Ele queria comer a vagabunda ruiva - Samara, a fantasminha tarada [Cap.8]

  • Temas: EscritorAnônimo, sobrenatural, fantasmas, voyeur, ruiva, ciúme, masturbação, siririca, pornô,
  • Publicado em: 19/10/25
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  • Autoria: EscritorAnônimo
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Private Muse

[ CAPÍTULO OITO ]

ELE QUERIA A VAGABUNDA RUIVA




Saímos da casa da Jéssica por volta das sete e dez. O tempo estava fechado e, no horizonte, o laranja do pôr do sol estava parcialmente encoberto por nuvens escuras.

Ricardo parecia tenso, nervoso.

— Você tá bem? — perguntei, preocupada.

— Uhum... É que... é estranho ir pra casa assim... — Ele pôs as mãos nos bolsos da calça. — É estranho ficar morto.

Balancei a cabeça, concordando com ele.

— É verdade, mas essa sensação que você tá sentindo vai passar... Vai ficar tudo bem.

Continuamos andando em silêncio por mais alguns minutos e, quando chegamos em frente à casa onde Ricardo morava, ele ficou parado na calçada em frente às grades do portão olhando para ela como se não quisesse entrar. Eu sabia muito bem que visitar seu local de morte poderia ser bastante traumático.

— Se você não quiser entrar, tudo bem — disse eu. — A gente volta e... talvez vem aqui outro dia... Você que sabe.

Ele olhou para a placa de vende-se ao lado do portão por alguns segundos antes de responder.

— Não. Eu vou entrar... Quero ver como tá.

Passamos pelo portão e ele instintivamente tentou abrir a porta da casa antes de lembrar que podia apenas atravessá-la.

Estava escuro lá dentro. A pouquíssima luminosidade que entrava pela fresta na cortina da janela era das luzes dos postes da rua.

— Merda — falei. — Eu esqueci que ia tá muito escuro. Devia ter trazido alguma coisa pra iluminar.

Ricardo ficou quieto em meio à escuridão.

— Você tá bem? — perguntei.

Ele suspirou.

— Tô... É que... é... estranho voltar aqui... desse jeito... Nem dá pra acreditar que isso aconteceu comigo.

Senti a voz dele embargada.

— É difícil, eu sei como é. Mas fica tranquilo. Eu tô aqui com você...

Nesse momento, ouvimos uma espécie de grunhido vindo dos fundos da casa.

— Tem gente aí? — Ricardo perguntou.

Na escuridão, pude ver um vulto com olhos amarelos brilhantes.

— Ei... Vocês tão fazendo o que aqui? — Ele tinha uma voz rouca e parecia mancar. — Sai! SAI, SAI DAQUI! — esbravejou ele. — BANDO DE FILHA DA PUTA! SAI DAQUI! VÃO PRO INFERNO! DESGRAÇA!

Assustada, avisei Ricardo:

— Vamo sair, rápido!

Saímos correndo da casa e paramos na calçada do outro lado da rua. Ainda ouvimos um grito vindo lá de dentro.

— Que era aquilo? — Ricardo perguntou, assustado.

— Era só um fantasma do mal. Ele entrou na sua casa. Deve ter aparecido depois que eu vim aqui com a Jéssica.

— E por que ele veio praí?

— Sei lá... A casa tava vazia e ele deve ter visto e ficou por aí. Depois de um tempo, eu acho que ele vai embora.

Naquele momento, soprou um vento gelado e começou a chuviscar.

— E a gente faz o quê agora? Não tem como... tirar ele daí?

— Não. Ele vai sair sozinho. Acho que é melhor a gente ir pra casa... A gente pode voltar outro dia. Você que sabe.

Ricardo fitou sua antiga casa com uma tristeza no olhar.

— Tá bom..., vamo lá.

Saímos pela rua em silêncio. Ricardo estava muito desgostoso com a visita à sua antiga residência.

— Não fica mal — disse eu. — A gente volta aqui outro dia. Prometo.

Ainda tentei tirar de sua mente a impressão negativa daquela nossa visita contando uma aventura que tive anos antes com um fantasma parecido com aquele que vimos, mas isso não serviu para animá-lo.

Quando estávamos perto da casa da Jéssica, dei a ideia de irmos para a pracinha na rua atrás dela e ele aceitou.

A pracinha é pequena. Tem um gramado e uma grande árvore frondosa de um lado e, do outro, um quiosque. No centro dela, um poste de luz e, em ambos os lados dele, dois bancos de madeira.

Chegando lá, sentamos em um dos bancos voltados para o quiosque. Ele estava aberto e havia meia dúzia de pessoas lá.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Ricardo estava com o olhar distante.

— Você tá bem?

Ele ficou olhando para o nada. Parecia pensativo.

— Tô... É que... é esquisito demais ficar morto.

— É, mas eu tô com você agora... Vou ser sua guia. No começo é ruim mesmo. Comigo te ajudando, isso vai ficar mais fácil.

Ricardo assentiu com a cabeça.

— Tomara.

Olhei para o quiosque e vi um jovem casal saindo de lá e passando na calçada do outro lado da pracinha. A moça estava usando uma saia branca e comia alguma coisa. Acho que uma empada. Ver aquele casal me fez pensar no Ricardo e eu. Bem que eles poderiam ser nós dois. Eu e ele, um ao lado do outro, nos amando, nos beijando, nos tocando.

Olhei Ricardo, que continuava cabisbaixo, e aproximei minha mão de sua perna, tentando tocá-lo em vão. Ele continuava intangível para mim.

— Ei, você ainda lembra da primeira vez que a gente se viu? — perguntei.

— Hum...? É... Acho que sim — Ricardo contraiu as sobrancelhas, fazendo esforço para lembrar.

— Que eu fui na sua casa e aí... — Sorri. — A gente foi pro seu quarto e fez amor?

Ele manteve uma expressão neutra e recostou-se no banco.

— É... Lembro.

— Pena que a gente não consegue mais se encostar, senão a gente já podia ter feito alguma coisa.

— É.

Nos entreolhamos e mostrei um sorriso largo para Ricardo. Foi aí que, impulsivamente, aproximei meu rosto dele e tentei beijá-lo. Ele não resistiu e nossos lábios se encontraram. Não podíamos nos tocar, mas senti um leve formigamento quando nossas bocas uniram-se.

Mantive meu sorriso, já ele, continuou sisudo e perguntou:

— Mas por que a gente não consegue se tocar?

O sorriso sumiu do meu rosto.

— Não sei... Quando eu te encontrei de novo por causa do ritual, eu toquei em você normal, mas no outro dia não conseguia mais... Não sei explicar.

Era foda! Consegui reencontrar o Ricardo, mas não podia tocá-lo. Que merda!

De repente, ele bocejou alto. O sono chegara.

— Vem. Melhor a gente ir pra casa. — Levantei do banco e o chamei com um gesto. — E não se preocupa... A gente volta na sua casa outra hora. Aquele espírito não vai ficar lá pra sempre.

Ele balançou a cabeça concordando e saímos da pracinha a caminho da casa da Jéssica.



• • •



— Eu preciso ver a Beatriz!

Quando Ricardo disse isso, senti um aperto no meu coração fantasmagórico.

Infelizmente, ele sonhou durante a noite com a ruiva e acordou cedo pela manhã com ela na cabeça. E ele queria porque queria ver aquela arrombada de qualquer jeito. Puta que pariu! Não era melhor se ele apenas tivesse esquecido ela para sempre e nunca mais pensasse naquela praga?

Ele estava eufórico e andando pelo quarto em círculos, contando do sonho e falando o nome dela sem parar. Que ódio!

— Tem certeza mesmo que você quer ver ela? — perguntei a ele, enquanto abria mais a cortina da janela. — Ela pode ter saído daquela casa. Se mudado, sei lá.

— Como você sabe?

— Não, eu não sei. Mas ela pode não morar mais lá. E, além do mais, é melhor não ficar pensando muito nela. Você morreu... Não tem como você ficar com ela agora. Inclusive, ela nem vai conseguir te ver.

Ele desviou o olhar. Estava triste por saber que não poderia ter contato com a ruiva. Eu sentei na cama e cruzei os braços frustrada. Por que ele tinha que lembrar daquela infeliz logo agora?

— É... eu sei... — disse ele. — Mas eu quero ver ela — Ricardo sentou ao meu lado. — Eu queria saber se ela tá bem depois de eu ter morrido. Se ela ficou... mal sem mim.

Revirei os olhos, decepcionada. Caralho! Ele não tiraria aquela nojenta da cabeça de jeito nenhum.

— Tá bom. Depois a gente vai até a casa dela, mas é melhor não ficar criando expectativa. Já falei, ela não vai conseguir te ver nem te ouvir.

Ele consentiu, balançando a cabeça.

— Mas eu posso ir agora.

— Não! É perigoso demais sair por aí sem mim — menti. — Você pode encontrar... um espírito do mal no meio do caminho, como aquele que a gente viu na sua casa.

— Espírito do mal? Sério? Tá de dia agora.

Ele olhou para a janela de basculante. O tempo estava agradável lá fora. O céu estava nublado, mas os raios de sol conseguiam achar brecha entre as nuvens.

— Mas não importa se é dia ou noite. Eles ficam por aí o tempo todo. É bem ruim encontrar um deles, eles são horríveis. Se eles ficarem te seguindo, eles podem transformar sua vida num inferno. É melhor nem chegar perto. Sem falar que eles podem te machucar feio. Já aconteceu comigo várias vezes.

— Tsc, que merda! — Ele coçou a cabeça, contrariado.

Sei que era errado mentir e colocar aquele medo na cabeça do Ricardo, mas não queria que ele saísse da casa da Jéssica sem mim. Ele podia não voltar. Talvez até se tornasse um fantasma perseguidor como era o Henrique, que eu encontrara dias antes. Um espírito que seguia a ex-namorada por todos os lugares, achando que teria a chance de voltar a se relacionar com ela algum dia.

— Relaxa — falei. — A gente vai na casa dela... mais tarde, eu prometo. Não precisa ficar ansioso. Se acalma.

— Será que não dá pra gente ir pela sombra? Nem tá tão sol assim.

Levantei da cama e fui até a janela.

— Só que tem um pouco de sol aí. E se a gente tiver na rua e o tempo abrir do nada? Eu vou me queimar toda... Escuta o que eu tô falando, é só você esperar até de tarde e aí a gente vai. Por favor. Tô pedindo pra você numa boa e... pensando no melhor pra você.

Ricardo ficou quieto e deitou na cama. Ele estava com uma fisionomia melancólica. Realmente queria muito encontrar a Beatriz. Parecia eu quando ficava debaixo do poste na esquina por várias semanas seguidas sem ter contato com ninguém.

— Por favor, não fica bravo comigo... Eu juro que vou com você, tá? Eu só quero... que você não se apresse demais com essas coisas. Não fica criando expectativa. Isso aconteceu comigo também. Eu queria encontrar minha família depois que eu morri e isso acabou criando uma angústia muito grande... Eu só não quero que aconteça isso com você também.

Ricardo soltou um suspiro de frustração, mas compreendeu a situação e atendeu minha súplica.

— Então tá... Eu espero.

Ele e eu tínhamos algo em comum. Éramos fantasmas em busca de reencontrar o resto de família que ainda nos sobrava. Pelo menos eu era assim no início, anos antes. Eu ficava procurando maneiras de encontrar os parentes, mas não podia fazê-lo. Na verdade, boa parte dos espíritos passa por essa situação.

A saudade dos entes queridos afeta a todos. Sejam vivos ou mortos.

Sentei no lado da cama e Ricardo estava nitidamente mal. Eu precisava fazer alguma coisa. Foi aí que não aguentei e resolvi dizer a verdade.

— Eu preciso falar uma coisa pra você. Eu menti... Eu já encontrei e... falei com a Beatriz.

— Sério? E como ela tava?

— Tava bem. Eu fui na casa dela uns dias atrás e vi ela com umas amigas.

— A Marina e a Laísa?

— Não sei. Uma loira bonita e outra do cabelo cacheado. Só que depois eu encontrei ela na rua... Desculpa não ter falado isso logo. É que... eu não queria que você ficasse mal pensando nela. Inclusive, no dia que eu fui na casa dela eu vi ela falando de você.

— Sério? Falando o quê?

— Ah, falando que... você morreu... Ela tava triste por você.

Aquela minha fala deixou Ricardo ainda mais triste. Seus olhos até ficaram marejados. Se continuasse naquele assunto, ele começaria a chorar.

— Desculpa te falar isso assim... desse jeito. Eu já passei por isso. Eu ficava pensando como as pessoas que eu conhecia tavam vivendo sem mim. Meu pai, minha mãe... É difícil, mas não tem jeito. Você vai ter que ser forte e aguentar isso tudo.

Ricardo enxugou uma lágrima e disse:

— É... eu vou ter que ter força pra encarar... essa vida nova.

Ele suspirou outra vez.

— Eu menti pra você porque não queria que você criasse esperança à toa indo atrás da Beatriz. Eu gosto de você... Eu quero que você fique comigo. Não quero te perder de novo.

Nos entreolhamos e pude ver compaixão por mim nos olhos do Ricardo.

— Também gosto de você — disse ele. — Você é legal... Cuidou de mim.

Claro que não pude conter um sorriso satisfatório ao ouvir aquilo e ainda perguntei:

— E o resto das coisas que eu fiz com você?

— Como assim?

— Ué, por acaso esqueceu de vez das fodas que a gente teve?

— Não.

Depois que ele disse isso, o sorriso sumiu de meu rosto. Senti tristeza ao lembrar que agora nós não podíamos nos tocar. Quando consegui invocar o Ricardo com o livro, fiquei aliviada por reencontrá-lo, mas também estava feliz por poder transar com ele mais uma vez. Só que isso não era possível se nós estávamos intangíveis. Mas por que isso aconteceu? Por que no início podia tocá-lo e agora não? Eu não entendia a causa daquilo.

Até tentei reverter isso no dia anterior usando o livro, mas o danado não mostrou nada. Na verdade, depois que Jéssica e eu fizemos o ritual para trazer o Ricardo de volta, o livro ficou inerte. Consultamos ele algumas vezes e nada aparecia em suas páginas. Havia se transformado em apenas um livro comum. Talvez a magia tivesse dado defeito.

— Bom, vamo lá pra cozinha — falei. — Quero fazer outro teste com você.

Quando Ricardo e eu chegamos na cozinha, estava tudo quieto. Olhei no relógio de parede e eram quase sete horas. Jéssica ainda não acordara.

Puxei uma cadeira e pedi para ele sentar. Peguei uma colher na gaveta do armário e pus sobre a mesa.

— Vai. Você tem que tentar mexer ela. É só se concentrar. Imagina que toda energia que você tem no corpo vai pra mão.

Já tínhamos tentado isso, mas claro que não funcionou. Eu levei anos para conseguir mover objetos e mais outros para me materializar. Talvez Ricardo precisasse do mesmo tempo. Até arrisquei a ensiná-lo a flutuar, mas o máximo que ele conseguia era pular a uma altura normal. Se já era difícil para mim, imagina para ele.

Ricardo tentou por várias vezes pegar a colher, mas não conseguia de jeito nenhum. Ele até tentou movê-la com a mente olhando para ela fixamente e fazendo uma careta de esforço.

— Não dá! — ele exclamou, jogando as mãos para o alto. — Não vou conseguir.

— Calma. Isso demora. Eu levei muito tempo pra conseguir.

Ele cruzou os braços e soprou indignado.

— Eu não entendo isso... Não dá pra pegar as coisas, mas eu consigo sentar na cadeira. Não faz sentido isso.

Realmente, o que Ricardo falara era no mínimo interessante e também me deixava encucada. Fantasmas são intangíveis e invisíveis. Não podem ser vistos e podem atravessar paredes e pessoas, mas como conseguimos andar sobre o chão sem atravessá-lo e acabar indo parar no centro da Terra?

Nos meus quase vinte anos como fantasma, nunca consegui entrar no chão, mas podia atravessar qualquer coisa. Mas por quê? Qual a lógica da intangibilidade sobrenatural? Isso era algo que intrigava até outros fantasmas que eu conhecia.

— Não sei explicar — falei. — Isso tem a ver com a vontade. Se você quer sentar na cadeira, você consegue, mas se você só quer atravessar ela...

Depois que falei aquilo, inesperadamente, Ricardo atravessou a cadeira e caiu de bunda no chão, soltando um gemido.

— Nossa! Tá tudo bem?

Ele ficou deitado no chão com os braços estendidos.

— Isso depende da sua concentração — falei. — Se você quer ficar sentado na cadeira, você fica.

Ele continuou imóvel e apenas soltou um:

— Hum.

Enquanto ele estava deitado, tive uma ideia maliciosa. Aproximei-me de sua cabeça e fiquei sobre ele com meus pés ao lado de suas orelhas, de modo que o safado pudesse ver tudo embaixo do meu vestido.

— Pena que a gente não pode se tocar — disse a ele —, senão isso tudo ia ser pra você.

Ele olhou para minha peludinha e depois para mim como se pensasse: é, eu bem que queria ela pra mim agora.

Saí de cima do Ricardo e ele levantou-se um pouco aturdido pela visão da minha xoxota.

Foi aí que tive a ideia de pegar o livro da bruxa mais uma vez. Queria novamente tentar usar ele para achar uma forma de encostar no Ricardo.

— Vamo no quarto da Jéssica — disse eu. — Vou pegar o livro.

Quando atravessamos a porta do quarto, minha amiga encontrava-se jogada sobre a cama. Estava um pouco escuro e a safada tinha apenas parte das pernas cobertas pelo cobertor. Ela estava só de calcinha vermelha e blusa branca.

Fui até o criado-mudo ao lado da cama e peguei o livrão antigo, mas quando me virei, Ricardo estava parado ao lado da cama olhando o corpo da minha amiga. Ele estava até de boca aberta. Só faltava babar.

Sussurrei para ele:

— Fecha a boca e vamo embora.

Admito que fiquei um pouquinho incomodada com aquela atitude dele, mas Ricardo não tinha culpa da minha amiga gostar de dormir seminua.

Voltamos para a cozinha, mas aconteceu algo estranho. O livro não abria de jeito nenhum. Estava duro como pedra.

— Que porra é essa? — falei, indignada. — Não dá pra abrir.

— Tá duro?

Larguei-o sobre a mesa e pus as mãos na cintura, frustrada com o livro encantado.

— Por que ele fez isso? — Ricardo tentou pegar o livrão e tomou um choque. — AI!

Ele afastou a mão com um pulinho.

Vi nitidamente uma pequena descarga elétrica sair do livro até o dedo dele e o som de eletricidade.

Ricardo olhou para mim espantado e eu aproximei cautelosamente minha mão do livro, mas nada aconteceu.

— Por que ele me deu um choque? — perguntou ele, olhando a própria mão.

Peguei o livro e o abri normalmente, restando a mim responder apenas:

— Sei lá.

Naquele instante, Jéssica apareceu na cozinha se espreguiçando. Pelo menos ela vestiu um short.

— Bom dia... Tá fazendo o quê?

— Nada, eu peguei o livro e ele deu um choque no Ricardo.

— Choque? — A vampira olhou para mim e para o livro contraindo as sobrancelhas. — Ele dá choque também?

— É — falei, erguendo os ombros. — Não sei explicar.

Abri o livro outra vez e minha amiga olhou para ele parecendo estar nem um pouco afim de tentar tocá-lo e tomar um choque também. Então, ela só mudou de assunto.

— Eu vou sair agora de manhã — Ela foi em direção a geladeira. — Acho que só volto de noite.

— E vai pra onde?

— Vou encontrar o meu coroa — Jéssica sorriu. — Vou passar o dia todo com ele.

O tal coroa que ela se referia é um vereador da cidade que já era amante da minha amiga há uns bons anos. Inclusive, era o amante favorito da Jéssica porque, segundo ela mesma dizia, ele era charmoso, cheiroso e, o que ela mais gostava, tinha um pauzão grande e grosso. Mas, na verdade, minha amiga gostava dele por causa da mesada que ele dava para comê-la e ela ficar de boca fechada. A vampira era a puta do vereador. Ele comia o cu dela e dava um dinheirinho para sua vadia ficar calada. Um bom acordo para os dois lados.

— Já que você vai ficar aqui com o Ricardo, vocês ficam vigiando a casa.

Torci os lábios.

— Tá bom.



• • •



Sobre o livro mágico eletrizante, era impossível dizer por que aquilo ocorrera. Para mim, o melhor seria perguntar à bruxa sobre ele, mas eu não podia me arriscar a sair no sol para ir até ela e, além do mais, era sábado. Provavelmente, a loja estava fechada.

Jéssica, animada para dar o cu ao vereador, tomou banho, arrumou-se rapidamente e saiu. Quanto a Ricardo e eu, não nos restou opção além de assistir televisão e conversar sobre qualquer assunto. O foda foi quando ele começou a falar sobre a Beatriz e que queria logo vê-la.

— Não fica muito animado — falei a ele. — Já disse que ela não vai te ver nem ouvir.

Depois que comentei aquilo, Ricardo ficou chateado novamente. Até pedi desculpas, mas ele entendeu que eu estava apenas alertando sobre a nova realidade que ele vivia.

Realmente fiquei feliz por ele estar aceitando aquilo tudo numa boa.

No fim das contas, ficamos batendo papo durante horas sem parar. Até nos arriscamos a contar piadas bobas. Essa foi a melhor parte porque foi quando gargalhamos juntos. Fazia anos que não ria e me divertia daquele jeito. E foi muito bom ver o Ricardo rindo e feliz, mesmo que momentaneamente.

Resumindo, aquele foi um ótimo dia.

Ao entardecer, quando o sol estava se pondo, Ricardo e eu saímos da casa da Jéssica e fomos em direção ao cruzamento da 23 de Março com a Conceição Pires. Infelizmente, como prometido, era hora dele ver a ruiva de merda. Que raiva! Aquilo era desanimador. Pelo menos ele concordou em ser uma visita rápida.

E claro que eu precisava estar ao lado dele naquela ocasião. Não queria que Ricardo ficasse esperançoso demais com aquele encontro. Mas eu estava confiante de que ele não teria nenhuma expectativa muito positiva com aquilo após meus alertas.

Quando finalmente chegamos ao meu cruzamento escuro, paramos em frente ao portão da casa da Beatriz, ao lado da minha "esquina lar" e Ricardo respirou fundo. Ele estava tenso.

Olhei para trás e vi meu poste. Em breve teria que retornar a ele.

— Espera, Ricardo.

— O quê?

— Eu só quero que você não fique... triste por ver ela e... acabar sentind...

— Tudo bem. Eu só quero ver ela e saber se ela tá bem mesmo. Só isso.

Naquele momento, quis segurar a mão dele para me certificar que meu amor não ficaria longe de mim durante nossa visita, e até tentei fazer isso, mas minha mão apenas o atravessou sem ele nem ao menos perceber.

— Tá pronto? — perguntei.

Ricardo assentiu com a cabeça e deu o primeiro passo.

— Vamo lá.

Atravessamos o portão e a porta e entramos na casa que estava escura, exceto pela cozinha mais à frente e os pisca-pisca multicoloridos decorando uma parede da sala e a árvore de Natal ao lado do sofá. Fomos até a cozinha, mas ela estava vazia.

— Ela tá no quarto — disse ele.

Subimos as escadas e, quando atravessamos a porta do quarto, ela estava deitada na cama coberta por um cobertor cinza e mexendo no celular com fones nas orelhas.

Ricardo primeiro ficou estático por alguns segundos olhando a ruiva até que ele tomou coragem, se aproximou da cama e tentou passar a mão no rosto da ex, mas apenas atravessou a cara dela.

— Ricardo, não faz isso — alertei. — Você vai ficar se sentindo mal se ficar fazendo esse tipo de coisa... Melhor nem tentar tocar nela.

Ele, sabendo que não conseguiria nada, deu um passo para trás.

— É que...

— O ruim de ser fantasma é isso: só poder olhar e não tocar — expliquei.

Foi aí que ele enxugou os olhos. O coitadinho estava chorando. Ele fez um esforço para não demonstrar, mas as lágrimas o denunciaram.

— Não fica triste — falei a ele. — É melhor não ficar assim. Só vai te deixar pior.

Ele enxugou os olhos com a manga da camisa e consentiu para mim. Ele sabia que eu estava certa.

Beatriz, sem ter a menor possibilidade de saber que estávamos ali ao lado da cama, continuou mexendo no celular despreocupadamente.

Ela realmente era muito linda. Ricardo tinha um bom motivo para estar triste por não poder tocá-la. Eu até estava sentindo um pouco de ciúme dele estar ali junto a ela. Ele queria poder foder ela, eu tenho certeza. Queria voltar a fazer o que estava fazendo naquele dia em que os vi transando pela janela.

Olhei para trás e vi a tal janela fechada. Meses antes, eu vi de cima da minha árvore o Ricardo e a ruiva pelados dentro daquele quarto.

— Será que não tem mesmo um jeito de falar com ela? — perguntou ele.

— Não.

Até tinha, mas eu não queria que ele falasse com ela. Imagina se isso criasse algum tipo de expectativa nele.

— Mas você pode aparecer pra ela, não pode?

— É... Eu posso, mas se eu fizer isso, ela vai é sair correndo de medo... ou desmaiar.

Ele enxugou os olhos outra vez, pôs as mãos nos bolsos e suspirou desgostoso. Estava triste e eu não queria mais vê-lo assim. Foi aí que falei:

— Eu consigo entrar na cabeça das pessoas quando elas tão dormindo. Acho que eu consigo falar com ela de você num sonho. Só não sei se ela vai lembrar.

— Sério?

— É..., talvez.

— Então eu quero que você fale com ela.

— Tá... Então vamo ter que ficar aqui e esperar ela dormir.

Ricardo cruzou os braços e ficou olhando fixamente o rosto da Beatriz. Nem piscava.

— Você gostava mesmo dela? — perguntei.

— Sim.

— Mas... era amor mesmo?

— Ah... Era. A gente tava junto há pouco tempo, mas eu gostava dela mesmo... Ela é legal e... a gente se dava bem.

Notei um sorrisinho surgir em seus lábios. Ele parecia ter lembrado de algo. Talvez a recordação de algo bom que acontecera entre eles. Uma foda boa, quem sabe.

De qualquer modo, foi bom vê-lo sorrir. Apesar de ser um sorriso motivado por outra, era melhor do que continuar vendo ele triste e choroso como antes.

Mas foi naquele momento que notei o cobertor cinza da Beatriz se mexendo na região da virilha dela. A safada começou a se masturbar.

— Ela tá batendo siririca? — perguntei.

— Hã — Ricardo nem notara.

Eu olhei a tela do celular dela e a safada estava assistindo um filme pornô. Um cara comendo uma gostosa loira em cima de um sofá.

— Ela tá assistindo pornô.

Ele também olhou o celular e confirmou:

— É.

E a ruiva estava empolgada. Com a velocidade com que o cobertor começou a mexer, dava para ver que ela tinha uma mão ágil.

Ricardo perguntou:

— E agora, o que a gente faz?

— Sei lá... Você quer ir embora?

Eu não queria. Ergui a mão sobre o corpo da safada e senti o calor exalando do corpo dela. Uma energia sexual deliciosa.

— Não... Vamo ficar.

Beatriz parou a siririca, tirou a mão de debaixo do cobertor e melou os dedos de saliva antes de voltar a se masturbar. E ela aumentou a velocidade. O volume no cobertor mexia freneticamente sem parar.

Quando olhei para Ricardo, vi que ele não tirava os olhos da mão veloz de Beatriz sob o cobertor e também notei um volume na calça dele. O safado estava de pinto duro.

— Você gosta disso? — perguntei. — De ver as pessoas fazendo coisas sexuais?

— Hã? Sei lá.

— Isso é bem normal pros fantasmas. Se chama voyeur... Eu acho bom ficar olhando.

Assim como ele, também fiquei excitada. Um calorzinho gostoso surgiu debaixo do meu vestido.

Beatriz continuou a toda velocidade até que interrompeu a masturbação, baixou a roupa por debaixo do cobertor até o tornozelo e abriu bem as pernas. Então, ela retomou a siririca com ainda mais vigor e soltou um gemidinho.

— Ela vai gozar — disse eu.

Dito e feito. A safada contraiu as coxas enquanto mordia os lábios e soltava um suspiro orgásmico. Ela alcançara o clímax sexual e a energia que emanava de seu corpo aumentara. Claro que aproveitei a oportunidade e suguei parte daquele calor maravilhoso.

Depois da gozada, Beatriz ficou quieta enquanto respirava um pouco ofegante. Estava se recuperando do orgasmo. Até que a ruiva saiu de debaixo do cobertor, sentou na cama com a calcinha e o short nos joelhos e os pentelhos ruivos à mostra.

Ela respirou fundo, levantou, pôs a roupa de volta no lugar e saiu do quarto, mexendo no celular e nos fones de ouvido.

Olhei para Ricardo e o volume em sua calça estava ainda maior. A única coisa que pude dizer a ele naquele momento foi:

— Pena que a gente não pode se tocar.

Ainda ficamos na casa da ruiva por algumas horas esperando ela dormir para que eu falasse com ela em sonho sobre o Ricardo.




Continua no próximo capítulo...











NOTA DO AUTOR: Só uma curiosidade que pode parecer meio besta, mas eu tenho um baita trabalhão para definir o dia, a hora, o clima, o tempo, a posição do Sol no céu, a fase da Lua, e outras coisas "globais" que estão envolvidas direta ou indiretamente na história dos meus textos. Por exemplo: como este capítulo acontece em meados de dezembro de 2017 e na ponta da região nordeste do estado de Goiás, eu preciso pesquisar como estava o clima, a posição do Sol em determinados horários, a fase da Lua naquela data, o fuso horário da região, o horário de verão que ainda existia naquele ano. Enfim, isso dá um trabalho. Tudo isso para dar um tom de mais realidade à história.

É isso. Um fato curioso de como funciona meu processo de escrita. Obrigado por ter chegado até aqui e até o próximo texto.


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