"Os mais excitantes contos eróticos"


TERROR NO CANAVIAL-II


autor: Rosário
publicado em: 27/03/17
categoria: bdsm
leituras: 897
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Fonte: maior > menor


PARTE II
*
AO VER O COMBOIO afastar-se, levando consigo aquelas duas mulheres (a quem bastara um par de dias para alterar comple-tamente a minha vida), senti-me confuso, e um estranho pres-sentimento dizia-me que não as voltaria a ver. E nem mesmo o facto de terem deixado algumas coisas em minha casa me podia tranquilizar, pois quanto poderiam valer aqueles adereços — à parte um qualquer valor sentimental que eu nem sequer sabia se existia?
Comecei a andar, ao longo do cais, para trás e para a frente tentando acertar as ideias:
«Vamos lá pensar com a cabeça fria — disse para mim mesmo. — Sabes, ao menos, como se chama “ela”? E até a garota maluca... quem te garante que seja mesmo Inês?»
Não, nem mesmo isso eu sabia! Da única vez que me atrevera a perguntar-lho, “ela” respondera-me, rindo, que até era conhe-cida como A Mulher dos Sete Nomes.
— E enganam-se - acrescentou -, porque uso muito mais do que sete, e às vezes nem eu mesma sei qual é o verdadeiro! Podes chamar-me Cabyria ou Janzara, e se achares complicado podes chamar-me Helena, Ana, Olga ou Irene... Para ti, posso ser o que quiseres, menos Luisinha ou Lucrécia. Isso não, tenham dó!
Fiquei estupefacto! Então ela conhecia a história da minha amiga Luisinha, a pacata dona de casa que, depois do jantar, se transformava na sádica Domme Lucrécia? Como fora isso possível, se eu nunca a mostrara a ninguém, nem sequer à própria Luisinha?
Entrara alguma delas no meu computador? Como e quando?
Fiquei convencido de que sim ao notar o risinho da outra, que assistia à conversa. Na realidade, para uma jovem dos nossos tempos (ainda por cima entendida em informática, como ela era), isso devia ser uma brincadeira de crianças — e mais tarde, com alguma revolta mas sem grande espanto, vim a ter a confirmação disso mesmo.
*
Claro que havia muito mais coisas, para além dos seus nomes, que eu ignorava:
Onde moravam? Onde trabalhavam? O que faziam elas para ganhar a vida?
Mas agora apetecia-me andar, andar muito, pelo que deixei o carro ali na estação e fui a pé para casa. E, ao chegar e me ligar à internet, esperava-me uma surpresa arrasadora:
As duas páginas (pelo menos as que eu conhecia — a da Rainha Cabyria e a da Princesa Janzara) tinham sido bloqueadas pelo Facebook!
Escrevi-lhes de imediato (elas ainda iam no comboio, mas havia rede), mas respondeu-me que já sabia de tudo; e comentou, até bem humorada, que isso sucedera por minha causa, devido a imagens que afixara, e onde eu aparecia... de rabo à mostra!
E dizia mais:
— Mesmo que levantem o bloqueio, o projecto do filme fica comprometido. Já se sabe que é muito difícil ganhar dinheiro com o Facebook. Mas assim deixa de ser difícil para passar a ser impossível.
Numa SMS que veio logo a seguir, dizia:
¬— Apesar destes percalços todos, continuo a considerar que sabes o teu lugar perante a Rainha Cabyria, nomeadamente que os desejos dela são ordens para ti!
Fiquei confuso... Então o nosso BDSM não tinha acabado com a sua partida — sem retorno — e com o fim do filme?
Quereria ela manter uma relação de BDSM virtual, em que eu alinharia numa palhaçada com uma domme fake? Claro que isso era possível, mas, depois da intensidade do que passá-ramos ao vivo, isso não me satisfaria, saber-me-ia a pouco. Veríamos, pelo que me limitei a responder:
— Claro, Senhora; com certeza, Senhora; sem dúvida, Senhora!
— Estás a ser irónico, verme? - Foi a imediata resposta, denun-ciando um vivo desagrado.
De facto, até estava, mas disse-lhe que não, pedi-lhe perdão, e perguntei se ela tinha em vista algum desejo que eu pudesse satisfazer.
— Sim, tenho muitos desejos, que serão ordens para te dar — respondeu — Para já, quero que me ponhas em contacto com essa tua amiga Luisinha –, se é que ela existe mesmo, é claro. Dizes tu que ela quer fazer dinheiro alugando uma velha arrecadação, que vocês transformaram em estúdio para a prática do BDSM. Mas também dizes que ela não arranja quem o queira alugar. Ora sucede que eu tenho possibilidades de lhe dar a ganhar algum dinheiro, mas terei de conhecer essas instalações pessoalmente. Se é que tudo isso existe mesmo, é claro, e não é apenas mais um dos teus delírios sadoma-soquistas, de que já li vários!
Assustei-me deveras! De facto, eu já não me preocupava apenas com a intrusão de que o meu computador fora vítima. Agora preocupava-me também (e principalmente) com a minha querida e doce amiga Luisinha, que é uma pessoa bem real — pois só a segunda parte da história que eu escrevera (a fantasia da sala de torturas) é que era totalmente ficção.
Mas toda essa conversa decorria por SMS, e uma providencial falha de rede, no comboio, interrompeu-a, dando-me tempo para preparar uma resposta.
Felizmente, não foi preciso.
Quando voltámos a estar em contacto, já ela tinha esquecido esse assunto, e enviava-me a imagem que tinha provocado os bloqueios.
E lá aparecia eu, não apenas numa foto, mas num GIF animado, com a terrível Domme Cabyria, de máscara e túnica ao vento, a chicotear-me no tal rochedo. Ah!, e não apenas 50 vezes, mas sim interminavelmente, como é próprio dessas animações GIF, em que a mesma cena pode ser repetida até ao Dia do Juízo Final!
Como se lembram, tudo tinha sido concebido para ser simulado — inicialmente, com montagem de imagens, mas depois com a tal ponta de seda acrescentada no chicote de domadora. E certamente se recordam de que, a certa altura, essa ponta se desfez, tendo eu apanhado três chicotadas inesperadas, mas bem reais e dolorosas!
E fora com essas mesmas três chicotadas que a jovem Inês compusera um GIF animado que, afixado nas duas páginas, recolhera em pouco tempo centenas de likes — até aparecer a inevitável denúncia seguida de bloqueio.
— Não é uma delícia? – escreveu ela. — Vais agora ver outro aspecto da tua rainha. Viajamos em 1ª Classe, não há mais ninguém aqui na carruagem, e eu estou assim.
E juntava uma foto, tirada nesse mesmo momento, de cima para baixo, em que se via a sua saia de cabedal bem subida, e as suas magníficas coxas, em perna cruzada, bem expostas acima das botas.
— Queres melhor? — Perguntou, de seguida.
E, sem esperar resposta, mandou-me um pequeno vídeo em que ela se soerguia e tirava as cuecas pretas, acompanhado da pergunta «Já te começaste a masturbar? > Limitei-me a responder com outro “Rs” — ela que concluísse o que quisesse...
Logo em seguida, via-se uma mão (a de Inês, evidentemente) a acariciar-lhe os joelhos, e depois a mover-se por ali acima, sempre mais e mais, sábia e lentamente — tudo isso acom-panhado por risinhos que, pouco depois, davam lugar a gemidos mal contidos!
— Fica de joelhos, cachorro! — dizia ela, no auge da excitação. — Vês como, mesmo estando longe de ti, te posso torturar, e muito mais do que os ferros em brasa da tua Luisinha?
*
Acho que foi bom que, nessa altura, uma nova falha de rede interrompesse a ligação!
..oOo..
Depois de tudo isso, eu já estava completamente louco pelas duas, pelo que bastaria que qualquer delas me assobiasse como a um cachorro para eu deixar tudo, me meter no carro, e nem contar as horas até me rojar a seus pés!
Reparei, ao pensar assim, que eu já nem sequer fazia distinção entre uma e outra, e isso dava-me que pensar:
As minhas tendências, nesse capítulo de submissão, sempre me levariam para a mais velha (e agradou-me quando vim a saber que ela não era tão nova como ao princípio julguei), mas dei por mim a sentir uma estranha atracção pela jovem.
Acho que sei explicar o que se passou:
Enquanto a mais velha era uma domme sabida e experiente, Inês estava a despontar para essa realidade — e eu ajudara-a, fora o seu "gatilho", e isso era algo que só podia dar-me muito prazer.
Como sub que ela também era (em relação à outra), Inês sabia bem o que eu sentia e o que poderia fazer comigo — supondo, é claro, que o meu prazer a poderia preocupar.
E, enquanto Cabyria se satisfazia com um domínio simples e directo (sem grandes fantasias para além do sábio uso dos chicotes), a outra, estranhamente, parecia mais requintada — fruto, porventura, de recalcamentos e frustrações de adoles-cente.
E eu sabia bem como esses condicionalismos psicológicos podiam criar situações incontroláveis e até gerar monstros. Mas — ah! — como poderia ser delicioso estar nas mãos de uma louca assim!
Ora, nessa mesma noite, quando eu escolhia, de entre os adereços-fetiche da Rainha, qual havia de usar para me excitar, encontrei um tal Livro Secreto, que eu já conhecia.
Trata-se de um livro de um sadismo terrível, difícil de ler até por uma pessoa como eu, habituada a essas coisas e a outras semelhantes.
Só por si, a presença de um livro como esse, entre as coisas de uma domme, não seria estranha. Mas já era perturbador o facto de ter partes sublinhadas (e logo as mais fortes!) e outras anotadas com smileys (☺), denunciadoras de prazer sádico por parte de quem o lera — certamente Cabyria.
Pois... Mas agora imagine-se como eu fiquei quando, ao ler alguns apontamentos de filmagem (numas folhas manuscritas esquecidas), constatei, pela caligrafia, que esse Livro (e em xerox) pertencia, afinal, à mais jovem!
Ah! E o que, pelos vistos, a excitara mais, nem sequer haviam sido as cenas em que a domme do Livro se "entretém" com as suas 7 escravas, mas sim as inconcebíveis cenas em que o "verme" (é assim que o sub aparece sempre referido) é tortu-rado!
Então eram essas as fantasias secretas daquela falsa ingénua?
E fantasias recentes, e comigo!, como ela praticamente confes-sara?
Era claro, agora, que não se esquecera ali do Livro, mas que o deixara de propósito, bem à vista, para que eu o encontrasse!
E também não fora por acaso que quando, na sala, ela correra a buscar um chicote, escolhera, de entre tantos possíveis, o cat o’ nine tails, tal como no início do Livro!
Embora extremamente perturbado, resolvi nada lhe dizer nos tempos mais próximos, e estudar bem aquela pérola, uma verdadeira "8ª preciosidade"...
*
Algum tempo depois, e após vários dias de silêncio que podiam estar relacionados com os bloqueios do Facebook, Cabyria (e terei de continuar a referir-me a "ela" assim...) escreveu-me.
Começou por querer saber até que ponto era real a minha amiga Luisinha.
Disse-lhe que sim, que era bem real.
Depois, quis saber se ela era mesmo domme, ou só o era de vez em quando.
Eu disse-lhe a verdade: que o era só de vez em quando, como na história, e muito soft.
Em seguida, interrogou-me acerca da arrecadação de granito (que no conto é convertida em câmara de torturas), onde Luisinha, na pele de Domme Lucrécia, se diverte comigo da forma que lá descrevo.
Mas, quando cheguei aí, tive de a desiludir:
Tal como o quintal, a arrecadação existe mesmo (é até como a descrevo, sem tirar nem pôr), mas continua a ser o que sempre foi: um depósito de velharias e um paraíso de ratos.
Na realidade, eu e Luisinha mantemos uma relação muito casta! Ela quase nem deixa que eu lhe toque (quanto mais beijar!), e o facto de se saber desejada parece que a satisfaz plenamente, como digo na 1ª parte da história.
Fazemos as nossas brincadeiras de BDSM, mas de uma forma muito especial, em que o desejo insatisfeito é mais forte do que o prazer realizado. Sim, ela também me tantaliza, e ambos adoramos isso!
Perguntei então, a Cabyria, porque é que se interessava tanto pela eventualidade de ser verdade a 2ª parte do conto.
— Mas achas que é preciso explicar? Se fosse verdade que tu e essa tua amiga idiota tivessem construído, no quintal dela, uma verdadeira câmara de torturas, isso não era uma maravilha? Não falo já em alugá-la para me divertir lá, contigo e com a Inês (claro que isso seria feito). Refiro-me à possibilidade de fazermos uma série de pequenos vídeos, como o outro da praia. Poderíamos até arranjar um papel para a tua amiga. E adivinha quem seria o actor principal...
A ideia era muito interessante e mais ainda excitante! Mas eu agora morava no Algarve, a mais de 300 km dessas mulheres todas.
Bem... Mas também é verdade que uma viagem dessas se faz depressa. Então, porque não?
*
E, nessa mesma noite, enquanto eu contemplava o tal GIF animado (tendo, ao pé de mim, o chicote verdadeiro e a foto "dela"), a minha cabeça fervilhava de ideias e projectos.
Não é verdade que a chave do BDSM é ser consensual? E não era igualmente verdade que eu e elas queríamos as mesmas coisas?
Então, pelos vistos, estava na hora de eu e a Luisinha termos uma conversa muito, muito séria!
*
Mas depois de pensar melhor, e passado um primeiro entusiasmo erótico, achei que não devia misturar a minha velha amiga com aquelas duas desconhecidas. Deveriam conti-nuar a ser mundos separados, e, se calhar, eu até já tinha ido longe de mais.
— Tens de ser castigado, imbecil! - comentou Cabyria quando eu lhe disse isso. Andaste a criar-me ilusões, e afinal a parte mais importante dessa história é tudo fantasia!
Não percebi bem o que ela queria dizer nem fazer, mas esclareceu-me depressa:
— Eu sei perfeitamente que tu e a minha serva têm andado muito íntimos. Ela já foi castigada por isso, e agora é a tua vez, e vais ser punido exemplarmente!
"Hummm... Já começou a sério o nosso BDSM virtual, e vem aí o primeiro castigo - pensei eu, deliciado. - Já estava a demorar! O que irá sair daquela cabecinha?
Não demorou muito a resposta e, de facto, foi um castigo longo e inventivo, como eles devem ser.
Antes de mais, ela comunicou-me que ordenara à jovem Inês que inventasse, ela, um bom castigo para me aplicar.
E assim foi. A mocinha esmerou-se, e começou por me mandar meter no carro e ir até à praia do Canavial.
Assim que lá cheguei, ordenou-me que fosse para ao pé da famigerada rocha junto ao mar.
Assim fiz.
Mandou-me então pôr de joelhos e que me masturbasse (relembrado a cena do chicoteamento que ali decorrera, mas sem me chegar a vir), devendo avisá-la quando sentisse que o orgasmo estava próximo.
Como já se percebeu, tudo isso foi feito por telemóvel, por voz, sendo óbvio que ao pé dela estava a outra — até porque eu ouvia risos abafados e curtos comentários feitos em surdina.
Por fim, chegou a altura em que tive de a avisar de que já não podia continuar...
Ela riu-se, e disse:
— Até agora, só tiveste prazer, embora incompleto. Chegou então a hora do teu verdadeiro castigo. Vais fazer o que te vou ordenar, mandando-me fotos (ou vídeos) comprovativos de que obedeceste.
Fiquei um pouco receoso, mas limitei-me a esperar.
— Despe-te...
Acho que já esperava isso. Assim fiz, e tirei uma selfie, que lhe enviei.
— Isso, menino bonito, muito bem... Mas as cuecas também são para sair...
Apesar de, naquela praia, aparecerem muitos nudistas, olhei em volta para me certificar que não havia ninguém — e em seguida tirei o que faltava tirar e mandei-lhe outra selfie.
Ela riu-se, ao ver a minha erecção, e deu a ordem que eu já receava:
— Agora vai ao banho!
Fiquei siderado! Além de eu ser muito friorento, a água estava gelada!
— Vamos, verme! Se fosse fácil, não era castigo! Quero depois um vídeo que te mostre encharcado e a tremer! Repara que eu tive a gentileza de te fazer excitar para que não te custasse tanto!
Nessa altura, Cabyria, que estava ao lado dela, tirou-lhe o telefone da mão e informou-me:
— A Inês teve de interromper a conversa... Imaginas porquê, não? Se tu estás excitado, então imagina como estamos nós!
— Posso vir-me, Senhora? – perguntei então, enlouquecido de desejo, reforçado pelo que eu imaginava que as duas estavam a fazer.
Mas a resposta dela foi uma gargalhada.
— A minha vontade era dizer-te que não, mas como é que eu posso saber que serei obedecida se te proibir o orgasmo?
— Senhora — disse eu, gaguejando – Sabe bem que eu nunca iria desobedecer-lhe!
— Hummm... Como bom sub que és, estás a adorar ser castigado pela tua dona... e queres mais... Adivinhei, verme?
— Sim, minha Senhora, é isso...
— Então, pede, verme! Suplica-me que te castigue! E de joelhos, cachorro! Vamos, quero ouvir! Estás a excitar-me, cretino! Vá, capacho, humilha-te para eu me vir!
Assim fiz (já não sei em que termos), e receei que ela se risse, mas não.
— Vem-te agora, porco nojento! Autorizo-te! Ordeno-te!
Agradeci, louco de prazer; e julgo que esse foi o orgasmo mais forte que tive até então, deixando-me em seguida cair na areia, desfalecido, onde deixei cair o telemóvel...
*
Estive assim muito tempo, sem saber o que pensar e muito menos o que fazer. Depois vesti-me, ainda completamente molhado e agora sujo de areia, e voltei para casa, onde enchi a banheira com água bem quente e me deixei ficar, de olhos fechados, sentindo-me como que num sonho — recapitulando tudo, tudo... até ao mais ínfimo pormenor.
*
A minha vida acabava, certamente, de entrar numa nova fase, e nem o facto de eu estar tão longe delas parecia ser muito importante.
Talvez até a distância funcionasse como um excitante. O tempo, como sempre, se encarregaria de me esclarecer...
..oOo..
Depois de tudo o que acabei de contar, seguiu-se um longo período de silêncio. Eu gostaria de lhes escrever (ou mesmo telefonar), mas uma das ordens mais explícitas que “ela” me dera consistia na proibição de o fazer. Também nisso a iniciativa partiria delas, e eu não tive outro remédio senão aceitar.
*
Entretanto, preocupava-me em extremo saber que me tinham invadido o computador, onde toda a minha vida privada estava exposta detalhadamente — pelo menos desde que comprara um novo, e já lá ia um bom par de anos.
Fiz, então, o que habitualmente se faz nessas circunstâncias (instalação de firewall, actualização do antivírus, etc.), mas não fiz mais do que dar razão ao velho ditado Casa roubada, trancas na porta.
Depois, e nesse mesmo dia, resolvi gastar umas horas a rever as minhas coisas, tentando descobrir o que poderia ser mais comprometedor.
Ah!, e assuntos não faltavam: eram fotos, textos, vídeos, e-mails... Mas havia algo que me preocupava acima de tudo:
Como atrás se percebeu, “ela” tinha ficado visivelmente interessada (e muito excitada, também) com a segunda parte da história em que eu fantasiava cenas de tortura na arrecadação existente nas traseiras da casa da minha amiga Luisinha.
Eu dissera-lhe que muito da história era real, mas que outras coisas não — e explicara o que era verdade e o que era fantasia.
Mas ela lera o texto, e achava-o tão realista que desconfiava que o que eu dizia não era bem assim.
— Sei muito bem que tu és louco — dissera-me ela —, e essa tua amiga também deve ser. Portanto, não me admirava nada que fosse verdade aquilo que agora me queres convencer que é apenas fantasia. Eu não gosto de ser enganada (muito menos por um verme) e estou disposta a descobrir o que há de verdade nessa história.
Aqui chegados, e para que se possa perceber o que ela queria dizer (e aquilatar da possível lógica disso), vejo que o melhor é intercalar o texto em causa, em que alterei as partes que poderiam identificar pessoas e locais. Mesmo assim, receio bem que esses cuidados, no que toca a elas, já não vão a tempo.
Paciência... Também já não posso estar nas mãos delas mais do que já estou!





«Ai, Luisinha, que vida a nossa!»

No divertido livro A Tia Júlia e o Escrevedor, a personagem a quem Vargas Llosa atribuiu esse nome escreve novelas rádio-fónicas que, como muitos ainda se lembram, precederam, com não menos sucesso, as actuais telenovelas. Ora, esse “escrevedor”, além de fazer várias histórias ao mesmo tempo (o que, no fim, tem consequências extremamente diver-tidas — quando as confunde todas), usava um artifício para melhor encarnar as personagens: na medida do possível, mascarava-se como elas durante a redacção dos textos: punha e tirava perucas e óculos, vestia e despia roupas diversas, etc.
Como se verá, é a esse mesmo artifício que a minha amiga Luisinha recorre quando quer encarnar a estranha personagem de Lucrécia, em que se transforma todos os dias, depois do jantar. Vamos, então, à história.
*
IMAGINE-SE a cara com que eu fiquei quando, ao tocar à porta da minha boa amiga Luisinha, ela me veio abrir... mascarada de domme! Sim, apareceu-me toda de negro, exactamente como se vê na foto seguinte, que a inspirou!

— Que é isso!? — perguntei eu, estupefacto — Então agora recebes assim os velhos amigos, Luisinha?!
— Luisinha, não! Domme Lucrécia, se fazes favor!
Ora, como ela disse isso sem se rir, um de nós dois não devia estar bom da cabeça, pelo que era necessário haver uma explicação... e bem depressa!
E ela deu-ma. Mas, antes, levou-me para a sala de estar e, quando me viu confortavelmente instalado, ofereceu-me um brandy e sentou-se a meu lado.
Na nossa frente, bem visível, estava um computador ligado à internet e, pelos insistentes olhares dela para o monitor, percebi que a explicação do mistério passava por ali.
Mas vamos a uma coisa de cada vez.
— Estás bem sentado? — perguntou-me ela. — Espero que sim, pois o que vais ouvir pode ser uma grande surpresa para ti.
*
O que sucedera estava relacionado com a monotonia da sua vida, com os dias sempre iguais, com a ausência de objectivos e até mesmo com o afastamento de muitos amigos e familiares, devido a uma recente mudança de residência — e, como veremos a seu tempo, a nova casa era importante em tudo o que se estava a passar.
Ora, alguns dias antes, numa altura em que eu a vira mais triste e abatida, resolvera abrir-lhe algumas janelas para o mundo, e convencera-a a ligar-se à internet.
E foi assim que, literalmente de uma hora para a outra, Luisinha começou a navegar no ciberespaço, a descobrir inúmeras coisas novas que a interessavam, a ligar-se às redes sociais e a encontrar velhas amizades.
E, daí, foi um pequeno salto até cair a pés juntos no mundo do erotismo.
Ah!, e isso não foi por acaso, não!
Tal como eu sabia muito bem, ela era uma mulher bem fogosa, sem complexos de qualquer espécie e com uma sexualidade bem activa. Nesse aspecto, ela bem sabia como eu a desejava, o que muito a divertia, não me deixando, no entanto, que lhe tocasse nem com um dedo!
— Depois do jantar, eu sou a Domme Lucrécia — disse-me ela, rindo, e apontando para o computador!
— Sou a cruel Lucrécia, a rainha das dominadoras do Facebook, a Domme mais sádica que por aí se vê! — deu uma sono-ra gargalhada e prosseguiu:
— Já quase perdi a conta aos meus subs. Sabes o que isso é? Subs são submissos, escravos (virtuais, no meu caso). São os meus "vermes", e são já tantos que tive até de os numerar. Olha, está agora online o "Verme n.º 10". Espera só um bocadinho, vou despachá-lo, não demoro nada.
E Luisinha levantou-se do sofá, sentou-se ao computador, e desatou a teclar como se nunca tivesse feito outra coisa na vida!
Eu estava de boca aberta, e não a interrompi. Mas estiquei o pescoço e tentei ver o que se passava.
Ela notou a minha indiscrição mas, longe de se zangar, puxou uma outra cadeira para mim e fez-me sentar ao pé dela.
Confesso que fiquei perturbado... E motivos não faltavam!
Antes de mais, eu tinha ali mesmo ao lado o seu par de pernas magnífico, com umas botas extremamente eróticas — para já não falar em tudo o resto, que sempre me excitara. E — mais ainda! — sem nunca lhe ter confessado, eu fantasiava há muito tempo uma relação de dominação/submissão com ela.
E, afinal, ali estava a minha querida amiga, a encenar com outros — desconhecidos e certamente fakes — aquilo que eu sempre sonhara que fizéssemos os dois!
Confesso, para minha vergonha, que senti ciúmes...
Como disse, ela estava então a braços com um idiota que queria ser punido – sabe-se lá porquê...
Luisinha (ou antes 'Lucrécia', pois era nessa qualidade que ela agora ali estava) virou-se para mim e comentou:
— Hummm... Que punição lhe hei-de dar?
— Sei lá! Respondi eu com maus modos. Diz-lhe que vá ver se está a trovejar!
— A trovejar? Porquê a trovejar?
— Para ver se vem um raio que o parta!
Ela riu-se, e abriu um curioso ficheiro em Word intitulado "Punições", onde tinha anotada uma razoável quantidade de coisas e coisinhas que constituíam os "castigos" que dava aqueles palhaços!
Escolheu um ao acaso ("Põe-te de quatro e ladra 20 vezes") e, com copy/paste, respondeu ao indivíduo com isso!
E quando, pouco depois, começou a ler "Au-au...", riu-se, desligou o computador, virou-se para mim e perguntou:
— Então, meu querido, o que achas disto?
— Eu não acho nada — respondi — Cada um vive a vida à sua maneira, e se isso te diverte, fazes bem.
E levantei-me, preparando-me para me despedir, amuado, mas já com uma perversa ideia a germinar-me no cérebro...
Luisinha procurou reter-me. Olhava-me com um ar estranho, interrogativo, tentando perscrutar o que me ia na alma.
Talvez o conseguisse, percebendo como eu ansiava por lhe confessar a minha vontade de ser seu escravo — não virtual (como aqueles idiotas que eu vira), mas bem real, 24h por dia, e 7 dias por semana!
Mas o certo é que eu tinha vergonha de lho dizer, e ela também não estava à-vontade comigo acerca desse assunto.
E foi assim — pensativa e intrigada — que me acompanhou à porta e nos separámos com dois beijos na face.
*
Quem leu o que atrás contei e acompanha as redes sociais, decerto terá pensado o mesmo que eu.
A solução estava ali, debaixo dos meus olhos, no computador do meu quarto onde pouco depois eu me encontrava.
Não é preciso dizer mais nada, pois não?
Poucos minutos depois, já eu tinha criado três perfis falsos (fakes, como se diz na gíria).
Sim, nada menos do que três!
Num deles, eu era o "Cachorrinho Submisso" (e a imagem de perfil era a que aqui se vê), influenciado pelas botas com que ela me aparecera.

O meu perfil de Cachorrinho Submisso
Noutro, eu era o "Dominador solitário", um machão em tronco nu, com as cuecas a verem-se e com um cinto na mão, pronto a zurzir as meninas e senhoras de meia-idade excitadas com As 50 Sombras de Grey.

O meu perfil de Dominador Solitário
*
No terceiro perfil, eu era uma bela donzela, com ar sonhador, dando pelo suave nome de "Gatinha Carente", debruçada sobre uma tigelinha de leite e a olhar languidamente para o fotógrafo.

O meu perfil de Gatinha Carente
*
Já adivinharam:
Com esses três perfis, que cobriam as principais hipóteses, eu iria pedir amizade à minha Domme Lucrécia... e depois logo se veria o que fazer.
Perguntarão os leitores, certamente, qual o motivo do segundo perfil pois, sendo eu aquilo a que se chama um 'sub', que lógica tinha apresentar-me como 'Dominador'?
Havia duas respostas para isso: a primeira é que eu já vira que Lucrécia também aceitava 'Doms' entre as suas amizades — sim, cheguei a contar 35, muitos deles com imagens de perfil repetidas!
A segunda é mais rebuscada.
Eu explico: já perto do fim do romance A Vénus das Peles (a obra-prima de Leopold Sacher Masoch), Wanda, o paradigma da mulher sádica e cruel, troca o seu simpático escravo Severino por um grego dominador! Quem sabe se, no fundo, não era também isso o que a minha Luisinha desejava? Nada como experimentar... Veríamos.
*
Mas voltemos ao assunto.
Como a minha amiga não era ingénua e muito menos idiota, naturalmente esperava que eu fizesse isso mesmo — que a abordasse a coberto de um perfil falso.
Portanto, dei "algumas voltas" antes de lhe aparecer à frente com pedidos de amizade mais do que suspeitos.
Comecei, então, por ir à lista de amigos dela e pedi amizades a torto e a direito — Doms, dommes e subs de ambos os sexos (e mesmo de sexo indefinido e saltitante) abarrotavam a breve trecho a minha colecção de "amigos comuns", onde não falta-vam chulos, prostitutos, travestis, exibicionistas... e tudo o mais que torna variado e interessantíssimo este mundo em que nós vivemos.
Claro que arranjei umas imagens para encher (muitas orações e ainda mais passarinhos), com que dei conteúdo aos meus perfis, mas vim a saber, depois, que fora tempo perdido, pois neste mundo do Facebook (onde não há tempo para nada) ninguém se preocupa muito com isso, nem sequer vai espreitar o que temos nas nossas páginas antes de aceitar as amizades.
E então, ao quarto dia, lancei o isco, sob a forma de três pedidos de amizade, espaçados de algumas horas.
*
O que se seguiu teve aspectos previsíveis e outros inesperados.
Os primeiros consistiram na aceitação, quase imediata, dos três pedidos de amizade.
Quanto aos outros, estão relacionados com a sua reacção.
Eu explico:
Como disse, Luisinha só se transformava em Domme Lucrécia depois de jantar, e por isso só dedicava algumas horas por dia a esse seu excitante hobby.
Ora, como tinha milhares de amigos, só prestava verdadeira atenção a uma dezena ou duas, pelo que eu iria ter de lutar pela sua atenção, fazendo qualquer coisa para sobressair da mediania.
Pareceu-me, então, que uma boa forma seria provocá-la, em-bora moderadamente e de uma forma inteligente.
*
Para se perceber o que eu então fiz, é preciso voltar um pouco atrás e dizer que, quando ela se transformava em domme, se fazia rodear, como O escrevedor do romance de Vargas Llosa, de toda a parafernália sadomasoquista que tinha à mão, para encarnar melhor a personagem em que se transformava. E, entre os inevitáveis chicotes, cavalos-marinhos, algemas e mordaças, figuravam as obras escolhidas de Sade e de Masoch.
Reparei, também, que o livro que ela tinha mais à mão era precisamente A Vénus das Peles, de que já falei - e muito bem, pois é uma verdadeira bíblia do Femdom.
E isso vinha bem a propósito, pois a minha ideia consistia em chamar a sua atenção, mostrando-lhe que tinha em mim um interlocutor ao seu nível.
Mas eu não podia usar essa táctica com as minhas três per-sonagens. Qual dos meus três perfis eu devia escolher, então, para o "assalto"?
Resolvi jogar tudo por tudo e provocá-la.
Isso era arriscado mas, certamente, iria chamar a sua atenção!
E assim foi!
Escolhi alguns trechos do tal livro (as partes em que a dominadora Wanda mostra o seu lado submisso) e mandei-lhos, a partir do meu perfil de "Dominador Solitário", e sem quaisquer comentários!
O resultado não se fez esperar, sob a forma de uma explosão de cólera, materializada numa torrente de palavras!
"Ah" — pensei eu, sorrindo, enquanto lia as suas invectivas — "Estamos no bom caminho!".
Eu tinha, pois, conquistado a atenção dela, o que, como se sabe, é o principal objectivo de um sub quando se depara com uma Domme que lhe interessa, e que tem mais “amigos” do que ideias na cabeça.
E isso foi de tal forma assim, que eu pude dar-me ao luxo de não lhe responder logo, como se tivesse mais que fazer do que perder tempo com uma Domme como ela!
Passava pouco das 9 h da noite do dia seguinte quando recebi mais uma mensagem sua, também ressumando ódio!
Era sinal, pois, que fora a primeira coisa que fizera nessa noite.
Armado em duro, não lhe respondi logo.
Ao fim de algum tempo, sem pressas, mandei-lhe então uma curta mensagem em que constava uma gravura de uma velha câmara de torturas... E esperei a reacção.
Não tardou muito, e a sua resposta foi assim:
"Reles réptil! O que me enviaste foi uma gravura e não uma fotografia. Quer isso dizer que não faz parte da realidade em que vives. Em troca, mando-te outra foto, com a diferença de que esta é REAL. Sim, leste bem. Esta é a minha câmara de torturas real, onde levo os meus escravos para os punir, para os obrigar a confessar qualquer coisa, ou apenas para me divertir. Pobre de ti, se algum dia te vejo acorrentado a esta parede!"
Fiquei de boca aberta pois, para meu espanto, Luisinha juntara uma imagem perturbadora: uma fotografia onde se via um troço de parede rústica. Numa das pedras (aparentemente de granito toscamente talhado) estava cravada uma grande argola de ferro, de onde pendia uma corrente enferrujada.
Não se via mais nada, e se calhar também não havia mais nada para ver!
Ainda não eram 10h da noite e, não aguentando mais a curiosidade, resolvi arriscar tudo por tudo... e aparecer em casa dela.
*
Nessa altura, não morávamos muito longe um do outro, e é claro que já não estranhei quando ela me abriu a porta envergando roupas de domme – estava na hora de ser Domme Lucrécia!
Desta vez, porém, trazia umas calças e um corpete de cabedal negro, justíssimos, mostrando (e até valorizando) o seu corpo maduro e perfeito.
Trazia os longos cabelos negros apanhados em rabo-de-cavalo, e alguns adereços de prata (como pulseiras, argolas, anéis e colares) tinham sido bem escolhidos, por forma a provocar um contraste ideal com a roupa.
Estava vermelha de cólera e extremamente agitada, e eu bem sabia porquê!
— Entra e senta-te, que tenho uma coisa espantosa para te contar!
E, não escondendo um enorme nervosismo, narrou-me deta-lhadamente aquilo que eu sabia melhor do que ninguém!
Por momentos, pareceu-me que olhava para mim com um ar estranho, como que tentando ler no fundo da minha alma, desconfiada...
Mas, depois, sentando-se ao computador, mostrou-me toda a sequência dos diálogos que mantivera — comigo... — pouco antes.
E comentou:
— Ah, se eu um dia apanho este estafermo a jeito!...
— O que é que lhe fazes? — perguntei eu, sorrindo, mas, no fundo, bem nervoso.
— Ainda não sei... Mas terei tempo de inventar para ele torturas novas e nunca aplicadas!
E voltou novamente o olhar para o monitor, esperando, em vão, que o seu "Dominador Solitário" voltasse a dar sinais de vida...
Apontei então para a última imagem (a da parede com argola) e perguntei-lhe onde era aquilo.
Notei algum embaraço da sua parte, mas acabou por responder:
— É da minha arrecadação do quintal, que cheguei a pensar transformar em garagem; mas como acabei por não comprar carro, continua a ser apenas uma arrecadação igual a todas.
Luisinha já me tinha falado nela, mas não ma mostrara, nem eu me interessara. No entanto, agora tudo era diferente, pelo que estremeci quando ela disse:
— Imagino que vais querer vê-la. Vamos lá, então.
*
Atravessámos a casa e, pela porta da cozinha que dava para as traseiras, acedemos a um pequeno quintal. Já era noite, e ela acendeu uma luz que pouco iluminava, mas tive de reconhecer que essa fraca luminosidade, só por si, já era perturbante.
A poucos metros de nós estava, semioculta por uma laranjeira e um limoeiro, uma velha construção em granito, coberta com hera entrelaçada de rosas bravas, ainda em bom estado de conservação, apesar de o telhado, em telha-vã, certamente deixar entrar a chuva.
A pesada porta, de carvalho negro, estava apenas no trinco, e eu não teria estranhado se rangesse.
Luisinha entrou à minha frente para acender a luz e, depois de o ter feito, eu pude ver aquilo que já imaginava: um amon-toado de coisas que todas as pessoas guardam sem saberem muito bem porquê: caixotes, garrafas, vasos, uma bicicleta ferrugenta, tijolos, revistas velhas...
Ah! E ali, perto da entrada, duas enormes argolas chumbadas na parede.
— Deve ter sido para amarrar os cavalos, pois isto é do tempo em que as pessoas tinham carruagens — comentou.
A corrente que eu vira na foto estava ali mesmo, caída no chão, mas eu nada disse.
— O que achas? — perguntou-me ela — Não se fazia aqui uma coisa bonita? Olha, repara que há ali ao fundo uma pequena divisão...
A luz era fraca e mortiça e eu não a tinha visto. Era apenas um cubículo minúsculo, com pouco mais de 1 metro de lado, mas mesmo assim tinha uma porta, embora a cair de podre.
— Talvez fosse para guardar os arreios ou a palha para os cavalos. Não se sabe. O que eu sei é que se podia fazer lá uma cela...
— Estás a falar a sério? — perguntei. — Uma cela para presos? Mas ouve lá: tudo isto é mesmo a sério?!
— Nunca falei tanto a sério na minha vida, meu querido. Não imaginas a quantidade de gente que anda no BDSM e que está disposta a pagar um dinheirão para alugar uma coisa destas. Depois de bem preparada, claro!
Pensando bem, ela tinha razão.
E se eu tivesse dúvidas de que ela queria mesmo levar aquilo a sério, o que em seguida disse dissipá-las-ia:
— Antes de mais, vamos tirar daqui o lixo todo.
"Vamos?!" — interroguei-me eu. "Pelos vistos, ela está a contar com a minha ajuda para esta maluquice! Mas tudo bem... Vamos lá ver no que dá...".
E deixei-a continuar:
— Depois, tratamos de meter uma boa iluminação.
— Uns archotes medievais, evidentemente... — aventei eu, procurando ser engraçado.
— Sim, claro, uns quatro ou cinco, mas serão dos verdadeiros, com resina, não quero aqui nada de electricidades. Até já sei onde os comprar. O mais difícil ainda vai ser a cruz de Santo André, a canga e o cavalete. Essas coisas podem encomendar-se, mas eu não quero dar nas vistas nem tenho dinheiro para isso. Achas que serás capaz de os fazer?
— Porquê eu?! Não tens entre os teus escravos-da-treta quem saiba fazer isso?
— Talvez tenha, sim — respondeu-me ela. — Mas para já eu não quero meter aqui estranhos. Esses amigos virtuais raramente são quem dizem ser.
— Então quando começamos? — limitei-me a dizer.
— Amanhã mesmo. Traz as tuas ferramentas e não te esqueças de uma extensão para ligar à tomada da cozinha. Eu estarei sempre aqui para te ajudar...
*
No dia seguinte, muito cedo, apresentei-me na casa dela, pronto para trabalhar e envergando uma roupa velha.
Luisinha, por sua vez, tinha uma bata vestida, com sapatos rasos e sem vestígios de pintura nem de adereços, pelo que não havia uma ponta de erotismo no seu aspecto.
"Ah, como as mulheres se modificam conforme se arranjam!" — pensei.
Eu tinha trazido o carro, que estacionara o mais perto possível do quintal, na rua das traseiras.
Bem... Como quase toda a gente já fez limpezas e arrumações, não vou aqui descrever em detalhe o que fizemos, que ainda demorou um bom par de dias, com pequenos intervalos para comermos alguma coisa, que eu mesmo ia comprar ali perto. Finalmente, ficou um trabalho bem feito!
*
Entretanto, ela e eu tínhamos esquecido completamente o tal "Dominador Solitário", e à hora a que ela costumava ligar-se à internet (e transformar-se em Domme Lucrécia) estávamos agora a carregar coisas, a varrer, limpar, lavar e aspirar.
Depois, seguiu-se a montagem dos archotes (que ela, entre-tanto, fora comprar), o arranjo das portas e a reparação de uma pequena janela gradeada que dava para o quintal, e cujos ferros estavam a desfazer-se com a ferrugem.
O cansaço e o esforço físico permanente quase faziam com que eu me esquecesse do essencial:
Estávamos ali, eu e ela, a preparar uma instalação para a prática de um BDSM bem forte - mas para outros, que não eu! Como seria, depois, na prática?
Ela fazia contas e mais contas, sempre partindo do princípio de que iria alugar aquilo e ganhar muito dinheiro. Eu não a queria desanimar, mas, no fundo, não tinha essas ilusões: com os seus contactos restringidos apenas ao Facebook, não seria fácil aparecer ninguém, a menos que ela se integrasse, também, na comunidade — mais ou menos secreta (ou, pelo menos, fechada) — dos praticantes de BDSM.
Mas eu alimentava outras ideias, bem mais egoístas:
Como já se percebeu, desde que a conhecera (e já lá ia um bom par de anos), eu tinha a fantasia de praticar com ela tudo isso.
Num desses dias, num momento de maior excitação, eu confessara-lho, e ela, como se fosse a coisa mais natural do mundo, olhara-me seriamente nos olhos e perguntara-me, sem desligar o aspirador;
— Querias, então, ser meu escravo, é isso?
Já que ela punha a questão em termos tão claros, só me restava fazer o mesmo, e respondi, baixando os olhos:
— Sim...
— Sim, o quê? Não entendo meias frases! — intimou-me.
— Sim, minha Senhora, quero ser o seu humilde escravo... — respondi, com a voz a tremer.
— Um escravo 24 horas por dia, 7 dias por semana? — quis ela ainda saber, enquanto desligava o aparelho.
E foi aí que eu hesitei, e foi com essa hesitação que estraguei tudo.
Eu tinha a minha vida privada e particular, bem longe do BDSM. Apenas poderia praticá-lo de vez em quando, e isso não a satisfazia.
— Prefiro continuar a não ter escravos do que ter um em part-time. Se não te importas, esse é um assunto de que não voltamos a falar... A menos que mudes de opinião, evi-dentemente — e retomou os trabalhos de limpeza, como se não se tivesse passado nem dito nada!
E agora ali estava eu, a dar os últimos retoques numa robusta cruz em X, acabada de forrar com napa preta e toda cravejada de pregos dourados, que eu mesmo fora comprar!
Tínhamos já combinado deixar para mais tarde a canga e o cavalete, que seriam caros e trabalhosos de fazer.
Tal como aquilo estava a ficar, já era suficientemente bom para — a acreditar nas ilusões de Luisinha — ganhar algum dinhei-ro.
Para compensar a redução dos equipamentos, eu tinha aproveitado um grande espigão (que havia no tecto) para lá fixar uma roldana que, completada com uma grossa corda de cânhamo e um forte gancho, constituía um artefacto de aspecto bem medieval.
E foi essa minha invenção que veio alterar tudo.
*
Foi assim:
Eu preparei isso sob a forma de uma surpresa, e montei o conjunto, em breves minutos, numa altura em que ela se ausentara.
Ficou encantada, quando voltou!
Era um dia de muito calor; ali dentro abafava-se, e eu traba-lhava em tronco nu.
Luisinha aproximou-se e mostrou-me umas algemas que tinha comprado. Eram pequenas, e pareciam de brincar. Pediu-me para eu as experimentar, e acedi.
O que eu fui fazer! De repente, e sem que eu ainda hoje saiba como tal sucedeu, dei por mim com os braços esticados bem acima da cabeça! Luisinha desviara a minha atenção para qualquer outra coisa e, aproveitando uns segundos de distracção, fixara o gancho nas algemas que eu tinha posto e, com uma rapidez assombrosa, pegara no outro extremo da corda e puxara-o.
Sim, puxara-o e fixara essa outra ponta da corda numa das argolas da parede!
— O que é isto, Luisinha? Mas que brincadeira é esta? Estou a ficar com dores nos pulsos!
Mas ela apenas se riu e, para minha surpresa, saiu porta-fora!
Percebi tudo rapidamente, e, se dúvidas houvesse, o regresso dela tirar-mas-ia!
*
Agora na pele de Domme Lucrécia (depois de me ter feito esperar quase uma hora!) Luisinha transformara-se comple-tamente, não só de aspecto como em termos psicológicos!
Era outra pessoa que ali estava!
— Estás bem, réptil? Espero que sim, pois vamos ter uma conversinha...
Eu não me encontrava em condições de dizer nada; nem queria, pois, de certa forma, também estava em vias de poder concretizar o meu velho sonho erótico! Devia, pois, estar feliz, se não fossem as algemas que se me cravavam dolorosamente nos pulsos — pelo que lhe pedi que, ao menos, as aliviasse. Mas acho que nem me ouviu e, antes pelo contrário, puxou ainda mais a corda, obrigando-me a ficar em bicos de pés e aumentando as minhas dores!
Depois, sem uma palavra, desapertou-me as calças, que baixou juntamente com as cuecas, e passou ambas sob os meus pés, fazendo com que, pela primeira vez, eu ficasse nu na frente dela!
Luisinha (aliás, agora, Domme Lucrécia!), então, fez-me rodo-piar um pouco (o que pareceu diverti-la bastante), e pegou num chicote longo, que tinha comprado sem eu saber.
— Estas coisas precisam de espaço... Aqui não há muito, mas deve ser o suficiente. Estou ansiosa por experimentar, meu querido!
Afastou-se então para um extremo da sala, fez estalar o chicote como uma domadora, e não demorou muito até que eu o sentisse nos rins — uma vez, e outra e outra...!
Doeu, doeu muito, e eu não estava suficientemente excitado para que a dor fosse sentida como prazer.
Ela observava discretamente o meu sexo, em busca de sinais de erecção, mas não se viam nenhuns!
— Estás muito insensível, meu lindo! Nem parece que andas há anos a desejar isto! Então? Não dizes nada? Descansa, que eu te farei falar!
— Por favor, Senhora — disse eu, recorrendo a termos apropriados para a situação — Porque está a fazer isto comigo?
— Não te estou a fazer nada... Garanto-te que nem sequer comecei! Mas acho que tens o direito de saber o motivo por que te vou torturar.
Não era difícil de adivinhar!
Desde que eu começara a vir para casa dela, o tal "Dominador Solitário" desaparecera, e ela limitara-se a “somar dois mais dois”, se é que não o fizera antes!
— Tenho então aqui, nas minhas mãos, o terrível dominador de mulheres! Ah, que delicia! E vais ficar ainda mais borrado de medo quando souberes o que ainda te espera!
Fez-me então rodopiar mais uma vez, virando-me de frente para uma coisa terrível: um velho braseiro de ferro forjado, cujo carvão tratou de acender!
Apesar de estar bem seco, não foi fácil, mas ela parecia tirar um prazer especial nessa demora e nessa dificuldade pelo que, se eu esperava que desistisse, só mostrava que não a conhecia.
Por fim, quando o carvão já estava bem aceso, colocou sobre uma tosca mesa que ali havia uns quantos ferros semelhantes, que apenas diferiam na sua extremidade – eram letras diversas...
— Já percebeste que te vou marcar, não é verdade? Vai ser com um D e um L, obviamente, e uma letra em cada nádega...
— Está louca?! — berrei eu quando a vi escolher esses dois ferros e metê-los no lume!
Fiz esforços desesperados para me soltar, mas tudo em vão!
— Não haverá nada que eu possa fazer para o evitar? — disse eu, em pânico, soluçando pela primeira vez.
— Não estou a ver o que possas fazer, réptil... Suplicar? Gritar? Mas isso não me vai demover, e até vai ser música para os meus ouvidos! E tanto, que nem te vou amordaçar! Aliás, quero que saibas que desde o início da tua brincadeira que eu sabia a verdade. Limitei-me a dar-te corda e a fazer-te vir aqui, preparar a tua própria câmara de torturas, onde tenciono divertir-me longamente contigo. Vais ficar aqui preso muito tempo. Vou trazer-te pão e água e farás as necessidades ali naquele buraco do canto, onde passa o esgoto. Vais dormir num monte de palha que farei o favor de te trazer... se te portares bem. De contrário, dormirás no chão, que é bem saudável.
— Até quando será isso, Senhora? — perguntei eu, horro-rizado, quando por fim me compenetrei de que ela falava a sério.
— Até eu me fartar de brincar contigo... — foi a resposta.
Entretanto, os ferros continuavam no carvão, e ela, por vezes, avivava as brasas com um pequeno fole! Preparei-me para o pior.
— Como te disse, não te vou amordaçar, porque quero ter um bom orgasmo com os teus gritos. E quanto mais gritares, mais saboroso ele vai ser. Quero que saibas que, desde que descobri a tua brincadeira, me tenho masturbado todas as noites a imaginar as torturas que te vou aplicar. Sim, meu lindo, vais saboreá-las todas, e não te vou poupar a nenhuma. Serão lentas, requintadas, deliciosas... Não sonhavas tu ser meu escravo? Então anima-te, réptil, que já és!
Puxou então para si um pequeno tripé de madeira, onde se sentou com as pernas bem afastadas, e em seguida fez-me dar mais meia volta, colocando-me de costas para ela e para o braseiro.
— Temos de esperar que isto aqueça bem, meu lindo. É a única forma de as letras ficarem bem nítidas.
Então, sem pressas, afastou bem as minhas nádegas e, sem ligar às minhas súplicas, informou-me que estava a procurar o sítio melhor para a marcação.
— Vai ser aqui — disse ela, roçando uma unha bem perto do meu ânus. Vai doer um pouco mais, mas tem a vantagem de que não se fica a ver nada. E se um dia casares, a tua mulher nem vai ver, e muito menos perguntar o que significam o D e o L...
Eu já só queria que ela acabasse depressa. Mas isso era não a conhecer! Aproximou o ferro do D da minha pele, fez-me sentir o calor (sem me tocar), e depois afastou-o, voltado a metê-lo no meio das brasas.
Em seguida fez uma pausa, e eu percebi, pelos seus gemidos, que se estava a masturbar! Ela tinha dito que queria ter um orgasmo com os meus gritos e, pelos vistos, já não faltava muito!
Por fim, e quase ao mesmo tempo que explodia de gozo, aplicou-me o ferro em brasa, com desnecessária fúria.
Desmaiei. Por capricho, fez demorar bastante a segunda mar-cação, também ela acompanhada de orgasmo seu e de desmaio meu.
A certa altura, supliquei que me desse água. Não ma negou, até porque precisava de mim bem consciente para poder saborear tudo o mais que queria fazer.
Pouco depois, eu disse que precisava de urinar. Riu-se, e disse-me que fizesse pelas pernas abaixo... Não consegui logo, mas mais tarde assim fiz, extremamente envergonhado.
Para me limpar, ela atirou-me um balde de água gelada, o que a divertiu bastante!
Por fim, já cansada, aliviou ligeiramente a corda, permitindo-me colocar os pés no chão e baixar um pouco os braços.
Depois, para meu grande terror, deu-me as boas noites, apagou o único archote que estava aceso e saiu, fechando a pesada porta de carvalho atrás de si!
E foi assim que passei a noite mais desconfortável da minha vida, mas que foi apenas um aperitivo (como ela disse) para o inferno que me esperava dai para a frente — naquela sala... e não só.
*
Iniciara-se, assim, a minha vida como fiel adorador de Luisinha (de dia), e como simples escravo de Domme Lucrécia (de noite)!
[FIM da história da Luisinha]
..oOo..
O que acabaram de ler é, como se percebe pelo que atrás disse, uma mistura de realidade e ficção, em que eu fantasiei, para mim mesmo, algumas loucuras que gostaria de ter feito com essa minha amiga mas que, na realidade, nunca fiz.
Ora, mesmo tirando essas partes mais fortes e irreais, o que fica ainda é bastante perturbador: uma mulher madura, muito bonita e com instintos de domme perfeitamente adaptados à minha condição de submisso. E não faltaram, ao longo dos anos, situações de BDSM — embora ligeiro — que vivemos intensamente e sem o divulgar a ninguém, como desde sempre tínhamos acordado tacitamente.
De facto, não têm conta as vezes que lhe lavei a loiça, aspirei a casa, passei roupa a ferro, fui às compras e até cozinhei — e sei lá que mais!, dando sempre a isso uma conotação de BDSM, pelo menos da minha parte.
E ela, embora sempre moderadamente, entrava no jogo, dando-me ordens, reclamando contra a qualidade do seu servo, ameaçando-me com castigos... e coisas assim.
Mas também não ia muito mais longe do que isso, pois essas punições, quando as havia, eram apenas coisas como exigir que a levasse a jantar fora, ou que lhe fosse comprar um ramo de rosas vermelhas.
E isso irritava-me, pois eu suspeitava que ela alimentava fantasias muito mais duras, bem compatíveis com as minhas, e mais do que uma vez a havia surpreendido a ver sites de dommes — e alguns de sadismo forte. E até soube, por acaso, que ela trocava mensagens de teor BDSM com diversos estafermos, de cujo teor nunca me deu conta senão em termos muito vagos.
O certo é que, como vivemos sempre em casas separadas (por exigência dela, nunca juntámos os trapinhos), eu nunca soube até que ponto se envolvia nesse estranho mundo do BDSM virtual quando não estávamos juntos — e, se calhar, foi melhor assim, e Luisinha parecia feliz.
..oOo..
Ora, um dia, ela pediu-me que lhe desapertasse um colar cujo fecho parecia preso. Estava linda, tinha posto umas gotas de Chanel 5 e eu demorei-me demasiado tempo a contemplar-lhe os braços, os ombros, o pescoço e o cabelo, sedoso e negro.
Ela apercebeu-se do meus fascínio e de início gostou, mas por fim impacientou-se.
— Mas que servo eu arranjei! — comentou, meio a sério, meio a brincar.
A referência ao servo excitou-me ainda mais, e eu perdi a cabeça e beijei-lhe um ombro — mas delicadamente, num misto de ternura, de amor e de erotismo.
O que eu fui fazer!
Em completo despropósito pudico virou-se, furiosa, e aplicou-me o mais terrível par de bofetadas que alguma vez pensei apanhar! E, com a brusquidão dos nossos movimentos, a corrente do colar partiu-se junto ao fecho. E, como se fosse pouco, a pedra do anel que ela tinha provocou-me uma ferida junto à boca, de onde comecei a sangrar.
Caindo em si, ficou preocupada e sem saber o que fazer... e eu dei-lhe a resposta:
Peguei-lhe delicadamente na mão com que me esbofeteara e beijei-lha, com devoção, demorando-me também no anel. Ela continuava sem saber o que fazer nem o que dizer. Por fim, num tom intimista, acariciou-me o cabelo e sussurrou:
— Então é isso que tu queres de mim...
Não lhe respondi por palavras. Limitei-me a ajoelhar, a cingir-lhe as pernas ao nível dos joelhos (que beijei como louco), e a soluçar, de vergonha e desejo: «Sim, minha dona, Sim!».
*
Pode achar-se que essa cena foi forte, mas também é verdade que nunca fomos mais longe do que isso. Nada de chicotes, nem de cintos — e muito menos de torturas, como eu tanto precisava e um dia lhe confessei.
— Torturas? Que horror! Eu era lá capaz disso! — comentou, para meu desgosto.
*
E foi essa incompletude que fez com que eu não lamentasse exageradamente quando a vida nos separou: obrigações profissionais empurraram-me para Lagos, no Algarve, enquanto que ela ficou em Lisboa — porventura com mais tempo para se dedicar às suas amizades virtuais, aquela bizarra panóplia de subs, DOMs e switches, que talvez lhe dessem o que eu nunca lhe poderia dar.
Continuávamos em contacto, evidentemente (mesmo quando Cabyria e Inês já se apossavam da minha vida), mas o nosso relacionamento, agora com a separação, era “oscilante”: tão depressa era de amizade pura e ingénua, como de quente erotismo — embora, quando ele enveredava pelo BDSM, sempre muito moderado.
*
Até que um dia tive uma surpresa, sob a forma de um telefo-nema:
— Lembras-te do colar que me estragaste?
— Sem dúvida! — respondi — E lembro-me bem do que se se-guiu...
— Claro, foi inesquecível. Dei-te um bom par de bofetadas, e se não tivesses deitado sangue terias levado muitas mais!
Eu não percebi logo onde ela queria chegar, por isso calei-me e esperei.
— Há aí em Lagos uma feira onde se vendem colares desses. Vou mandar-te uma fotografia e vais lá comprar um. Claro que o mais certo é que não encontres igual, mas apenas parecido. Se assim for, tiras fotografias e mandas-me, de lá, para eu ver.
Pareceu-me lógico o que ela queria, e isso nada tinha de castigo, como cheguei a pensar.
Só que... Ah!, essa ida à feira não foi tão simples como eu pensava!
*
Como digo, o que me intrigava era ela falar nisso em termos de ser um castigo por eu lhe ter estragado o colar — até porque, nesse dia, eu tinha-o levado para casa e composto em poucos minutos.
Assim sendo, aquilo que ela chamava castigo era apenas uma brincadeira de BDSM ligeiro, tão ao seu gosto.
Pouco depois, e curioso para saber o que ela queria ao certo fazer, eu já estava em busca de um colar igual. Mas — pensava eu — , supondo que eu o encontrasse, para que lhe serviriam dois colares gémeos?
De qualquer forma, pouco depois já eu estava a enviar-lhe fotos atrás de fotos, de colares semelhantes — nenhum dos quais a satisfazia.
Claro que essa situação (fazendo-me correr de tenda em tenda) era a punição que me aplicava, e eu sorria de tanta inge-nuidade, comparada com os requintes das outras duas mulhe-res.
Mas, a certa altura, ocorreu um milagre que me deliciou:
Encontrei um colar exactamente igual ao pretendido!
Agora quem se ria era eu, pela inutilidade de ela ficar com dois iguais — o que, evidentemente, não queria, apesar de dizer o contrário!
Então, numa fúria contida, perguntou:
— E será que esse colar fica bem?
— Claro! — respondi eu, divertido — Fica bem de certeza! É igualzinho ao outro, e até já o comprei.
— Ah sim? Quem te autorizou?! Então quero ver como fica... mas a ti!
Fiquei gelado. Pôr eu o colar ao pescoço, ali na frente de tanta gente?! Não falta quem goste das humilhações públicas, mas não contem comigo para isso! E foi o que lhe respondi, seca-mente.
Mas ela retorquiu:
— Também não é isso o que eu quero de ti. Deixo isso para aquelas dommes — coitadinhas —, que precisam de exibir os seus subs como troféus. Apenas quero que te humilhes perante mim. Arranja aí um pretexto qualquer, pede por exemplo à feirante cigana para entrar na tenda dela e tirar a foto, como te ordenei. E só voltes a contactar-me depois disso feito.
E cortou a ligação!





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