Amaro

Nasci numa cidade pequena do interior do Ceará, onde aprendi cedo que as palavras têm peso. Comecei a escrever aos doze anos, num caderno de capa dura que minha avó me deu de presente. Naquela época, escrevia sobre o vento, sobre o gado, sobre o cheiro de chuva na terra seca. Não sabia ainda que aquilo seria minha vida inteira. Aos dezoito fui para Fortaleza estudar Letras. A cidade me assustou no começo, mas logo percebi que ela também tinha suas próprias histórias para contar. Estudei de dia e escrevi de noite, durante quatro anos. Publiquei meu primeiro conto numa revista universitária e recebi um elogio de um professor que guardo até hoje. Depois da faculdade, trabalhei como revisor, professor de português, redator publicitário. Cada trabalho me ensinou algo sobre a língua. O mais importante foi o de revisor: aprendi que toda frase pode ser melhor, que nenhum texto nasce pronto, que a reescrita é onde a literatura de fato acontece. Hoje escrevo contos e crônicas. Tenho especial interesse pelo cotidiano, aquele momento banal que de repente revela algo enorme. Acredito que a literatura não precisa de grandes dramas para ser verdadeira. Às vezes basta uma xícara de café fria, uma janela aberta, um silêncio entre duas pessoas.

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