"Os mais excitantes contos eróticos"


TERROR NO CANAVIAL - III


autor: Rosário
publicado em: 27/03/17
categoria: bdsm
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NOTA prévia: TERROR NO CANAVIAL é uma sequência de histórias ligadas entre si pela personagem da Domme Cabyria, proprietária de uma Revista mensal dedicada ao BDSM/Femdom, que me encomenda regularmente reportagens e entrevistas exclusivas.

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— Costumas ir à Feira Popular? — perguntou-me D. Hermínia quando, finalmente, consegui falar com ela.
Respondi-lhe que não, mas que tinha saudades da montanha-russa, do algodão-doce e dos carrinhos de choque — e também dela, claro, que já não via há... sei lá quantos anos!
— Então calha mesmo bem, filho. Encontramo-nos lá hoje, e vamos comer uma churrascada com vinho carrascão ao Abílio dos Frangos, enquanto damos à língua e matamos saudades. Olha, meu querido, não tem nada que enganar: é entre a montanha-russa e a roda-gigante. Sabes onde é a Cigana Mandala? Quando lá chegares, vês logo, que tem um letreiro por cima. Encontramo-nos à porta dessa aldrabona.
Eu lembrava-me que, ali, havia de facto uma Cigana (real ou suposta), que lia a sina em troca de uns tostões. Na realidade, o que ela fazia era ler uns papéis (que tirava ao acaso de uma caixa de sapatos), todos eles augurando felicidades, viagens maravilhosas e grandes amores. Mas isso só interessava como ponto de encontro, pois certamente a nossa conversa decorreria durante o jantar, no restaurante ali ao lado.
Mas, quanto a isso, eu enganava-me redondamente, pois Hermínia recusou — uma após outra — todas as minhas aproximações ao assunto que ali me levara.
E eu só não dava por perdido o tempo e o dinheiro porque já tinha saudades daquele ambiente e – porque não dizê-lo? – daquela mulher com quem, tantos anos antes, tivera a minha primeira experiência de BDSM ao vivo.
Por fim, e depois da sobremesa e do café – e sem esquecer o anis de que ela tanto gostava — levantou-se.
— Vamos, então, à nossa conversinha? Sabes que vais ter de pagar, não sabes?
— Vamos aonde? Então a nossa conversa não é aqui? E pagar... Quanto?!
Sorriu, não me respondeu, vestiu o casaco e pegou-me no braço.
— Descansa, filho, que não te vou arruinar. Mas se a tua patroa quer ganhar dinheiro (a vender uma revista com as minhas histórias), é justo que eu ganhe mais do que um jantar de frango assado, não achas?
Tive de anuir, e deixei-me levar.
Imaginem então a minha surpresa quando, ao chegarmos junto a uma negra porta, ela abriu a bolsinha, de onde tirou uma grande chave com que a abriu.
Adivinharam. Era a porta do chamado Gabinete Esotérico da Cigana Mandala (!!), com teias de aranha desenhadas e encimada pelo respectivo nome... Tudo rodeado de estrelinhas douradas a cintilar com LED multicores!
Fez-me entrar, fechou a porta atrás de nós, e acendeu as luzes.
— Ó D. Hermínia, a Senhora agora trabalha com a Cigana Mandala? – perguntei eu, estupefacto, olhando em volta.
— Não, meu querido. Eu não trabalho COM a Cigana Mandala. EU SOU a Cigana Mandala, aquela que lê o passado, revela o presente e adivinha o futuro, como se lê no cartaz ali fora – e deu uma enorme gargalhada que se deve ter ouvido na rua.
— Olha, filho, a começar pelo teu passado, posso dizer que sei muito. E quanto ao teu presente, também já sei algumas coisas. Sei, pelo menos, que agora trabalhas para uma revista dessa tal Cabyria (ou lá como se chama essa vaca). Diz-me uma coisa: és escravo dela, como em tempos foste meu? Ou és só o cachorrinho de estimação?
Ela notou o meu esforço para mudar de conversa e riu-se, piscando o olho.
A sala era minúscula. Havia uma pequena mesa redonda, coberta com uma toalha vermelha que ia até ao chão, e em cima uma grande bola de cristal.
De um lado e outro havia cadeiras: uma era imponente (com braços e espaldar, forrada a cabedal negro, pregueado), onde ela se sentava. Outra, mais baixa, para o cliente – que, neste caso, era eu.
Sem me dar aso a fazer perguntas, D. Hermínia acendeu umas luzes e apagou outras, criando um ambiente misterioso e perturbador, com predomínio dos vermelhos e dos azuis.
A toda a volta, as paredes estavam cobertas de pano negro, com muitas estrelas e luas — umas douradas, outras prateadas, mas todas cintilantes.
Rindo-se, ela disse-me que me sentasse e esperasse um pouco.
Foi então atrás de um biombo e, quando voltou, estava irreconhecível:
Tinha posto uma longa peruca avermelhada, um turbante na cabeça e uma túnica roxa sobre os ombros, que lhe ia até aos pés!
Como ela se ria do meu espanto, o ambiente era ligeiro, mas deu para perceber perfeitamente como tudo aquilo podia ser perturbador para pessoas mais emocionáveis e sensíveis.
Já sentada, passou então as palmas das mãos por cima da bola-de-cristal, como que a acariciando, e, sempre rindo, fez saltar inúmeras faíscas no seu interior — ao mesmo tempo que pronunciava palavras estranhas, da família do velho Abra-cadabra!
Por fim, recostou-se na cadeira, tirou o turbante, a capa e a peruca («Está muito calor para esta merda!» - comentou) e, cruzando os braços em cima da mesinha, disse:
— Depois deste teatro todo, vamos então lá à nossa conversinha. O preço que te vai custar é o que lá fora está anunciado: é 1 euro por minuto, e tens de mim todo o tempo que quiseres.
Abri a carteira e, sem mais comentários, coloquei na frente dela uma nota de 20€, que se apressou a guardar no seio, satisfeita.
— Só tens isso? Estás pobrezinho, filho. Mas vá lá; queres então saber uma boa história para essa revista. Tenho muitas, como imaginas. Mas preciso de saber se queres histórias dos velhos tempos (de quando eu era dominadora profissional) ou de agora, como cigana.
Mas Hermínia nem me deixou responder!
— Olha, sabes que mais? Talvez te possa oferecer um verdadeiro 2 em 1. Puxa lá do teu bloco de apontamentos e vai tomando nota.
E aqui vai o que ela me contou:
*
«Nos bons velhos tempos, em que tu ias lá à minha casa da Rua Ferreira Lapa, a maioria dos clientes apenas queria sexo normal.
Nessa época, como te lembras, eu era uma verdadeira Senhora, belíssima, com longos cabelos pintados de louro, e tinha um guarda-roupa que vos punha malucos. Da primeira vez, mandava-vos deitar na cama, todos nus, e saía do quarto. Pouco depois, aparecia, majestosa, de saltos altos e com um grande casaco de peles que um velhinho me deu antes de esticar o pernil. Chegava ao pé da cama, despia-o e atirava-o para cima de vocês. Por baixo, trazia roupa interior preta, de rendas, e aqueles cintos porta-ligas como dantes se usava. Descalçava-me, punha um pé em cima da cama, e tirava uma meia de nylon, lentamente. Primeiro a direita (para me dar sorte), e depois a esquerda. Fazia tudo isso sem dizer uma palavra, sequer.
Vocês ficavam doidos, e assim que entravam dentro de mim, vinham-se logo.
Normalmente, eu esfolava dois ou três cabritos por noite. A 200 escudos cada (nessa altura ainda não havia euros), chegava e sobrava. Alguns queriam uma segunda queca, e a esses só levava 100».
*
Ela não precisava de me contar nada disso (pois eu lembrava-me bem de tudo), mas via-se que tinha um prazer grande em recordar os velhos tempos em que, de facto, fora uma mulher espampanante.
Deixei-a, pois, falar, e não a interrompi.
O nosso acordo era que ela me contasse uma qualquer história interessante, para a revista de Cabyria, e ela sabia isso. Portanto — pensava eu — lá chegaríamos...
.
«Pois é. Numa altura em que eu já tinha 43 ou 44 anos, apareceu-me um cliente jovem, de 20 e poucos anos, que andava na tropa. Da primeira vez, e tal como os outros, não aguentou nada. Ao fim de 10 minutos estava pronto para ir embora. Mas pediu-me outra fodinha, e assim foi. Passou então a ser um cliente fiel, e todas as semanas lá arranjava os 200 escuditos para vir ter comigo.
Um dia, ele pediu-me para lhe contar algumas coisas mais esquisitas que eu fizesse com clientes.
Falei-lhe de um que me lambia a rata quando eu estava com o período, de outros que me pediam para lhes mijar em cima, e de um outro que queria que lhe desse umas lambadas na tromba para se vir.
Ora, quando eu lhe contei isso, ele respondeu-me que queria experimentar. Entrou dentro de mim, e eu avisei-o de que o ia esbofetear com força, e que depois não se queixasse.
Ele aceitou, é claro, e até quase se veio só de me ouvir isso!
Desatei a dar-lhas, e ao fim de seis ou sete bofetadas, bem dadas, já ele se estava a desengomar. Mas nessa altura já era eu que estava a achar graça, e não parei! Ele até já pedia para eu não lhe bater mais, quase que chorava, e queria sair de cima de mim!
Mas aí fui eu que não quis!
Como te recordas, eu era uma mulherona, e apesar de já não ser muito nova era bem mais forte do que ele. Agarrei-o então com força, virei-o, e pu-lo por baixo de mim. Sentei-me na barriga dele e dei-lhe tantas, tantas, que nem imaginas.
E então passou-se uma coisa engraçada:
Vocês, os homens, julgam que a gente tem prazer naquilo que faz. Mas é mentira, é tudo teatro para vos agradar. Mas olha, filho, acredites ou não, nesse dia foi diferente, e acabei por me vir enquanto espancava o rapazito e me esfregava nele. Andámos desencontrados, pois quando eu lhe saí de cima é que vi que ele estava entesado outra vez!
Só que nessa profissão não há borlas, e se ele queria outra tinha de pagar. A tabela eram 100 mil reis, e se ele não vinha prevenido, o problema era dele. E, de facto, nesse dia ele não trazia dinheiro. Se fosse hoje, eu tinha-o posto a lavar a loiça e a varrer a casa, por conta disso, mas na altura eu não me lembrei dessa.
Eu então disse-lhe que, se ele estava com os tomates muito cheios, fosse à casa-de-banho bater uma, que eu até lhe emprestava umas cuecas minhas para ajudar. Mas ele disse que preferia ir a casa buscar dinheiro.
Queres saber o resto da história?»
*
E, dizendo isso, pegou na ampulheta, mostrando que o tempo da entrevista se tinha esgotado.
Depois, recostou-se na cadeira, cobriu a bola de cristal com um pano de veludo negro salpicado de estrelinhas prateadas e disse-me:
— Pois é, filho, mas hoje não levas mais nada. Diz lá à tua patroa que se quer saber mais tem de pagar. Mas olha que já levas aí muito que contar aos leitores dela.
— Sim — respondi —, já vejo que temos muito que falar de BDSM.
— BD quê?! O que é isso? Ah! Essa coisa que eu estava a contar de dar porrada nos clientes? — E deu uma gargalhada que se deve ter ouvido na rua!
E prosseguiu:
— Sim, arranjo-te mais algumas histórias dessas, mas ficam para as próximas conversas. Agora, filho, desampara-me a loja, que tenho clientes à espera, e agora trabalho como bruxa-vidente, vê lá as voltas que a vida dá! Mas não julgues que me passou despercebido teres deixado de tomar apontamentos...
Sorriu, com ar maroto.
*
De facto, porque haveria eu de ter tomado apontamentos de algo que, apesar dos muitos anos decorridos, ainda tinha bem gravado na memória?!
..oOo..

Na noite desta entrevista, não dormi. Antes de mais, porque tinha de preparar (e enviar) o texto para a Revista de Cabyria. Depois, porque seria preciso fazer algumas modificações no seu teor, para que, ao menos, não se percebesse que D. Hermínia se limitara a contar o que fizera comigo, muitos anos antes!
Dirá quem me lê que eu não precisava de ter ido à Feira Popular para sair de lá com um texto assim, em que se relatavam memórias MINHAS e não — como me haviam pedido — Memórias de uma Domme.
Mas a experiência da entrevista, quanto mais não fosse pelo insólito do ambiente, ultrapassara — e em muito ! — um simples relato. E eu já pensava mais no texto do próximo número da revista do que no actual!
Contudo, à força de muitos cafés tomados ao longo da noite, consegui redigir um texto bem aceitável que, ainda de madrugada, enviei à minha nova patroa...
*
— Mas que raio de delírio é este que estou a ler?! — Era Cabyria, ao telefone, quando eu tomava o meu banho de imersão para me recompor da noite em branco.
Ela não estava zangada — apenas oscilava entre a incredulidade e a estupefacção. E com bons motivos pois eu, talvez delirante, ainda acrescentara alguns pormenores da minha imaginação e que eram isso mesmo: produto, apenas, da minha imaginação.
Inventei, por exemplo, que, no decorrer da entrevista, D. Hermínia tinha aberto uma gaveta e tirado dela um pequeno chicote, dizendo: «Este foi o que tu me ofereceste! Guardei-o religiosamente, e palpita-me que ainda o vais sentir no pêlo algumas vezes, pela minha mão!».
Na realidade, nem tudo era mentira, como adiante se verá.
Mas continuemos...
*
A entrevista saiu, ilustrada com uma foto de uma Domme actual, com uma legenda que a própria Cabyria compusera: «Julgam que só agora é que existem Dommes, subs e BDSM?».
Quando, por fim, se convenceu que o que eu escrevera era verdade, entusiasmou-se, publicou a crónica na página 3, e encomendou-me mais umas quantas entrevistas, dando-me carta-branca para fazer o que quisesse — com D. Hermínia ou outra qualquer.
E acertou em cheio!
Enquanto as suas publicações no Facebook continuavam a ser um fiasco (sem conseguir vender nada), a revista em papel (embora apoiada por uma edição digital — um resumo em PDF) esgotou rapidamente.
O BDSM, em Portugal, continua a ser praticado quase às escondidas; o Facebook vive de fakes (até se devia chamar FAKE-book) e os homens-sub vivem no pânico de que os seus familiares, amigos e vizinhos descubram que são escravos da esposa, ou até mesmo da mulher da limpeza!
Sabendo bem isso, Cabyria (ela própria um fake-vezes-sete!) receava que a BDSM Obsession fosse um flop, mas felizmente estava redondamente enganada.
E eu tive a grata surpresa de saber que a caixa-de-correio da revista não parava de receber mensagens por causa do meu trabalho — e a seu tempo referirei algumas que, pelo seu teor, merecem destaque.
A minha primeira reacção foi telefonar à D. Hermínia, a dar-lhe a novidade do êxito, a felicitá-la e a anunciar que, se quisesse, podia vender mais algumas entrevistas.
— Vamos ter conversar melhor sobre isso, meu querido — foi a estranha resposta — Essa tua patroa não vai enriquecer à custa dos jantares de frango assado que me vais pagar.
— Também lhe pagarei o tempo das entrevistas, D. Hermínia — respondi, antevendo que iria ter dificuldades.
— E era só o que faltava, que não as pagasses! Mas vai deitando conta à vida, que eu assim não me governo.
E quando, finalmente e impaciente, lhe perguntei quanto queria, limitou-se a dizer que ia pensar!
..oOo..
O tempo passou-se Aproximava-se já a altura de preparar o número seguinte da Revista e D. Hermínia, com quem eu contava para fazer a página, não me atendia o telemóvel nem me contactava!
Resolvi, então, preparar uma alternativa, e ela estava bem debaixo dos meus olhos, sob a forma de uma enfiada de mails de mulheres que diziam estar em condições de contar as suas histórias passadas.
Todas elas adiantavam mesmo algumas coisas, e a maioria mandava fotos — umas actuais, outras dos tempos a que se referia o que queriam contar.
E tinha eu acabado de fazer uma short-list e apagado tudo o resto quando — haja Deus! — D. Hermínia me telefonou.
Estava fria, profissional, e QUERIA a entrevista para essa mesma noite, em sua casa, exigindo 100 euros por uma conversa de 1 hora, ou 250 sem limite de tempo!
E disse uma coisa que me gelou:
— Escusas de trazer a revista deste mês, que eu já a comprei. Aliás, vamos ter de ter uma conversinha acerca de algumas coisas que escreveste...
..oOo..
A exigência de mais dinheiro, por parte de D. Hermínia, criava-me um problema em que eu ainda não tinha pensado.
De facto, os 20€ que eu lhe tinha dado da primeira vez eram uma verba perfeitamente aceitável, que eu havia pago do meu bolso, e de que nem sequer falara a Cabyria.
Mas agora, com um valor cinco vezes superior, já não podia ser assim. Teria de lhe colocar a questão, e saber se ela estava disposta a pagar tanto.
Infelizmente para mim, não consegui contactá-la a tempo, pelo que resolvi arriscar, na certeza de que me pagaria o que eu viesse a despender, em face da qualidade do trabalho que iria produzir...
*
E foi assim que, pouco depois, eu estava a tocar àquela velha campainha da Rua Ferreira Lapa, pronto para o ritual do costume nessas casas antigas:
Depois de enxotar o gato, a locatária assoma à varanda ou à janela para ver quem é, e depois abre o trinco da porta da rua puxando um velho e ensebado cordão de seda que percorre toda a escada.
A entrada, como em todas as casas dessa época, era — e continuava a ser — escura.
Os degraus de madeira exalavam o mesmo cheiro a cera de outros tempos, e até a passadeira de juta vermelha, fixada com varões de latão, parecia ser eterna.
Subi, então, até ao 2º andar. A porta já estava entreaberta e entrei, sorridente, como sempre fizera.
Mas — ah! — que diferença! Quando dantes me esperava ali uma mulher bela e imponente (quase sempre semi-nua ou envolta num roupão de seda), aquela que agora me recebia acusava bem os anos e uma vida amarga e difícil.
Mostrando bem que não estava para muitas conversas, D. Hermínia conduziu-me então para a sala de visitas (dantes era para o quarto!), fez-me sentar num velho sofá de vinil e ofereceu-me um café acabado de fazer.
— Vamos lá então ao nosso assunto — disse ela — A tua patroa ralhou contigo por causa do preço?
Disse-lhe que não, e fugi do tema dos dinheiros.
— Então o que queres hoje saber, meu filho?
Comentei, então, que toda a nossa conversa anterior não fora mais do que um relato do que se passara comigo.
— E depois?! Não gostaste de saber que, ao fim de tantos anos (e de tantos clientes que eu tive depois de ti), me lembro perfeitamente do que fizemos? Então ainda vais ficar mais espantado quando ouvires o resto!
Voltou a encher as chávenas com café, desligou o telemóvel para não sermos interrompidos, e tomou a iniciativa da conversa:
— Então foi assim: lembras-te quando eu te disse que tinha um outro cliente que me pedia que eu lhe batesse? E por isso tu disseste que também querias experimentar?
— Claro que me lembro... — respondi.
— Então ficas agora a saber que te menti. Eu estava era com uma grande vontade de te dar essas lambadas todas, e usei essa conversa. Olha, e tu que bem gostaste, pois vieste-te logo!
— Então...? Isso não era habitual? — perguntei, perplexo.
— Nessa altura, não. Era muito raro haver clientes a pedirem essas coisas esquisitas. Tinham vergonha, sabes? Eu bem via quando eles queriam, mas como não pediam, eu também não estava para me chatear. E tu também nunca me enganaste, meu lindo! Com essa carinha de submisso estavas mesmo a pedi-las!
Riu-se, numa gargalhada que eu acompanhei sem grande vontade, e prosseguiu:
— Da vez seguinte, e quando tu te estavas a despir, já fui eu quem perguntou se não querias apanhar, lembras-te?
Fiquei de boca aberta! Sim, era verdade! Mas como era possível que ela se recordasse disso tudo?!
E ainda era só o princípio!
Ela saboreou a minha estupefacção, bebeu mais um golo de café, e continuou:
— Ajoelhaste-te na minha frente, a tremer todo, e deves ter pensado que eu te ia esbofetear outra vez. Mas em vez disso desapertei o sutiã e dei-te uma surra com ele. Claro que não te doeu nada, e quando começaste a pedir piedade era só teatro. Mas essas coisas são mesmo assim, há muito teatro. Depois, ficaste a olhar para as minhas pernas, de olhos em bico, e vieste-te à mão, a meus pés. Lembras-te, ou queres ouvir o resto?
Não era preciso. Eu já sabia a continuação da história:
Na próxima ida lá a casa, eu já levava um pequeno chicote que eu mesmo fizera, com cordões de couro e nós nas pontas.
— Ah, D. Hermínia! Mas olhe que dessa vez já doeu a valer!
— Isso sei eu, meu lindo. Eu fiz os possíveis para que fosse assim. Tinhas-me pedido para não tirar o casaco de peles e eu fiz-te a vontade. Aliás, nem sequer me despi. Tu é que ficaste ali, todo nuzinho, a apanhar no lombo como gente grande. E depois de te vires, ficaste a torcer-te no tapete, a gemer. Ah, e à saída obriguei-te a beijar-me a mão e a agradecer, lembras-te?
Tudo isso era verdade, passara-se mesmo assim!
— Agora vais ver a melhor de todas...
E, abrindo uma gaveta da mesa onde tomávamos o café, mostrou-me uma relíquia: nem mais nem menos do que esse mesmo chicote que, tantos anos antes, eu lhe oferecera - e que tantas vezes "conhecera" de perto!
— A tua patroa também usa uma coisa destas contigo? — perguntou, trocista.
Não lhe respondi, mas o meu silêncio satisfê-la perfeitamente.
— Então? Já tens material para a página deste mês? Espero que sim, pois a nossa horita está a chegar ao fim.
E estava eu, mais uma vez, a pensar que não havia precisado de tomar apontamentos, quando ela pôs em cima da mesa um exemplar da revista e disse:
— Mas ainda não falámos de uma aldrabice que tu aqui escreveste. Foste inventar que eu, a Cigana Mandala, te mostrei este chicote. Não é importante, mas não é verdade. Porque é que inventaste essa? Deu-te para ter saudades dele, foi isso?
Sorri, contrafeito, vendo que D. Hermínia não gostara dessa invenção que eu, para enriquecer a narrativa, metera no texto.
E foi nessa altura que ela pegou no velho chicote, mo aproximou da cara, e, com voz tremente, me perguntou:
— Preferes que seja aqui na sala, ou no quarto, como dantes?
..oOo..
Fiquei estupefacto!
— Por favor, D. Hermínia, eu não vim aqui para essas coisas... Isto é trabalho!
Ela, então, caiu em si. Pousou o chicote no chão, embaraçada, e notei-lhe que os olhos se humedeciam!
— Eu sei que estou velha; sim, eu sei. Mas tu sempre dizias que nestas coisas de chicotes a idade não importa...
— E é verdade, sim — respondi eu, comovido e sem jeito. Certamente noutro dia venho cá e matamos saudades dos velhos tempos. E até lhe trago mais umas coisas, como algemas, mordaças, um bom cavalo-marinho... Pode matar saudades!
— Está bem, filho, mas então vou dizer-te uma coisa que nunca disse a ninguém.
Fez uma pausa, como que a ganhar coragem para uma confissão difícil, e desfechou:
— Não estranhas que eu me lembre de todas as nossas coisas? Das que te contei e de muitas outras, de que se calhar já nem te lembras, mas eu sim?
— Sim, D. Hermínia, confesso que acho estranho...
— Pois é, filho, mas é que aconteceu comigo uma coisa que eu nem imaginava. Vê lá tu. Eu sou quase analfabeta, filha de pai incógnito e órfã de mãe desde os seis anos, e entrei para a maldita vida de puta muito nova. Se te dissesse com que idade, nem acreditavas. E depois fui crescendo e ganhando dinheiro sempre da mesma maneira: abrindo as pernas — anda cá, mete aqui — e pronto. Os fregueses que sempre tive não pediam mais do que isso. Eu já tinha ouvido falar de homens e mulheres que gostavam de levar porrada. Sempre achei que isso era uma maluquice como outra qualquer, uma tara. Mas quanto tu me apareceste já não era bem assim, pois eu tinha visto, pouco antes, umas revistas pornográficas com cenas dessas, e descobri que aquilo me dava um tesão danado. A ideia de ser uma mulher de chicote era um prazer novo e muito bom. A partir daí, comecei a tentar levar alguns clientes a fazer isso comigo, mas nunca consegui. Ou porque não gostavam ou porque tinham vergonha. Mas quando me apareceste, com essa carinha... Ai, que vontade me deste de te dar um enxerto de porrada!
— Bem, D. Hermínia, esta coisa a que hoje se chama BDSM é mais complicado, mais requintado... Não é só dar pancada!
— Então explica-me lá isso, filho.
Eu, então, liguei o telemóvel e mostrei-lhe algumas páginas de dommes que eu já sabia que eram boas — começando logo pela de Cabyria, claro!
Ela até se levantou, para ver melhor!
E eu só pensava:
«Como é que, em pleno séc. XXI, pode haver pessoas que nunca tenham acedido à internet?». Mas era o caso, sim, e, se eu não estivesse com pressa de acabar a crónica, tínhamos ficado a noite toda a ver as banalidades habituais, de dommes e subs a brincarem aos escravos, felizes da vida!
E confesso que fiquei embaraçado quando ela, pedindo uma pausa para ir fazer mais café, me disse:
— E tu, um homem feito, também andas metido nisso? Também tens uma dona que te dá porrada? Se calhar, até tens mais do que uma!
Aproveitei a pausa para respirar e arrumar ideias:
O meu velho chicote estava ali mesmo ao lado, no chão... No ar, o perfume forte e inebriante que D. Hermínia sempre usara... No telemóvel, continuava a correr um dos vídeos que eu guardava e com que por vezes me masturbava... E ela ali à mão, disponível e desejosa de experimentar aquilo tudo, e de entrar — apesar da idade — nesse fascinante mundo do BDSM, onde se entra mas de que nunca se sai...
Sim, e porque não?
D. Hermínia voltou com mais café e disse:
— Mete lá outra vez a correr o filme dessa gaja na praia...
Era de esperar! Eu tinha aberto o vídeo do YouTube intitulado Terror no Canavial — lembram-se? — e ela parecia hipnotizada com a cena de chicote na rocha junto ao mar.
— Esse gajo do filme até pareces tu! Ai, filho, desculpa lá, mas isso está a dar-me um tesão danado! Tem paciência, queridinho! Deixa lá os 100 euros que trouxeste para me pagar, que o pagamento que eu quero é outro! Vá, vamos ao meu quarto, que quando eu fui fazer café aproveitei e liguei o aquecimento!






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