"Os mais excitantes contos eróticos"


Ai, Luisinha, como és tão mazinha!-1


autor: Rosário
publicado em: 27/08/17
categoria: bdsm
leituras: 782
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Fonte: maior > menor


NOTA PRÉVIA: Esta história precede de vários anos o conto «Ai, Luisinha, que Vida a Nossa!» também aqui publicado.
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Sim, amigas. Parece mentira, mas houve um tempo em que não havia Facebook, nem Internet, nem computadores pessoais! E — acreditem — eu sou desse tempo... e sobrevivi!
De facto, a minha já longa carreira de cronista e escritor profissional começou nessa época, usando apenas uma esferográfica e alguns cadernos, de folhas brancas, que cabiam num bolso das calças.
Anotava, numa das páginas do fim, as ideias que me iam surgindo no dia-a-dia, e depois, com calma e num qualquer local sossegado, desenvolvia-as no resto do caderno.
Na realidade, não era uma caderno só; eram dois, semelhantes, presos um ao outro com um elástico largo, e que viajavam comigo para todo o lado:
No caderno de capa negra, escrevia os textos "normais", cujo tema era História de Arte; no outro, de capa vermelha, dava largas aos meus devaneios eróticos, relatando (sem esperanças de ter leitores e muito menos leitoras), experiências e fantasias, num misto de ficção, sonho e realidade.
Naturalmente, também, cada um deles tinha um destino diferente:
Os textos do primeiro, depois de revistos cuidadosamente, eram publicados nas últimas páginas de uma revista generalista de que adiante falarei. Esses, tendo em conta o seu público indiferenciado, eram redigidos em linguagem simples e acessível, mas sempre rigorosa, algo de que sempre me orgulho.
Os do outro caderno eram secretos, pelo que eram escritos, propositadamente, numa caligrafia ininteligível, que só eu conseguia ler, recheados de abreviaturas e símbolos indecifráveis. Nessa época, estava fora de questão a possibilidade de os divulgar (pelo menos nos ‘media’ a que eu tinha acesso), pelo que eles ali ficavam, uns a seguir aos outros, numa letra miudinha que escondia os meus desejos secretos e inconfessáveis, sob a forma de memórias, contos e novelas — umas vezes de pura ficção, outras vezes inspiradas em vivências reais.
Ora sucedeu um dia que, ao falar de Arte Pré-Histórica, me referi às estatuetas como aquela que aqui mostro, a que é costume chamar "Vénus", e que se supõe terem sido feitas como símbolos de fertilidade.

Fosse como fosse, o certo é que a foto suscitou um grande interesse pelo texto, e, à conta dele, a revista recebeu umas boas dezenas de cartas... e todas de mulheres!
E foram precisamente essas cartas que vieram a ter uma inesperada consequências na minha vida.
Seguidamente explico porquê...
*
Essa revista onde eu colaborava era apenas uma de entre muitas outras que havia nessa época. Vivia de mexericos, palavras-cruzadas, passatempos, curiosidades, moda, culinária, sugestões de livros e filmes, horóscopos, correio sentimental, etc.
A Directora, Editora e Proprietária era a minha velha amiga Luisinha, assessorada pela incansável D. Clarisse, uma quarentona que fazia de secretária, dactilógrafa, telefonista... e tudo o mais que fosse preciso para "aguentar o barco" (como ela dizia), cujo escritório funcionava numa sala dos fundos da velha casa onde ambas moravam.
Tudo aquilo (desde o trabalho até às instalações) tinha um aspecto de grande amadorismo, mas o certo é que funcionava, e as finanças da Revista (cujo nome vou ter de omitir, pelo menos para já) não iam mal de todo.
Para dizer a verdade, muito do seu sucesso se devia a mim, que pouco me preocupava com honorários. E se eu vos dissesse quem escrevia a Astrologia e o Correio Sentimental vocês iam rir-se. Sim, adivinharam: era eu quem tratava dessas partes, e se as pessoas soubessem como eram feitos os meus horóscopos nunca mais liam nenhum!
Ora vejam alguns exemplos:
. Esta semana tenha especial cuidado com a saúde. Evite fritos e doces.
. Atenção aos problemas com vizinhos!
. Cuidado com os familiares invejosos!
. Proteja-se do sol em excesso, não se esqueça do protector solar.
. Se é do Signo Peixes, evite carne este mês; se é Balança, dê atenção ao equilíbrio... financeiro.
. Nos dias ímpares deite-se cedo, e nos dias pares levante-se ao nascer do sol.
(...)
E por aí fora, numa infinidade de palpites e conselhos que davam sempre certo, tirados ao acaso de uma caixa de sapatos onde estavam — esses e muitos mais.
Quanto ao Correio Sentimental, que eu assinava como "Amiga Alice", também era feito na base de banalidades, até porque o teor das cartas que recebia era muito repetitivo, e eu arranjava sempre forma de intercalar frases como:
. Coragem, amiga! Não se deixe abater!
. Escolha os amigos com cuidado!
. Sossegue, que em breve viverá um grande amor!
. Não descure a sua aparência! Faça exercício!
(...)
E o mais curioso é que, na maior parte das vezes, eu dava as respostas quase sem ler as perguntas, chegando a baralhar conselhos sentimentais com os da minha Astrologia-da-treta...
Mas parece que as leitoras nem se apercebiam e ficavam felizes, pois — e isso é triste... — apenas queriam atenção.
Claro que, às vezes, lá aparecia uma leitora mais exigente que voltava a escrever, insistindo na questão mal respondida no mês anterior. Para essas, em vez de gastar um minuto, eu gastava dois ou três, mas tudo se resolvia.
Ah! E quando havia alguma pergunta mais delicada, bastava-me consultar a D. Clarisse. Meu Deus!, o que essa solteirona sabia! Com aqueles óculos pesados, as roupas antiquadas e aquele ar de ingénua... era grande entendida em vibradores, fetiches femininos, orgasmos múltiplos — e coisas assim, acerca das quais eu não era lá muito competente...
*
Mas volto ao assunto da Vénus Pré-Histórica porque esse artigo, que era para ser como qualquer outro, veio a ter muita importância na vida da revista... e não só!
Diga-se, antes de mais, que vocês não imaginam quantas mulheres sofrem com a obsessão de emagrecer! Portanto, quando eu escrevi que se pode ser muito atraente mesmo com uns quilitos a mais, fiz um grande sucesso, e só à conta disso a revista ganhou uma centena de novas assinantes!
E note-se que, nessa altura, ainda não se falava das BBW (a sigla de “Big Beautiful Women”) nem se conheciam os desenhos de Namio, que divinizam as gorduchas.

E até a D. Clarisse, que ultimamente andava a tomar uma porcaria de um chá para emagrecer, passou a olhar-me com carinho!
*
Mas o mais importante foi o facto de a Luisinha ter, a certa altura, decidido arriscar: depois de muita hesitação, comunicou-nos que achava que a Revista podia ser um pouco mais atrevida, um pouco mais “picante”, pois tornara-se óbvio que era isso que as leitoras queriam. Até aí, já eu tinha percebido há muito tempo. O “Correio Sentimental” e quase todas as “Cartas à Directora” mostravam uma obsessão por assuntos eróticos que tinha de ser tida em conta, e as reacções ao meu artigo sobre as Vénus Pré-Históricas eram todas de carácter semelhante.
Tudo bem; mas como fazer isso sem entrar na vulgaridade? Como “apimentar” a revista mantendo um aspecto sério?
— Tu é que podias tratar disso, na tua secção de “História de Arte”... — atirou-me ela, de súbito, pondo-me debaixo dos olhos um exemplar do livro “Erotica Universalis”.

E, sem me dar tempo a recuperar da surpresa, prosseguiu:
— Este livro foste tu que mo deste, quando andavas com ideias de ir comigo para a cama, lembras-te? — e riu-se do meu embaraço, dando-me uma amigável palmada no ombro!
Virou-me as costas, e eu notei que a D. Clarisse, que ouvira a conversa toda, se agitava na cadeira, suspendendo a dactilografia e mal contendo um riso nervoso.
— O que acha da ideia da nossa patroa? — perguntei-lhe, só pelo prazer de a ver corar.
— Vocês os dois é que sabem, que eu aqui não mando nada. Mas reconheço que pode ser uma boa ideia —respondeu ela, retomando o trabalho, depois de se ter recomposto.
*
Toda esta conversa decorria na sala a que já me referi, e que pomposamente apelidávamos de "escritório":
Como em todas as casas antigas, era bastante ampla e de grande pé-direito; tinha um chão de velhas pranchas de madeira encerada, uma porta alta envidraçada no cimo, e uma janela (sempre empenada) que dava para um pequeno quintal nas traseiras (onde apenas havia uma velha arrecadação de pedra) e, a um canto, uma bonita escada de caracol, em ferro forjado, que conduzia a um sótão onde eu nunca entrara.
Era evidente que Luisinha tinha gasto muito dinheiro e esforço para tornar toda aquela casa minimamente habitável, mas o resultado era mais do que satisfatório pois, segundo dizia, já não a trocava por qualquer outra, mesmo oferecida.
Quanto ao nosso trabalho, era essencialmente feito em três secretárias antigas, cada uma do seu estilo — se é que tinham algum!
A de Luisinha, desmesuradamente grande e pesada, era de carvalho enegrecido pelo tempo e polido pelo uso. A da D. Clarisse, embora mais pequena, era também imponente: preta, com torneados nos cantos e as competentes ferragens de latão oxidado.
Para mim, como só lá ia de vez em quando, havia apenas uma pequena mesa junto à janela, com uma modesta cadeira de assento de palhinha e um discreto armário ao lado, onde guardava as minhas coisas. Eu mesmo optara por essa simplicidade espartana, pois o essencial do meu trabalho era feito fora dali.
Quanto ao resto (cadeiras, tapetes, candeeiros, estantes e armários) não merecem qualquer referência especial, dada a sua vulgaridade.
*
Mas voltando ao que estava a contar:
Luisinha e eu encontrávamo-nos de pé, junto da secretária de D. Clarisse, que interrompera o trabalho para folhear, deliciada, o tal livro a que me referi.
Trata-se de uma obra gigantesca de arte erótica, com magníficas imagens, todas legendadas, que cobrem um período de milhares de anos, desde a Pré-História até à segunda metade do século XX — incluindo, claro, o Egipto Faraónico, a Grécia Antiga e a Roma Clássica.
A ideia de Luisinha era, pois, aproveitar a minha coluna de História de Arte para, discretamente, introduzir esse tema, que certamente iria ser um grande sucesso, a avaliar pelo interesse verdadeiramente alucinado com que a outra mirava e remirava os desenhos, onde sobressaíam falos enormes e vaginas escancaradas!
Mas isso, por muito interessante que fosse, acabava por ser um problema, pois estava fora de questão publicar aquelas imagens numa revista como a nossa e naquela época. E foi exactamente o que D. Clarisse comentou, fechando o livro, que afastou de si com um eloquente suspiro.
A ideia, em si mesma, era boa, apenas teria de a abordar de outra forma, recorrendo a imagens mais aceitáveis. No entanto, e como o tempo escasseava, resolvemos pensar melhor, deixar isso para o mês seguinte e publicar o meu texto sobre catedrais góticas.
Ah, amigas!, que erro o nosso!
As leitoras fieis, que, pelos vistos, tinham ficado excitadas com as Vénus Pré-Históricas, ansiavam agora por mais do mesmo, e um monte de "Cartas à Directora" dizia-nos isso, em todos os tons possíveis!
E foi D. Clarisse que deu a ideia que veio a ser a solução:
Abordar o tema — sempre actual — da "condição feminina", mas à luz da Arte, e com um toque elegante de erotismo, como eu tão bem sabia fazer.
De facto, nas cartas do "Correio Sentimental" (e em muitas outras que a toda a hora nos caíam em cima), não faltavam mulheres a queixarem-se dos maridos!
Algumas, mais ousadas, faziam considerações interessantes — e destaco algumas:
— Até quando teremos de ser esposas-escravas, sempre de perna aberta para eles e sem quaisquer direitos? Num outro contexto, eu até podia gostar. Mas junto uma fotografia do meu marido para vocês verem como isso é impossível!
— Este mês tivemos o Dia da Mulher, e o meu marido deu-me uma rosa. Eu atrevi-me a perguntar porque não me oferecia antes um chicote, para eu me vingar dos outros 364 dias. Para minha surpresa, ele respondeu-me que só não sabia onde o podia comprar!
E, também para nossa surpresa, estas duas cartas não eram as únicas em que se desvendavam desejos perversos (daquilo a que hoje se chama BDSM), pois muitas outras diziam o mesmo, embora em termos menos explícitos.
Decidimos, pois, explorar esse filão mas, dada a delicadeza do tema (e não nos esqueçamos que tudo isso se passou há muitos anos), o trabalho dividiu-se em várias fases. Foi assim:
Como atrás disse, eu tinha duas páginas no final da Revista, e a nossa ideia começou por ser dedicar uma delas ao tema da mulher-escrava, e a outra ao oposto. Sim, marido-escravo, como Severino era em relação a Wanda, em "A Vénus das Peles", que Leopold Masoch escreveu em 1870. Claro, porque não?
Mas o tema da mulher submissa tinha tanto que dizer, que resolvemos deixar o outro aspecto para o mês seguinte.
Mesmo assim, e como as páginas eram duas, decidimos que o texto também seria duplo:
Na da esquerda, e com um desenho documentando a clássica situação da mulher- escrava-do-lar, diziam-se algumas banalidades politicamente correctas.

Porém, na página da direita, ia-se mais longe, abordando o possível erotismo da situação dono/escrava — mas cuidadosamente, com muito mais perguntas do que respostas ou afirmações:
«Será que a situação de mulher-escrava-do-homem pode ser excitante? Por estranho que pareça, há mulheres que nos dizem que sim! O que acha você, leitora amiga?».

E, assim que a Revista foi para as bancas, ficámos à espera, ansiosamente, que chegasse o correio!
.
[CONTINUA]




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