"Os mais excitantes contos eróticos"

 

TERROR NO CANAVIAL -I


autor: Rosário
publicado em: 26/03/17
categoria: bdsm
leituras: 2205
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Parte I
— Boa tarde. Sabe dizer-me se a maré já está a baixar?
Quem assim me interpelava era uma senhora elegante e vistosa, dos seus trinta e poucos anos de idade, de longos cabelos negros apanhados em rabo-de-cavalo e envergando um esvoaçante vestido vermelho-sangue.
Trazia uns chinelos de praia na mão, uma Nikon ao pescoço e auscultadores nos ouvidos, que tirou quando se me dirigiu.
Mas — e queiram desculpar-me! — vejo que devia ter come-çado pelo princípio, e não o fiz. Será agora, então.
*
A praia de Porto de Mós (no Algarve, em Portugal) comunica, do lado nascente, com uma outra, bastante mais bonita, chamada do Canavial, que se destaca pelos seus algares e grutas, de diversos tamanhos, formas e profundidades, cavadas nas rochas e arribas. Mas a comunicação entre as duas não é fácil — apenas se pode contar com ela durante algumas horas por dia, na maré baixa, a menos que se vá a nado, ou de barco; ou pelas falésias, mas num caminho difícil e que pouca gente conhece.

A ligação entre as duas praias, na maré baixa
E era perto dessa passagem entre as duas praias que eu estava — como sempre, sentado a ler um policial à sombra de uma rocha —, quando o meu descanso foi interrompido, mas tão agradavelmente quanto se pode imaginar.
Levantei-me, aproximei-me dela, e esmerei-me na explicação acerca da melhor forma de aceder à outra praia — o que, nesse momento, era de todo impossível.
— Volto então amanhã de manhã — disse ela, não se preo-cupando com o meu olhar de atrevido incorrigível.
E já se afastava, quando se virou para mim e perguntou:
— Você tem internet?
— Claro — respondi — Hoje em dia, quem a não tem?
— Então procure o filme Terror no Canavial, no YouTube, e amanhã diga-me se gostou.
E foi com essas estranhas palavras, acompanhadas por um sorriso misterioso, que a beldade ali me deixou.
Corri para o telemóvel, e, pouco depois, estava já a ver o vídeo que ela me indicara.
Era um filme que não tinha mais do que uns 20 ou 30 minutos, e obviamente feito por amadores; mas, apesar disso, a qualida-de não era má de todo.
Parecia trata-se de uma história de amor, havendo cenas passadas precisamente ali, nos locais que eu ultimamente fre-quentava, e nem sequer foi surpresa quando vi a minha bela turista a aparecer, como actriz, contracenando com um sortu-do, que de imediato passei a odiar instintivamente!
*
Ora, e dito isso em termos gerais, vamos agora ao resto da história, que ocupava a maior parte do filme.
Via-se, então, o parzinho romântico a caminhar à beira de água, pisando as ondas evanescentes, com um pôr-do-sol em fundo e as gaivotas a esvoaçarem em torno deles.

Um pôr-do-sol em Porto de Mós
*

O extenso areal da Praia do Canavial, na maré baixa.
Ao fundo, a zona de grutas onde decorre o que adiante se conta.
*
Depois, e sempre de mãos dadas, aproximavam-se de uma zona de grutas, que observavam com particular interesse, uma após outra, passando agilmente entre as rochas e as poças de água — que o mar, tendo baixado a maré, por ali deixara.
Parecia que procuravam uma gruta para fazer amor mas, como ao mesmo tempo o sol se punha, talvez a ideia fosse dormirem por ali.

A zona das grutas

Esta era uma das grutas mais interessantes.
Além de baixa e bastante profunda já tem, junto à sua boca, uma rocha caída, facilitando os efeitos digitais da derrocada.
*

Uma outra gruta possível

Esta acabou por ser a gruta escolhida. Tal com a anterior, é baixa e bastante profunda, mas com a vantagem de o mar chegar até ela — portanto mais adequada ao que se pretendia na história.
*
Essa parte do filme, de tão óbvia que era, dispensava diálogos, pelo que apenas haviam metido uma música de fundo, român-tica quanto baste.
Nas cenas seguintes, e enquanto ela acendia uma fogueira à boca da gruta escolhida (com uns paus e umas tábuas que o mar para ali atirara), ele afadigava-se no seu interior, ajeitando a areia, ao mesmo tempo que umas quantas velas (saídas sabe-se lá de onde!) apareciam acesas dentro da caverna, ilumi-nando os seus mais escuros recessos. E essa iluminação, juntamente com a da fogueira e o luar da lua cheia (que entre-tanto aparecera), davam a toda a cena um curioso aspecto feé-rico.
Até esse momento, o filme quase não tinha diálogos, vivendo da exibição das bonitas paisagens do chamado Barlavento Algarvio e do romantismo do par amoroso a passear por ali.
E eu, à medida que o filme passava, interrogava-me como se explicaria o «terror» no título, até aí tão desajustado do que se podia ver.
Aparentemente, a explicação vinha a caminho, sob a forma de um desabamento de terras e pedras que, como eu bem sabia, eram frequentes por ali. E, como não podia deixar de ser para a continuação da história, a gruta ficava bloqueada com o nosso “herói” lá dentro.
A beldade, então, corria em seu socorro soltando gritinhos, mas apenas para constatar que não podia fazer nada: já era quase de noite e a passagem tinha-se fechado, pelo que teriam de esperar pelo dia seguinte para chamar os bombeiros ou ir à cidade pedir socorro.
Mas nada de grave, afinal, pois ninguém se ferira, e havia co-mida e bebida para ambos.
*
Ora, quando cheguei a essa parte do filme, e como conhecia bem a gruta em causa por a ter visitado muitas vezes, fiquei bastante surpreendido, pois estava certo de não ter havido, ali, qualquer desabamento — nem recente, nem sequer nos anos mais chegados; mas vim a saber, mais tarde, que essa e outras partes haviam sido feitas digitalmente

Uma das inúmeras derrocadas que ali ocorrem com frequência
*

Um deslizamento de terras
*
Mas prossigamos...
Com essa cena do desabamento, e mais ainda com a cons-tatação de que seria necessário passarem assim a noite (com ela a dormir ao luar, junto à fogueira, e ele fechado na gruta onde nem sequer podia pôr-se em pé), a história mudava de rumo:
A partir daí, a câmara de filmar adoptava outro ângulo, pas-sando para o interior da gruta, mostrando-nos a realidade sob o ponto de vista do enclausurado.
E o que ele via (e eu também...) era aquela maravilha de mu-lher a despir-se lentamente, ficando por fim completamente nua — iluminada por trás pela chama da fogueira, e pela frente pelo luar.
Lindo... e “FIM”!
..oOo..
Fiquei estupefacto!
Então agora, que a história podia tornar-se interessante, é que acabava?!
Arrumei as minhas coisas, nervoso, e voltei para casa — onde, agora no ecrã grande do computador, vi e revi o filme até à exaustão, antecipando o encontro do dia seguinte - que, apesar de não estar garantido, era, no entanto, mais do que provável.
De facto, uma coisa parecia certa: por qualquer motivo, aquela mulher queria visitar o local das filmagens, e para isso teria de ali voltar durante a maré baixa, e no intervalo de tempo, restrito e bem definido, que eu lhe dissera.
E foi assim que, no dia seguinte, e depois de ter passado uma boa hora ao espelho — a arranjar-me, e até a ensaiar poses e sorrisos ridículos de galã serôdio! — me meti no carro e fui até à praia.
Não tive de esperar muito para a ver chegar, acenando-me, ainda de longe, com um simpático sorriso nos lábios. Trazia agora um vestido branco, ligeiro, todo decorado com desenhos de flores exóticas.
Cumprimentou-me familiarmente com um par de beijos nas faces, e cheguei a pensar que se ia sentar a meu lado.
— Vamos? — perguntou-me ela, dando assim resposta à questão que eu me colocara.
O caminho até à gruta são uns bons 300 metros, que percor-remos devagar, à beira da água, repetindo o trajecto que eu vira no filme.
E foi então, ao chegarmos lá (onde, como disse, não tinha havido qualquer desabamento), que ela me falou dos efeitos digitais, que — como veremos mais tarde — se estendiam a muitas outras coisas nas actividades cinematográficas em que ela estava envolvida.
Pousámos o que levávamos (a minha toalha e um saco de lona que ela trazia a tiracolo) e eu esperei — pois, ali, toda a inici-ativa era dela, e a mim restava-me observar; haveria, cer-tamente, oportunidade de lhe colocar as questões que me abrasavam.
E a principal era simples:
Porquê o FIM do filme, precisamente quando parecia estar a começar?
Sentei-me numa rocha baixa e plana que ali havia e fiquei a vê-la a tirar do saco as suas coisas, que foi colocando cuidadosamente sobre a minha toalha: uma máquina foto-gráfica, outra de filmar, um pequeno gravador — tudo de qualidade profissional.
Ah! E uma grande garrafa de água, outra mais pequena de vinho e um embrulho que — como vim a saber mais tarde — trazia sanduíches de queijo e fiambre para ambos.
Fez isso tudo em silêncio, compenetrada como se estivesse a trabalhar — e, de facto, estava.
Tirou, então, inúmeras fotografias, de todos os ângulos e mais alguns, fez takes de filmagem e gravou o som do mar e das gaivotas.
Finalmente, e dando-se por satisfeita com o trabalho, veio sentar-se a meu lado.
— Vamos comer qualquer coisa? — perguntou-me, sorrindo. — Ou prefere, antes disso, ir dar um mergulho?
O que eu queria, inicialmente, era saber a continuação da história, mas agora a possibilidade de ver aquela mulher em fato-de-banho deixava tudo isso de lado.
Eu já estava em traje de banhista, mas ela não. Inicialmente, pensei que lhe bastaria tirar o vestido, mas a realidade era bem mais perturbadora!
Voltou ao seu saco de lona, abriu um fecho lateral, e tirou dele um maiô negro, de lycra.
— Vamos, vire-se para lá...
Assim fiz, e tive de me satisfazer com a imaginação enquanto, mesmo ao pé de mim, ela se despia e vestia.
Em seguida, rindo e desafiando-me para que a seguisse, correu para o mar, mergulhando na água gelada!
— Então? Você está à espera de quê? – reclamou, em tom de galhofa, ao ver que eu não me molhava acima da barriga. Dizendo isso, nadou até perto de mim e começou a atirar-me borrifos de água fria, provocando-me protestos e arrepios.
Tratava-se de uma velha brincadeira de praia, a que eu nunca achara graça - mas ali era diferente!
Oh, se era diferente!
Tinha ali, e tão perto de mim que lhe poderia tocar — se a tanto me atrevesse —, uma verdadeira actriz de cinema, uma mulher de sonho...
Imagine-se a cena: o cabelo longo e negro (agora solto) a escorrer água, o magnífico corpo, perlado de gotas de água e realçado pelo fato-de-banho justo... Ah, e a deliciosa crueldade com que, a certa altura, me fez desequilibrar e mergulhar numa onda que me apanhou de surpresa, fazendo-a rir-se com verdadeiro prazer quando me viu a rebolar aos seus pés!
— Vamos, levante-se lá!
Havia ali uns rochedos escorregadios (de que voltarei a falar); as ondas continuavam a desabar sobre nós, e eu sentia-me profun-damente ridículo porque não conseguia pôr-me de pé — dando por mim, a certa altura, numa situação embaraçosa, de joelhos na sua frente, e sufocado pela água!
Então, ela, sempre rindo, ajudou-me a levantar e encaminhámo-nos para a areia. E eu, que tanto queria impressioná-la com os meus dotes de nadador de domingo, tinha afinal feito uma tristíssima figura!
Restava-me o consolo de estar com ela, numa praia deserta, pelo menos durante mais um par de horas, enquanto a passagem de regresso estivesse aberta.
Para minha grande felicidade, não foi preciso pedir-lhe que me deixasse secar-lhe as costas e o cabelo com a toalha. Fi-lo suave-mente, como se a acariciasse, e cheguei mesmo a pensar que ela não se oporia se lhe beijasse suavemente os ombros, o pescoço e os braços — mas não me atrevi a tanto, e fiz bem.
— Quer então saber a continuação do filme? - perguntou-me, enquanto desembrulhava as sanduiches e eu abria a garrafa.
— Claro — respondi.
— Pois bem, meu caro amigo. Não sabe você, não sei eu, nem sabe ninguém, porque essa continuação ainda não está feita. E em boa parte é isso que aqui me traz.
Fez uma pausa, estendeu-me o seu copo para eu a servir (o que eu fiz sem que ela me agradecesse – reparei nisso...), deu uma trincadela na sanduíche e prosseguiu:
— O vídeo está no YouTube, mas também se pode ver no Facebook, onde há um concurso de ideias para decidir como continuar.
— Posso ver? Isso é na sua página?
Não me respondeu. Limitou-se a esticar o braço, a puxar o saco de lona para si, e a tirar dele um pequeno computador portátil.
Depois, tendo-se ligado à internet e acedido ao endereço pretendido, mostrou-ma. Fiquei de boca aberta!

Imagem de perfil da página do Facebook inteiramente dedicada ao filme
*
Era ela, então, a famosa Rainha Cabyria (com “Y” e tudo!), de que eu já ouvira falar?!
— Sim, sou eu — disse ela, sorrindo, como se tivesse ouvido a minha pergunta. — Ou antes: é um dos meus perfis. É claro que tenho outros, mas este foi feito só por causa do filme.
Nessa altura, já estávamos ambos esticados ao sol, de barriga para baixo, cada um na sua toalha, mas suficientemente perto para me perturbar – e muito mais do que poderei aqui dizer.
Passou-me o computador, e eu percorri a página, para a frente e para trás, constatando com satisfação que não era mais uma igual a todas as outras que por aí se vêem.
Na realidade, também não era muito variada – mas o certo é que também não pretendia sê-lo. Tudo estava feito em redor do Terror no Canavial, e tinha bastante participação dos seus milhares de amigos e amigas.
E essa participação era feita de uma forma interessante e interactiva:
Ela lançava um determinado desafio (em geral sob a forma de várias hipóteses), e os leitores eram convidados a responder – ou em comentários, ou enviando SMS, ou respondendo a inquéritos muito simples.
E o primeiro desafio consistia na escolha dos locais das cenas. Podiam vir a ser um ou mais, conforme o dinheiro disponível, e lá estava o Castelo de Almourol, a Torre de Belém e, obviamente, o local onde nos encontrávamos, e que fora o mais votado.

O Castelo de Almourol, construído numa ilha a meio do rio Tejo
para defesa da fronteira sul do país.
*

A Torre de Belém, em Lisboa, ex-libris da capital.

A segunda questão consistia na definição do número de perso-nagens, a terceira no seu nome, a quarta era acerca do título, etc.
Mas tudo isso tinha ficado decidido havia muito tempo, e os posts mais recentes já eram acerca da história propriamente dita.
— É claro que sou eu quem dá as ideias principais e sugere as cenas e os locais possíveis. Os leitores apenas têm de me ajudar a optar, o que é muito importante dado que tenciono vender o vídeo e convém que agrade ao maior número de pessoas.
Eu tinha muitas reservas intelectuais quanto às criações na base de “o leitor decide”, mas essa mulher (Rainha Cabyria, ou fosse lá como ela se chamasse na realidade...) não se preocupava nada com isso.
Claro que, depois de muitos posts, comentários e sugestões, o resultado estava no vídeo que eu tinha visto no dia anterior.
— E agora? Pergunta você, certamente... — disse ela, rindo – Onde é que está o terror?
— Sim, claro. E como continua a história? – perguntei, devolvendo-lhe o computador.
— Como já lhe disse, não sei. Vou pôr isso à discussão, talvez ainda hoje. Porque não dá as suas sugestões?
— Deixe-me recapitular... Você (ou antes: a sua personagem) chega à conclusão de que não pode salvar o rapaz, a não ser no dia seguinte, e quando a maré baixar. Certo?
— Certo – respondeu ela.
E eu prossegui:
— Passam então assim a noite: ele fechado na gruta e ela ali perto, belíssima e toda nua, a tantalizá-lo.
— Espere! Isso já é você a inventar! Ela não é nenhuma sádica, e até está preocupada com a situação do namorado!
— Mas também é verdade – interrompi eu — que ela começa por fazer o papel de ingénua, e que ele a trouxe para aqui, onde agora estamos, para fazerem amor... Tudo isso se frustrou, mas também é certo que ele, mesmo ali fechado, não corre perigo, se a maré não subir muito.
— Bem... Você, mesmo sem querer, já deu uma sugestão muito interessante. Trata-se, então, de um volte-face. Ela, de súbito, e perante a situação inesperada (que é de grande tensão emo-cional), descobre que não é tão ingénua como ambos pensavam, e decide divertir-se a tantalizar o infeliz, que mal lhe pode tocar (a não ser por uma fenda estre as rochas), quanto mais fazer amor com ela! A ideia agrada-me, sim.
Olhou-me bem nos olhos, sorriu, e depois ajeitou-se melhor na toalha, quase descobrindo por completo os seios magníficos.
— No fundo, é o que eu estou a fazer consigo... E diga lá que não gosta!
Ao de leve, muito ao de leve, chegou-se mais para mim, quase me tocando!
Eu, sempre tímido, não sabia o que responder; aliás, nem mesmo sabia como me comportar, de tal forma a considerava ina-cessível.
E ela sabia-o bem. Ah!, bem demais!
— Continue, então, que eu estou a gostar das suas ideias. Quero que passe isso tudo a escrito, para eu pôr à consideração dos leitores. Mas agora vamos embora, que se faz tarde e depois ficamos aqui fechados, como as personagens do filme — e riu-se, provocadora, enquanto se vestia e eu começava a fazer o mesmo.
Só então eu soube que ela estava num parque de campismo ali perto e se ia embora no dia seguinte, bem cedo. Aceitou que eu lhe desse boleia até lá, mas, dizendo-se muito cansada, teve artes de se despedir de mim, desencorajando qualquer apro-ximação — que passava por um convite para jantar, uma ida a um bar da cidade ou mesmo uma ingénua ida ao cinema.
Não me preocupei demasiado. No fim de contas, eu agradara-lhe (se não em termos pessoais, pelo menos como “argumentista” amador) e a continuação do filme (que certamente teria lugar) seria feita sob os meus olhos.
Nessa mesma noite resolvi alinhavar as minhas ideias. Mas em breve desisti, decidindo fazer isso no dia seguinte, no local onde, decerto, iriam decorrer as filmagens. Ah! E não pude deixar de sorrir, à ideia de que podia estar na minha mão fazer subir a maré (que, na lua-cheia, tem uma amplitude bem grande), afogando aquela personagem masculina (que eu já odiava) numa providencial gruta algarvia transformada em seu sarcófago!
Jantei sozinho no restaurante do costume, vi novamente o vídeo (para me meter bem no espírito da história), tomei um duche frio, engoli um comprimido para dormir e deitei-me, ansiando pelos bons sonhos que ela me desejara à despedida mas que, afinal, não vieram...
*
No dia seguinte, fiz uma coisa que já devia ter feito há muito tempo:
Como atrás disse, além do caminho que dá acesso a essa Praia do Canavial a partir da outra, há uma escada, escondida nas arribas, mas que só algumas pessoas conhecem.
Assim, resolvi-me a descobri-la, para que as futuras idas e vindas, sozinho ou acompanhado, não ficassem dependentes da atrac-ção da lua.
Afinal, não foi difícil achá-la, tendo sido por ela que desci dessa vez, levando o necessário para, no local, passar a escrito o que já tinha alinhavado na cabeça.

A escada de acesso pelas falésias
*
O Outono já ia avançado, mas os dias estavam bons, e não eram só pessoas como Cabyria que tomavam banho na água fria. Porém, na zona que me interessava, eu estava absolutamente sozinho.
Entrei então na gruta onde, por ser muito baixa, se tinha de entrar e ficar de quatro, e foi nessa posição que eu me imaginei no papel da personagem enclausurada, fantasiando que era de noite e que tinha ali, do outro lado das pedras, que me bloque-avam a saída, aquela beleza de mulher, iluminada pela fogueira e pela lua-cheia.
Esse exercício não era difícil, pois eu tinha comigo o computador e o vídeo já corria sob os meus olhos.
E o que imaginei passei depois a escrito.
Bem... Na realidade, fiz duas versões.
Em ambas, Cabyria — vamos continuar a chamar-lhe assim, por desconhecimento do nome verdadeiro — aproveitava-se da si-tuação para pressionar o jovem, cuja libertação dependia dela, e sendo plausível admitir que a maré podia subir e afogá-lo, se ele não acedesse às suas exigências.
A cena passar-se-ia na manhã do dia seguinte ao da derrocada. Ela teria já ido à cidade mas, em vez de trazer o socorro prometido, traria duas pás. Diria que não era necessário contar a ninguém o que se passara, pois com ela a cavar por fora e ele a cavar por dentro, facilmente removeriam a areia, levando as pedras a desviarem-se o suficiente para ele sair.
A minha ideia, quando a história chegasse aí, era que ela fizesse certas exigências em troca da libertação que já estava à vista mas que ela suspendia. E era precisamente nessas exigências (e na forma de as colocar) que as duas versões diferiam.
Numa delas, a romântica, ela exigia juras de amor, promessas de casamento, e todas essas coisas que põem as velhinhas a chorar.
Claro que nada disso era compatível com as conhecidas prefe-rências daqueles leitores do Facebook, mas escrevi isso mais para me divertir de que por qualquer outro motivo.
Compus, depois, a outra versão, mas confesso que, enquanto a redigia, duvidava que viesse a ter coragem de a enviar:
As exigências de Cabyria eram, nesse caso, bem mais requin-tadas. Ver-se-ia a maré a subir, a água já a beijar a entrada da gruta, e o infeliz a implorar e a chorar, desesperado, na posição de joelhos a que a pouca altura da caverna o obrigava. E ela do lado de fora, altiva e arrogante, fazendo exigências sobre exigências, deliciando-se sadicamente com o domínio que a situação lhe proporcionava.
*
Acedendo à página da Rainha Cabyria com um dos meus perfis fake (o da “Gatinha Carente” – vejam só!) não tive dificuldade em encontrar o local onde poderia deixar a minha primeira sugestão. Já lá havia outras, todas de cariz erótico, e eu tinha bem a noção de que a minha versão romântica iria ser alvo de gargalhadas homéricas. Mas como, no fundo, quem mais riria era eu... mandei seguir!
Quanto à segunda versão, resolvi pensar melhor; e talvez des-dobrá-la em duas ou mais, conforme as exigências que a liber-tadora fizesse ao cativo.
Resolvi, então, dar mais uma volta na página da Rainha Cabyria, procurando indícios que me encaminhassem para as suas preferências. A palavra Rainha, a imagem que ela escolhera para o Perfil, e ainda todo o seu aspecto levavam-me a concluir que estaria na presença de uma das muitas dommes que enxameiam o Facebook. Mas o certo é que, tirando esses indícios, nada mais me autorizava a enveredar por aí.
Claro que me recordava quando, na véspera, eu estivera de joelhos, na água, na sua frente. Mas também era verdade que nessa altura ela não dera significado a isso e, rindo, até me ajudara a levantar.
E estava eu a percorrer a página para cima e para baixo quando, de súbito, me deparei com uma partilha feita muito tempo antes, quase nos primórdios da página, que mostrava a Catwoman de chicote...
Estranho? Talvez não...
Cliquei, e fui parar a uma outra página (desta vez de claro teor Femdom, mas tão fake como a de origem), onde uma tal Princesa Janzara (a cruel personagem criada por Edgar Rice Buroughs para Tarzan e os Homens-Formiga) nos dava as boas-vindas!
Hummmm... Seria essa uma das outras páginas da minha Cabyria?
Mergulhei nela, mas apenas me deparei com a mais triste banalidade: as inevitáveis fotos do Femdom Paradise e do Other World Kingdom, que haviam sido sujeitas ao inevitável copy/paste por parte de quem pouco tem na cabeça, e muito menos para nos dar.


A Princesa Janzara, tal como aparece numa adaptação em banda-desenhada de Tarzan e os Homem-Formiga, publicada em Portugal, em 1954, no Nº 5 de O Cavaleiro Andante.
*
Mas, a certa altura, houve algo que me alertou.
Eu explico:
Como se sabe, muitos de nós usamos palavras que repetimos desnecessária e exageradamente. Na oralidade, é o caso dos “pois”, dos “portantos”, dos “estás a ver?”... e de outras palavras e expressões a que se dá o nome de muletas.
Ora, na linguagem escrita, isso por vezes também sucede – e fora isso que eu encontrara na página da minha Rainha Cabyria, facilmente identificada com a Princesa Janzara devido ao uso de uma determinada expressão pouco habitual — que não vou aqui referir —, mas a que ela recorria com excessiva frequência.
Bem... — pensei eu — antes isso do que erros de ortografia que, como se sabe, também são demasiadas vezes lamentáveis assinaturas; mas tal — felizmente — não se encontrava em nenhuma das suas páginas.
*
Nesta outra, Cabyria (aqui na pele da Princesa Janzara) geria sabiamente nada menos do que 5000 “amigos”, o número máxi-mo permitido pelo Facebook.
E nem podiam faltar os subs que se excitavam com o desenho (!!) da Princesa Janzara, afixando comentários como “Ai, como é tão bela, minha Senhora!” e outras de igual jaez, capazes de fazer rebolar o rir o mais sisudo!
Mas, a avaliar pelos likes que ela mesma punha (a premiar essas imbecilidades), isso agradava-lhe!
Ora! Fraquezas humanas quem as não tem?
*
Toda esta conversa serve apenas para explicar porque é que eu me decidi a escrever, na página destinada a sugerir a continuação do filme, um segundo comentário – mas agora de claro teor BDSM, na perspectiva de um sub que se fantasiasse na situação do enclausurado à mercê de uma domme cruel.
E, aí, dei largas à minha imaginação, redigindo um pequeno script (julgo que é assim que se chama) em que a bela torturava psicologicamente o preso, obtendo dele tudo e mais alguma coisa, sob a forma de promessas e declarações de submissão.
Em seguida, dando-se por parcialmente satisfeita, a domme libertava-o. Mas ele, já de fora da gruta (e depois de ter estado tantas horas sem se poder levantar), continuava na posição de quatro. Ela, então, punha-se na frente dele, de pernas afastadas e mãos nos quadris, na clássica posição que se pode ver na Internet repetida até à náusea.

Uma das inúmeras imagens de “dommes de perna aberta”
*
Dei largas à imaginação, fiz em seguida um esforço de síntese e, por fim, atirei aquela minha “pérola” para a página da Rainha Cabyria a coberto de um outro perfil fake, desta feita o Cachor-rinho Submisso (☺).
E estava eu muito satisfeito com o meu trabalho, esperando os comentários (e porventura os likes) dos outros leitores, quando recebi uma SMS dela mesma, que trazia um smiley (☺), seguido das seguintes palavras:
«A tua sugestão foi a escolhida. Contamos contigo para as filma-gens».
«Por quantos votos ganhei?» — aventurei-me a perguntar, sem comentar o facto de ela me ter identificado tão facilmente.
«Não sei, nem me interessa. Decidi eu, e basta. Só não sei se vais gostar de saber o resto...»
Claro que, ao redigir a mensagem dessa forma, ela esperava que eu lhe perguntasse “que resto”?
Mas resolvi armar-me em difícil e não lhe respondi. Isso deve tê-la irritado, dado que pouco depois me escrevia novamente, não escondendo o desagrado; e o diálogo, descontadas as inevitáveis gralhas e completadas as abreviaturas do costume, foi o se-guinte:

«Noto alguma falta de interesse da tua parte».
«É por causa do actor. Embirrei com ele».
«Ele rompeu o contrato. Queria dinheiro, e adiantado».
«Então... Não entendo como vai fazer o filme!».
«Então é porque és mais burro do que eu pensava > «Não está a pensar que...?».
«Claro que estou. Mas por enquanto não haverá paga-mento».
«Não preciso > «Eu sabia, meu lindo. Começamos na semana que vem».
«Depois diga o dia e hora, s.f.f.»
«Claro. E compra creme para os joelhos, que ali a areia é áspera > *
Escusado será dizer como passei os dias seguintes: sempre atento ao telemóvel, ao Messenger e ao e-mail.
Na ausência de notícias dessa mulher, cujo nome real continuava a ignorar (e ainda hoje desconheço!), eu percorria as suas duas páginas do Facebook em busca de um qualquer indício que me levasse a qualquer outra onde eu pudesse saber mais acerca dela.
Não encontrei nada além do que já conhecia, mas na da Rainha Cabyria, exclusivamente dedicada ao filme, havia um AVISO, publicado por ela, informando os interessados de que já estava decidida a "Parte 2" da história.
Claro que isso me deixou perplexo, pois eu apenas tinha redigido o script para alguns minutos, o que não ia ser suficiente para aquilo a que ela chamava, pomposamente, a "Segunda Parte da Obra".
A solução era, pois, esperar...
*
A surpresa caiu-me em cima, a altas horas da madrugada da terça-feira seguinte, sob a forma de um ficheiro em Word... protegido com password!
E estava eu a olhar para aquele ícone inútil, e a pensar porque teria ela feito isso, quando chegou uma SMS com um pequeno texto:
«A paciência é uma virtude, a intuição também».
Hummm... Será que, com uma frase que bem podia ser de Confúcio, ela queria testar a minha esperteza?
Então, que tal experimentar as palavras mais evidentes de todas?
Ah!, meus amigos! Assim eu acertasse na lotaria, pois, ao testar a palavra "Cabyria" (depois de “Canavial”), o ficheiro abriu-se como que por encanto!
Mas nem gastei tempo a felicitar-me por me achar a pessoa mais inteligente do mundo — e mergulhei logo na leitura do texto.
E o que eu ali tinha na minha frente era o guião para a "Parte 2" completa, não só com as cenas da gruta (na base do que eu sugerira) como mais algumas, passadas em vários pontos do país.
A minha cabeça quase explodia ao ler aquilo que ela se prepa-rava para fazer COMIGO no filme — não sei mesmo se falarei disso!
Mas o que mais me intrigava era o facto de eu ser colocado como actor a substituir o anterior!
Que artes digitais seriam utilizadas? Iria alguém alterar a minha cara para ficar semelhante à daquele estafermo - pois era assim que eu pensava no meu antecessor?
Certamente que era essa a ideia dela, pois o inverso não teria lógica!
Ah! Mas isso, nunca! A minha Rainha Cabyria — ou Janzara, ou lá como se chamasse ela — ia ter de ter paciência! Arranjasse-se lá como quisesse, mas na minha cara não ia tocar, nem na ponta do meu nariz!
Mal sonhava eu como esse problema viria a ser resolvido.
Já lá vamos, cada coisa a seu tempo.
*
Comecei, então, a ler o documento que tinha na minha frente e, ao fazê-lo com mais atenção, notei que incluía, também, a "Parte 1".
Tudo bem. O filme viria a ser uma obra única, pelo que era perfeitamente normal que o guião mostrasse ambas as partes —e até as seguintes, se pudesse ser.
E preparava-me eu para ignorar a parte já filmada quando, nela, me chamou a atenção uma referência a uma lanterna eléctrica, coisa que eu não tinha visto em lado nenhum.
Mas não era só isso, pois havia mais alguns pequenos porme-nores que não batiam certo com o que eu vira. No entanto, não lhes dei muita importância, atribuindo essas discrepâncias às inevitáveis alterações que os realizadores fazem no decorrer das filmagens.
Neste caso, por exemplo, o guião podia indicar uma lanterna eléctrica, mas à última hora alguém ter achado que umas velas ficavam melhor — ou, simplesmente, descobria-se, na altura da filmagem, que as pilhas estavam gastas e que havia, por ali, velas de recurso.
No entanto, à medida que a leitura prosseguia, essas alterações iam sendo cada vez mais frequentes, sendo que a mais importante de todas era o facto de "ela" não se despir completamente na cena da fogueira.
Mas, a certa altura, fez-se luz no meu espírito! Ah!, e que luz!!!
Era agora claro como água que as partes do filme onde entrava o estafermo iam ser refeitas!
Evidentemente que só podia ser assim, dado que ele sumira, rompendo o contrato que o obrigava a estar disponível para o filme completo — grande ingenuidade da parte da produtora, ao querer obrigar a um compromisso alguém a quem não pagavam!
Mas que diferença entre nós os dois! Esse idiota queria ser pago, enquanto eu era capaz de pagar para estar no seu lugar!
*
Chegou, então, o grande dia.
Desta vez, “ela” hospedara-se numa casa particular e aceitara a minha boleia.
Encheu o carro com material de filmagem e, quando lhe per-guntei pelo resto da equipa, limitou-se a dizer que era surpresa.
Vim a saber que a equipa era ela, eu, e uma jovem finalista de um curso de cinema que havia de aparecer no último comboio da manhã — o que se aceitava perfeitamente tendo em conta o que eu tinha lido.
Mesmo assim, como é que uma coisa feita com tão poucos meios podia resultar em algo interessante?
Bem... O filme que eu já tinha visto fora feito dessa forma quase artesanal e, no entanto, o resultado era bem aceitável, em boa parte graças aos efeitos digitais que tinham sido usados com inegável mestria.
Quando, ao fim de algum tempo e muito esforço, conseguimos levar tudo para o local das filmagens, já estava na hora de ir buscar a jovem ao comboio.
Pelas indicações da minha nova patroa, vi que seria fácil encontrá-la: não só, nessa altura do ano, já não havia as multidões do Verão, como estava previsto que nos encontraríamos junto das bilheteiras. Chamava-se Inês.
Como seria ela? E como iria reagir quando estivesse a filmar (e em takes repetidos) as cenas quentes que eu ia protagonizar?
Mas, finalmente, ali estava ela: parecia pouco mais velha do que uma adolescente — espigada, sem graça, sardenta, de cabelo curto, vestindo um fato de treino azul escuro e calçando uns velhos ténis cambados. Quanto à sua bagagem, era apenas uma grande mochila, que se recusou a passar-me para mão, mas que atirou para o banco de trás do carro com algum alívio.
Fosse por timidez ou por qualquer outro motivo, não era de muitas falas, e cheguei a duvidar que estivesse ali volun-tariamente. Assim, fizemos todo o caminho em silêncio, e foi com algum alívio que a entreguei à minha Cabyria.
— Temos de aproveitar bem as horas de sol, que agora os dias começam a ser curtos; e temos muita sorte se o tempo não mudar.
Nesse aspecto, estávamos relativamente sossegados, pois a meteorologia previa bom tempo para os próximos dias. E, se tudo corresse bem, não seriam precisos muitos para as filmagens a fazer ali pois, na visita anterior, Cabyria estudara já tudo e mais alguma coisa: os ângulos de filmagem, as localizações da câmara, a luz (e tudo o mais) já estavam decididos até ao mais ínfimo pormenor.
As cenas da "Parte 1" em que aparecia o estafermo tinham de ser repetidas, mas muitas delas (como o passeio à beira-mar) não ofereciam quaisquer dificuldades. Mas foi uma estranha sensa-ção, para mim, percorrer aquelas centenas de metros de mãos dadas com "ela", e depois representar a cena de escolher uma gruta para passarmos a noite!
Porém, e tal como no filme, o dia chegava ao fim. Ia ser preciso recolher tudo rapidamente, e regressar pelo duvidoso caminho da falésia.
— Ir embora?! — perguntou "ela", admirada. Nós vimos preparadas para dormir aqui, trouxemos até uma pequena tenda.
— Mas eu, não! — respondi, sentindo-me agastado por não me terem prevenido dessa intenção, para elas tão óbvia.
Como já havia pouca luz, pedi-lhes, então, que me emprestassem a lanterna eléctrica (que, como atrás disse, sabia que existia) para eu poder fazer o caminho de regresso com alguma segurança.
— Estás louco? — respondeu “ela”, retomando o estranho tratamento por “tu” que, para minha surpresa, já antes ensaiara algumas vezes. — E nós ficávamos às escuras?
— Então vocês têm lugar para mim na vossa tenda, é isso? — perguntei eu, sabendo bem quanto estava a ser provocador.
Fez-se um tenso silêncio entre nós. Apesar de toda a cordialidade existente até ali (devidamente temperada por uma forte atracção erótica), eu sabia que precisavam de mim, e bem mais do que eu delas. Certamente que não faltariam voluntários para me substituir, mas não numa altura em que estava tudo preparado e até já tínhamos começado a fazer filmagens.
— Para que é que vocês precisam da lanterna? Não vão acender uma fogueira, como no filme? — perguntei, achando que estava a ser engraçado e, ao mesmo tempo, diminuindo a tensão existente.
— Achas que sim? Então vá, trata disso! – respondeu “ela”, cruzando os braços e olhando-me com ar de desafio, iluminada por trás pela lâmpada eléctrica que Inês tinha acendido enquanto armava a pequena tenda em forma de igloo.

A tenda foi armada no recanto abrigado que se vê à esquerda.
À direita, a boca da “minha gruta”.
*
Paus, ramos e tábuas não faltavam na praia, de facto, e con-távamos com eles para a fogueira prevista na história. Mas estavam espalhados, e era necessário luz para os procurar. E não era nessa altura, já de noite, que isso podia ser feito.
— Posso perguntar uma coisa? — interrompeu a jovem Inês, quebrando o silêncio que até aí mantivera.
E, sem esperar resposta, disse-me:
— Não estou a perceber qual é o seu problema. Então você não pode dormir ali na gruta, que é precisamente a mesma da história? Então a sua personagem pode, e você não pode, porquê?!
A outra riu-se, ao ver a minha cara de espanto, e comentou:
— Ela tem razão, e nem sequer tens o problema de estar enclausurado... Se não conseguires dormir, podes passear à beira-mar. Vou dar-te uma coisa para não te queixares do frio.
E, abrindo um dos muitos volumes que trazia, tirou dele uma manta dobrada que, sem palavras, atirou para o chão.
Aceitei a oferta mas, para isso, tive de me baixar aos pés dela para a apanhar. Pareceu-me ouvir um risinho de ambas no momento em que o fiz, pelo que me apressei-me a levantar e a sair dali, embaraçado.
— Boa noite e bons sonhos! — disse “ela”, rindo, ao ver-me en-trar para a caverna.
Como já disse, a gruta era muita baixa, pelo que tive de entrar de quatro. E estava eu nessa posição, procurando um sítio aceitável para dormir, quando senti que “ela” se aproximava.
— Eu dei-te as boas-noites, e não te ouvi responder. «És mudo...?»
Sorri, ao ver que ela usava as primeiras palavras da Princesa Janzara que apareciam no seu Perfil do Facebook, e arrisquei-me a responder com as restantes:
— «...Pois eu te farei falar!»
— Espertinho! — respondeu ela, compreendendo que eu tinha descoberto essa sua outra página. E, sem me dar tempo para saborear essa minha pequena vitória, aproximou-se ainda mais de mim, ficando de pé, à boca da gruta, enquanto eu me mantinha de quatro, do lado de dentro.
Estávamos agora bem perto, e a situação era perturbadora.
Então, ela baixou-se, para ficar com a cara ao nível da minha, e sussurrou:
— Tu andaste a informar-te acerca de mim, mas eu também me informei acerca de ti. E sei que não tens nada de Tarzan...
Em seguida, pressionando a dura e afiada unha do indicador direito no meu braço esquerdo (simulando a cena referida, em que a princesa torturava o herói com um punhal), comentou:
— Mas, ao contrário da Janzara da história, eu tenho a certeza de que sou capaz de te fazer falar!
Pressionou mais um pouco e, vendo que me fazia doer sem que eu me queixasse, riu-se e comentou, fazendo-me arrepiar:
— Vamos, continuo à espera de te ouvir dar-me as boas-noites... verme...
Fiquei gelado! Aquela mulher mostrava, com essa palavra, que descobrira o meu Perfil e as minhas páginas do Facebook! Sim, identificara-me como a personagem do “verme” e, de certa forma, tinha-me agora nas mãos. Na realidade, isso não me agradou muito, mas agora era necessário responder ao pequeno jogo de dominação que ela ensaiava comigo.
E então tive uma saída que me pareceu genial:
— Não, não lhe dou as boas noites porque ainda é muito cedo. Nem sequer são 9 horas e ainda não vamos dormir.
— Eu sei, meu menino — respondeu ela, num tom irritante como se falasse a uma criança —. Mas vamos dormir cedinho, porque amanhã temos de nos levantar ao nascer do sol. Os dias são curtos e há muito que fazer: tomar banho, procurar lenha para a cena da fogueira, comer qualquer coisa...
— Ainda bem que fala em comer! — interrompi eu — Estou cheio de fome!
— E o que é que eu tenho a ver com isso? Que culpa tenho que não fizesses como nós, trazendo comida?!
— Já lhe expliquei. Se me tivesse prevenido que era para passar aqui a noite, eu teria trazido comida, bebidas, roupa...
— Pois era. Mas agora o que queres fazer?
— Vou esperar que a Lua nasça (que já não falta muito) e aproveitar o luar para sair daqui e ir a casa.
Mas ela, passando agora a sua unha nas minhas faces, conti-nuava a barrar-me a passagem, sorrindo.
— E o menino vai fazer isso com autorização de quem, pode-se saber? — perguntou.
Estava muito perto de mim, perturbando-me mais do que eu queria admitir. Podia sentir bem o seu hálito, os seios apareciam generosamente expostos, e o vestido subira-lhe bem acima dos joelhos, expondo aquelas coxas que já há algum tempo me enlouqueciam.
— Acha então que eu preciso de autorização de alguém para ir a minha casa? É isso que quer dizer? – disse eu, com a voz per-turbada.
Ela gostou de ver a minha atrapalhação e limitou-se a responder:
— Digamos que sim...
— Está tudo muito bem — respondi, já impaciente —, mas eu só estou ao seu serviço para as filmagens, e agora não é hora disso!
E já estava a ficar enervado, ao mesmo tempo que tinha plena consciência de que podia estragar tudo se me descontrolasse.
Mas apesar de a situação ser, pelo seu erotismo, do agrado de ambos, também era verdade que, se eu me afastasse do projecto do filme, a grande prejudicada seria ela.
E foi assim que, irritada, se levantou e me disse:
— Acho que ainda não percebeste uma coisa muito simples. Quando eu quero que passes a noite aí dentro, pretendo que te metas bem na pele da tua personagem. Quero que fiques sem te poder levantar, quero que passes frio, e quero que sintas o mar a avançar até aqui, se possível encharcando-te todo. Mas vai, desaparece! Também não serves para nada se estiveres esfo-meado! Nós as duas vamos jantar, e dou-te uma hora para ires e voltares.
De facto, a jovem já tinha aberto dois bancos de lona e uma mesa de campismo, e tirado de um saco de plástico um frango assado, um pacote de batatas fritas, dois pequenos pães, um par de copos, uma garrafa de vinho e uma Coca-Cola; e, já sentada e com os cotovelos apoiados na mesa, olhava para nós, tentando em vão ouvir a nossa conversa.
Quando, finalmente, saí da gruta e passei por ela, olhou-me nos olhos, sorriu atrevidamente, e disse-me:
— Vá lá, e não se demore. E pense que tem muita sorte por não haver batatas para descascar nem louça para lavar...
Pelo que percebi, era ela que, em geral, tratava disso (como empregada da outra), e o seu comentário trazia subentendido que, na situação que estávamos a viver, essas tarefas me viriam parar às mãos, mais cedo ou mais tarde!
Entretanto, o luar já era suficientemente intenso para eu sair dali, e pouco depois estava em casa a tomar um duche bem quente.
Em seguida, fui a um snack-bar ali perto, onde devorei muita coisa e mandei embrulhar alguns salgados; e, numa loja de chineses (ainda aberta apesar da hora tardia), comprei uma pequena lanterna, que iria esconder e me poderia ser muito útil.
Já de regresso, e ao parar numa bomba de gasolina, reparei que vendiam sacos com lenha, e lembrei-me de que no dia seguinte podia não encontrar com que fazer a fogueira - e comprei dois.
Em tudo isso não gastei mais do que uns 50 minutos, pelo que me pude apresentar ao "trabalho" na hora estipulada pela minha nova e exigente patroa, numa pontualidade submissa que mani-festamente lhe agradou.
Mas eu não me mostrava disposto a grandes conversas. Encaminhei-me para a minha gruta, dando de passagem as boas-noites a ambas, sem esconder alguma má-disposição, e pousei as minhas coisas a um canto.
O meu próximo desafio seria conseguir adormecer!
Não foi fácil, pois desde a perturbação causada pelos últimos acontecimentos, até ao frio que começava a fazer-se sentir (passando pela dureza da areia e pela humidade ambiente), parecia que tudo conspirava para eu passar a noite em branco; e, como se não bastasse, aquelas duas mulheres estavam ali, a dois passos de mim, numa exígua tenda onde mal cabia uma só... Apercebi-me de que falavam e se riam, mas não do que diziam.
Acabei por adormecer já altas horas da madrugada, e fui acordado pela voz da jovem, que comentava:
— Podemos estar à vontade, que ele dorme como uma pedra!
Esperei um pouco, senti que as duas se afastavam, e então abri os olhos. Ah!, o que vi não parecia ser deste mundo!
Desembaraçando-se, ali mesmo na minha frente, dos pijamas com que haviam dormido, as duas corriam para a água completamente nuas...
Naquela praia aparecem nudistas com frequência, e toda a gente sabe que o nudismo, por si só, tem muito pouco de erótico. Mas o que eu via era algo muito diferente!
Ah! E como a mocinha me enganara bem, com o seu ar ingénuo e as suas roupas desleixadas! Afinal era uma mulher feita... e muito bem feita!
Achei que devia sair da minha toca e mostrar-me. Quem sabe se me desafiariam para me juntar a elas?
Não me viram logo, e aproximei-me da água até estar bem próximo.
— Dormiu bem, vermezinho? – Perguntou Inês, usando uma familiaridade e uns termos completamente imprevisíveis, ao mesmo tempo que mergulhava numa onda sem esperar pela minha resposta.
Cabyria deu uma gargalhada ao ver o meu ar estupefacto! Entretanto, nem uma nem outra se mostravam minimamente embaraçadas por estarem completamente despidas, nem comentavam o facto de eu, pelo contrário, estar de fato-de-banho. Na realidade, ignoraram-me, e voltaram para a areia, onde se secaram mutuamente.
Eu não sabia o que fazer, pelo que saí da água lentamente e comecei a andar, sem destino, por entre as rochas.
— Não te mandei que fosses apanhar lenha assim que acordasses? – perguntou “ela”, fazendo um ar sério, mas que não durou muito ao ver como a outra se ria.
Eu respondi que tinha comprado lenha, mas isso não a satisfez.
— Nada disso! Na nossa história, as personagens não trazem lenha de casa. E madeiras é o que não falta por aí. Vá, mexe-te, e faz o que tens a fazer!
Não tive de procurar muito longe, e em breve juntava tábuas, paus e ramos secos para o que se pretendia, enquanto as duas, sentadas na mesa que entretanto tinham aberto, tomavam o café da manhã sem lhes passar pela cabeça me convidarem.
— Anda cá, que está na altura de termos a nossa conversa muito séria – disse “ela”, quando pousei o último braçado de lenha.
Havia ali perto uma rocha baixa, sentei-me nela e fiquei à espera.
— Vamos directamente ao assunto, e não me interrompas. Estamos aqui os três para fazermos um filme erótico de carac-terísticas muito especiais; mas tu sabes ao que me refiro, pelo que não vale a pena estar com meias palavras. Ora, depois da cena da gruta e da fogueira (que vamos filmar novamente logo à noite), a história entra numa nova fase...
Interrompeu-se para tomar mais café e prosseguiu:
— Segundo o guião que tu mesmo escreveste, a mulher apro-veita-se da situação, e exige um certo número de coisas ao enclausurado para o libertar. Ele acede a tudo, evidentemente. Não só porque quer sair dali, como pelo facto de ser um sub que vê realizado o seu sonho de ter ali uma domme.
Fora isso mesmo que eu escrevera, pelo que não a interrompi.
— Vamos então entrar na parte mais problemática. E sabes bem do que falo, pois foste tu que escreveste tudo. Eu apenas vou seguir o teu texto, com que estou de acordo. O problema são os pormenores... – e fez uma pausa.
Eu percebi bem do que ela falava:
Dado que a acção evoluía para uma situação de BDSM, estava previsto haver algumas cenas mais fortes. E logo numa das primeiras havia, mesmo ali na praia, a inevitável cena de chicote, em que eu seria preso a um rochedo que ela, certa-mente, já escolhera.
— Pensei fazermos “isso” naquele rochedo. Achas bem? – e apontou para uma enorme rocha que se erguia, imponente e destacada, junto ao mar.

*
Há muito tempo que eu me interrogava como isso iria decorrer, mas ela, apontando para a jovem, esclareceu:
— Sossega, meu querido. Tudo isso será feito digitalmente ou com recurso a truques simples de cinema. Não vais sentir nem a ponta do “objecto”! — E, dizendo isso, inclinou-se, abriu um pequeno saco, e retirou dele um longo chicote de domadora que, sem que eu percebesse porquê, me passou para a mão.
Percebi então tudo.
Da mesma forma que a tal derrocada de pedras seria incluída digitalmente no filme, também ali haveria qualquer coisa semelhante.
E foi a jovem quem prosseguiu:
— Como já percebeu, esse trabalho é comigo. Você vai ser filmado preso à rocha, e vai gritar como se estivesse a apanhar. Noutro take, ela brande o chicote mas não bate em ninguém. A alternância das cenas é que vai criar a ilusão de tudo.
Bem... Assim era mais fácil! Eu tinha o chicote na mão, e via perfeitamente que podia não ser muito agradável apanhar com ele!
Claro que no BDSM faz-se isso e muito mais, mas é numa situação de excitação sexual que, em princípio, não iria ocorrer durante as filmagens.
— Quando começamos? – Perguntei, nervoso.
— Pode ser já. Ainda há muitos preparativos a fazer.
Levantou-se, apertou o roupão de seda que até aí deixara entreaberto, e começou a dirigir os trabalhos; e a mim, coube a tarefa de pregar um espigão no rochedo, no local que ela já tinha escolhido.
De facto, e como boa profissional, ela tinha pensado em tudo, pelo que só tive de pregar o espigão e de, nele, pendurar um troço de corrente.

*
Enquanto eu fazia isso, a jovem montava a aparelhagem de filmar (incluindo uns reflectores em forma de guarda-chuva) e "ela" mudava de roupa.
Quando apareceu ao pé de mim, eu fiquei sem fala:
Apesar de não ter muita lógica na sequência da história, o certo é que resultava impressionante uma mulher como ela, vestida de domme!
E não tinha sido preciso muito:
Envergara o maiô de lycra que eu já conhecia, tinha posto por cima um cinto negro (largo cravejado), calçado umas sandálias de atilhos, e prendera os seus belos cabelos negros com uma argola dourada.
Completara o conjunto com um longos brincos e uma larga gargantilha — tudo também em dourado — e apenas hesitava em pôr uma máscara, tendo várias por onde podia escolher.
O resto era maquilhagem pura: lábios pintados de vermelho bem vivo, longas pestanas acrescentadas, sobrancelhas bem avivadas...
A completar tudo isso, empunhava o chicote, ainda enrolado e, dependendo da realização, era possível que toda a magia da cena convergisse para aí.
Afastei-me, para não as estorvar, e, a um sinal da jovem, "ela" começou a chicotear o rochedo com fúria, e soltando impre-cações, como «Toma, verme!» e outras igualmente apropriadas à situação encenada.
Arrepiei-me só de pensar como que seria se aquilo fosse a sério, com ela descarregando a fúria nas minhas costas e não numa rocha de areia e conchas!
Fizeram vários takes, experimentando algumas variantes — de roupas, posições, palavras e atitudes.
E, finalmente, chegou a minha vez...
No guião, eu não tinha dito se a personagem estaria muito ou pouco vestida, pelo que era a altura de decidir isso.
Resolveram, então, experimentar essas variantes em vários takes, e confesso que fiquei envergonhado quando chegou a altura de me despir completamente!
Por fim, posicionei-me, e eu mesmo fixei as extremidades da corrente nos pulsos.

Em seguida, e depois de mais alguns preparativos, Inês pôs a correr, perto de mim, o som as gravações da domme, devendo eu gritar e contorcer-me nos momentos correspondentes, com o realismo que pudesse conferir à cena – recorrendo, mais uma vez, aos duvidosos dotes do actor amador que eu fora, nos velhos tempos da Universidade.
Tudo isso foi demorado e, ao contrário do que eu pensara ao imaginar a cena, não me aparecia qualquer erecção!
No fundo, eu estava a viver aquilo de uma forma profissional, pelo que o erotismo - para minha grande surpresa - parecia estar ausente.
— Fui convincente? – perguntei, quando pensei que tudo terminara.
— Não sabemos. Só depois de ver como ficou. Mas por hoje, em termos de filmagens, é tudo. Podes vestir-te.
Elas começavam a sentir a necessidade de tomar um bom banho e de comer uma boa refeição, pelo que acolheram de bom grado a minha sugestão de irem à outra praia (onde há restaurantes e instalações sanitárias públicas), enquanto eu ficava a tomar conta das nossas coisas.

Chuveiros de água doce, de uso público, permanente e gratuito
No seu regresso, e quando já escurecia, chegou a altura de estudar o material filmado. A mesinha continuava aberta, e foi nela que o computador foi ligado e entregue aos cuidados da jovem técnica.
Eu aproximei-me, e fiquei a espreitar.
E só vos digo que vocês também se arrepiariam se vissem os encadeados que ela fez, alternado as chicotadas fictícias com os meus gritos e súplicas!
— Temos de acertar a sincronização – disse a jovem — Não estou a conseguir. Amanhã vamos experimentar o truque da seda.
«O truque da seda?!» — pensei eu. O que será isso? Mas não me atrevi a perguntar, tanto mais que a outra se limitou a comentar:
— Tens toda a razão. Podíamos — e devíamos — ter começado por aí, pois até temos tudo o que é preciso. Que burrice!
*
A meio da noite, quando, na medida do possível, me certifiquei de que elas estavam a dormir profundamente, escapuli-me para ir a casa. Tomaria um banho rápido mas retemperador, comeria qualquer coisa (que certamente encontraria no frigorífico), e voltaria sem que elas tivessem sequer suspeitado da minha ausência. Ah! E traria ainda um colchão de espuma, de dobrar, que esconderia bem no fundo da minha caverna, numa zona onde elas nunca se atreveriam a penetrar.
O meu carro tinha ficado estacionado ao cimo da falésia, e o caminho até lá via-se bem, pois ainda havia Lua cheia. Além de que, agora, eu tinha a minha lanterna que mantinha escondida, como um segredo necessário.

Escadas existentes no meio de um canavial que deu o nome à praia
*
Assim fiz, tudo correu bem, e menos de uma hora depois já eu estava na minha toca a dormir como um justo, no meu novo colchão, tendo assim o desconforto um pouco minorado.
..oOo..
De manhã, notei nelas alguma irritação e impaciência, porque o dia estava nublado e a chuva podia aparecer a qualquer momento, acarretando o problema da alteração da lumino-sidade ambiente, com as consequentes dificuldades no enca-dear das cenas.
— Vamos repetir só os últimos takes de ontem, com ele despido e usando a seda.
Continuando sem perceber nada do que seria a seda, dirigi-me para junto do rochedo e despi-me completamente; e não precisava de ter vergonha, pois elas quase nem olhavam para mim, limitando-se "ela" a fazer-me sinal para me posicionar, e colocar as algemas que tinha decidido passar a usar.
Assim fiz; e, intrigado mas sem abrir a boca, esperei.
A explicação do mistério da "seda" afinal era fácil:
O longo chicote fora acrescentado com uns 40 cm de cordão de seda, com a mesma aparência do resto; e eu, então, percebi tudo:
Tratava-se de concretizar uma cena mais realista, não havendo qualquer necessidade de posterior sincronização: a domme só precisaria de ter cuidado por forma a bater-me apenas com a seda, e eu só precisaria de ser convincente, gemendo, gritando, torcendo-me e suplicando no momento exacto de a sentir.
Mais tarde, os efeitos sonoros (correspondentes ao estalar de um chicote verdadeiro) completariam tudo.
*
E foi assim que foi feita a mais impressionante surra que até hoje se pode ver na internet!
Se contarem bem, verão (e ouvirão!) 50 terríveis chicotadas, acompanhadas de outros tantos gritos de "dor" que eu me esforcei por expressar.
Mas, e mesmo no fim de tudo, reparem que há uns quantos berros meus, bem mais convincentes do que todos os outros:
Foi quando a ponta de seda se desfez, e a Inês disse, desolada, que não havia outra para a substituir!
..oOo..
Esta foi apenas uma das muitas cenas que eu sugeri no guião que fiz.
A maioria não pôde ser realizada (adiante se saberá porquê), mas ainda foi possível ensaiar a inevitável cena da crucificação - e, essa, em várias versões:
Em todas elas havia 4 espigões (formando os vértices de um quadrado com cerca de 2 m de lado), e eu tinha umas tiras de couro amarradas nos pulsos e nos tornozelos que seriam fixa-das neles.
Havia, é claro, as inevitáveis cenas de chicote, mas que pode-riam ser filmadas separadamente.
Fizemos tudo isso numa única tarde, comigo vestido e despido,
de frente e de costas, deitado e de pé - numa barreira de terra, na areia e numas rochas.

A barreira, onde se vêem, assinalados a vermelho, os 4 pontos onde se cravaram as estacas para uma das várias cenas de crucificação.
*
E já tínhamos dado o trabalho por terminado, quando Inês chamou a atenção para uma outra possibilidade:
Talvez se lembrem de que, ao contar a cena do banho com "ela", falei na existência de umas rochas submersas onde era difícil manter-me em pé.
Pois bem; na maré baixa, elas ficam expostas, numa área muito plana e escorregadia.
Nesse momento, essas rochas estavam bem visíveis, e a jovem deu a ideia de se fazer, ali mesmo, mais uma crucificação.


Deitar-me de costas na rocha fria era coisa que não me estava a apetecer muito, mas tive de reconhecer que a ideia era muito interessante, até porque incluía uma possibilidade adicional: embora, nesse momento, a maré estivesse baixa e ainda a descer, no filme seria sugerido o oposto, com o sub ali aban-donado e em vias de ficar submerso.
Se fosse tudo bem feito, a cena valeria por si mesma, dis-pensando mais violência além do terror inerente à situação; e tínhamos à mão tudo o que era necessário, incluindo um berbequim portátil, com o qual eu mesmo fiz os 4 furos para fixar outros tantos espigões.
Depois, foi tudo muito rápido, e em poucos minutos eu já estava na posição requerida. Mas, para meu mal e para proveito do filme, tudo correu até "bem demais", pois uma onda inesperada apareceu de súbito, cobrindo-me comple-tamente e sufocando-me — para grande alegria de ambas, que assim tinham obtido o realismo pretendido!
*
E, no que respeita a cenas de praia, não houve muito mais que mereça aqui ser contado, pois o que imediatamente se seguiu, e durante muitas horas, foi apenas trabalho de computador de que eu estava afastado.
..oOo..
A meteorologia tinha-nos avisado de que vinha chuva a caminho, mas esse era um problema que já esperávamos, e as nuvens que já há algum tempo se acumulavam no céu não enganavam ninguém.
O problema é que, para fazer o que tínhamos estado a fazer, tinha sido preciso esperar pelo Outono, quando aquela praia está deserta - e isso pagava-se com dias curtos e com a chuva, afinal previsível.
Era preciso, pois, fazer um ponto da situação, dado que tinha ficado muito por filmar, e as cenas que eu protagonizara davam para pouco mais de 10 minutos.
No entanto, e enquanto o filme não avançava, o trabalho feito veio a ser rentabilizado sob a forma de pequenos vídeos colo-cados no Facebook e no YouTube, que ainda hoje são um grande sucesso apesar de não renderem um cêntimo aos seus autores...
Foi, pois, decidido arrumarmos tudo e sairmos dali no dia seguinte.
Sugeri, então, que fôssemos para minha casa, se não passar já essa noite, pelo menos no outro dia, até serem horas do comboio.
A ideia agradou-lhes.
..oOo..
Inês estava agora sozinha comigo, sentada no sofá da sala, enquanto Cabyria (continuarei a chamar-lhe assim...) fora fazer algumas compras e ao correio.
Estava diferente! Quase de um momento para o outro, aquela jovem desleixada e sem graça dera lugar a uma bonita mulher, e a forma como por vezes me olhava fazia-me crer que talvez eu tivesse alguma coisa a ver com isso.
Fosse como fosse, ali estava ela agora, sozinha comigo, sentada sobre os calcanhares, em cima do sofá da sala, com uma saia bem curta que pouco tapava...
— Posso fazer-lhe uma pergunta? — atirou-me ela, quando lhe servi a Coca-Cola que me pediu.
— Claro — respondi, curioso – Fale à vontade.
— Tanto você como ela têm muita actividade de BDSM. Não sei se ao vivo, na vida real; mas, pelo menos no Face, vocês os dois são imparáveis...
Assenti, com um sorriso. Talvez ela esperasse que eu adian-tasse alguma coisa, mas não o fiz, pelo que a forcei continuar:
— Ela aparece como domme e você como sub. Formam o par perfeito.
Interrompeu-se para beber um pouco, e eu aproveitei para a provocar:
— E você aparece como?
— Acho que como switch... — respondeu, pondo-se de pé e indo até à janela, evitando assim olhar-me de frente.
Vi que a embaraçara e resolvi forçar:
— Porque é que diz "acha"? Está metida nesse meio até ao pescoço, e não sabe?
Continuou sem se virar, e respondeu:
— Sinto-me como sub em relação a "ela", como já deve ter percebido. Mas também um pouco como domme. Só ultima-mente percebi isso, durante as nossas filmagens.
Continuava sem me encarar, e a voz alterara-se-lhe.
Estava manifestamente nervosa, mas também me estava a perturbar muito com essa confissão.
Eu andava louco com a outra mulher, embora o aspecto profissional do que fazíamos inibisse muito o erotismo possível. Além de que ela não se mostrava minimamente interessada em mim para além do trabalho.
E agora, quando eu menos esperava, aparecia-me aquela jovem estudante a dar a entender, claramente, que gostaria de fazer de domme comigo!
— Não dá, amiga. Não funciona. Você é nova demais para o que está a pensar.
Então, subitamente, virou-se para mim, muito vermelha, e explodiu:
— Quer saber quantos orgasmos tive enquanto vos filmava aos dois? Eu não sei, pois perdi-lhes a conta!
Fiquei sem fala enquanto ela, vendo a minha atrapalhação, recuperava, por sua vez, a presença de espírito, aproximando-se de mim até me tocar, e olhando-me fixamente nos olhos.
Ficámos calados durante muito tempo, como que hipnotizados, e eu sentia os seios dela a arfarem junto ao meu peito.
Nos filmes, é nessa altura que os pares se beijam. Mas aquilo não era um filme...
— Sabes o que eu quero? - perguntou ela, usando pela primeira vez o tratamento por "tu".
Sorri, apenas. Ela devia querer ir para a cama, e talvez desse tempo antes que a outra regressasse.
Mas não...
— Quero ver-te ajoelhar a meus pés. És capaz disso?
— Acho que sim... — respondi, já de cabeça perdida — Acho que sim...
— Ai achas?! Agora sou eu que pergunto o que é isso de achas!
Apercebi-me claramente do nervosismo dela; e isso inibiu-me, quando até já pensava em ceder, pois pareceu-me claro que aquilo que ela queria era mais um capricho do que uma verdadeira vontade de dominar.
Na dúvida, resolvi afastar-me, preparar um whisky para mim e sentar-me a olhar para ela.
Não direi que era lindíssima — de facto, era apenas bonita e bem feita —, mas ela também sabia que, no jogo que queria jogar comigo, isso não é o mais importante. O problema é que eu não estava muito interessado nesse jogo, enquanto que ela, possivelmente habituada a que lhe fizessem as vontades, se sentia perdida - de início, apenas corara, mas agora estava rubra de cólera!
Ah, mas isso eu também não queria!
Sim, e se ela resolvesse sair pela porta fora, como ficava tudo o que já tínhamos feito? E o muito que ainda faltava fazer? E como reagiria "a outra" se viesse a saber da história?
— Tem calma, Inês — agora era eu quem a tratava por tu — Prometo que vou pensar no que queres. Mas terás de com-preender que é difícil para mim... sou muito mais velho que tu, não é fácil fazer cenas de sub contigo!
— Custa-te assim tanto, é? Julgas que não sei que gostarias de rastejar aos pés de todas as mulheres deste mundo e do outro? Então o que falta em mim? Ah, já sei o que está a faltar!
E, correndo para as bagagens que tínhamos trazido para casa, abriu nervosamente um saco de viagem e, empunhando um curto chicote de 9 pontas que dele tirou, explodiu:
— Vamos, verme! Estás à espera de quê, para te prostrares a meus pés?!
Olhei para ela com mais atenção. Estava mesmo no centro da sala, em contraluz, afastara as pernas, tinha a mão esquerda na cintura e fazia oscilar o chicote, para a frente e para trás, amea-çadoramente.
A pose era clássica e copiada ao milímetro dos milhares de imagens que circulam na internet, mas nem por isso era menos perturbadora.
Aquilo parecia não ter saída fácil para mim, e eu tinha de a apaziguar de qualquer forma...
E Cabyria, que podia salvar a situação, interrompendo-a, nunca mais



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