de uma forma especial:
Sentou-se no meu peito, virada para mim, mas tendo o cuidado de não permitir que o meu sexo lhe tocasse de forma nenhuma. Assim, mesmo que eu quisesse e ela me autorizasse, o orgasmo não era possível.
Mas esses meus doces tormentos apenas estavam a começar!
Eu tinha o tronco comprimido pelas suas coxas carnudas e quentes, os seios enormes descaíam até ao ponto de os mamilos aflorarem o meu peito, e até o chocalhar do colar me perturbava.
Nunca soube que experiência teria ela com homens. Decerto seria alguma, pois não era virgem, e o certo é que sabia levar-me aos paroxismos do desejo.
— Estás doidinho, não estás?— disse ela, soltando os cabelos num gesto provocante — Coitadinho, até estás sem voz! — e era verdade!
Depois, chegando a boca até bem perto da minha cara, sussurrou, como se tivesse receio de que alguém nos pudesse ouvir:
— Vou fazer-te vir, e vais ter um orgasmo como nunca tiveste. Mas, primeiro, terás de repetir, em voz alta, o que te vou mandar dizer. Vou ligar este gravador para que fique registado. Quando acabares, alivio-te. Aceitas? Claro que aceitas!
Ligou então um pequeno gravador que estava ali ao lado da cama, colocou-o na posição mais adequada, e começou:
— Só tens de repetir o que eu vou dizer. Deves falar claro e não omitir nada. Entendido? Então comecemos. Vamos lá, então. Diz: "Sra. D. Amélia, minha Senhora..."
Repeti isso, palavra por palavra, ao mesmo tempo enver-gonhado e excitado.
Depois, ela prosseguiu:
— “Declaro, e quero que fique registado, que é de minha livre vontade que aceito ser seu escravo, enquanto for do seu agrado e me der essa honra. Obedecer-lhe-ei em tudo, e receberei de bom grado os castigos que entenda aplicar-me, sejam eles justos ou por mero capricho".
E por aí fora, numa longa declaração que ela ia improvisando e prolongava, desnecessariamente, obrigando-me a repetir frases já ditas, só pelo mero prazer de me ver assim, vergado, dócil e submisso, disposto a tudo!
Finalmente, chegando-se um pouco atrás, soergueu-se um pouco, pegou no meu sexo e introduziu-o no seu.
Explodi de imediato, num orgasmo violento como nunca até então tivera.
Durante ele, ela deitara-se sobre mim, abraçara-me, beijara-me até, e gemera, louca de prazer:
— Escravo! Escravo lindo... Eu bato-te, mas até gosto de ti, sabias?
Ficámos assim muito tempo. Estava bastante calor, e os nossos corpos suavam. Mas era bom — muito bom! —, e eu podia saborear aquele corpo maduro, carnudo e quente, algo que sempre fantasiara mas nunca pudera sentir.
Como já disse, ela não era jovem nem bonita, mas isso não interessava nada. O erotismo estava todo ali, no contacto dos nossos corpos, e na estranha relação de dona/escravo que agora se ia iniciar e que nem ela nem eu sabíamos como iria terminar.
*
ESSA situação durou muito tempo. Na realidade, prolongou-se por vários anos!
Eu pensara, de início, que D. Beatriz iria ser incluída nessas loucuras, e tinha bons motivos para isso. Mas não foi, pois Amélia queria-me só para si, e eu aceitei, com prazer.
*
ENTRETANTO, a minha vida alterava-se, rápida e signifi-cativamente: eu acabara o serviço militar, arranjara um emprego estável, tinha uma bonita namorada e, naturalmente, queria casar-me.
Amélia ficou triste e pensativa quando lho disse, mas compreendeu que teria de ser assim. Eu estava quase com 30 anos e ela com o dobro.
No entanto...
No meu casamento com Maria Alice, e contra as minhas melhores expectativas (e por mais artifícios que tentasse), nunca consegui ter, com ela, o tipo de relacionamento em que já me viciara.
Na realidade, eu já não era capaz de me excitar (nem sequer de ter prazer sexual) sem uma relação sadomasoquista (ou de BDSM, como hoje se diz) e, como ela não ma proporcionava (e até se riu às gargalhadas quando eu um dia me ajoelhei a seus pés...), as minhas erecções falhavam com frequência, e os orgasmos proporcionavam-me um prazer bastante incompleto.
Assim, e sempre que podia, eu corria para casa de Amélia, e rojava-me a seus pés logo que entrava (por vezes, mesmo no hall!), humilhando-me com infinito prazer e implorando o chicote que a minha esposa não me dava, e sem o qual eu já não sabia viver.
Um dia, Maria Alice viu umas estranhas marcas no meu corpo. Não eram de chicote (pois tínhamos o cuidado de usar um cujas marcas não perdurassem), mas outras, de queimaduras, pois a minha relação sadomasoquista com Amélia subira de grau e passara a incluir, desde há algum tempo, algumas pequenas torturas que já não dispensávamos – e nesse dia, excitada, ela havia ido longe de mais:
Amarrara-me na cama de barriga para baixo, em cruz, e com uma agulha em brasa (que ia aquecendo numa vela) marcara quatro pequenos riscos na minha nádega esquerda e outros três na direita - formado, respectivamente, um M e um A.
— Se a tua mulher vir, não digas que é de Maria Amélia, diz que é de Maria Alice – e riu-se, excitada, sabendo bem o risco que me fazia correr com esse despropósito.
Nessa noite, resolvi confessar tudo à minha mulher, mas — não sei como —, ela já sabia o essencial. Talvez algum dia me tivesse seguido, ou detectado algum cheiro – a perfume, ou outro.
A separação não foi tão traumática como se pode pensar, e Maria Alice teve até a elegância de omitir esses detalhes durante todo o processo.
*
O falecimento de Amélia (alguns anos mais tarde), a compra de um moinho de vento e tudo o mais que atrás contei correspondem a outra fase da minha vida, bastantes anos depois.
Mas isso já é outra história...
FIM (ou início?)




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